LNCrawler

Capítulo 52. Dedos Dourados 30

O Abismo De Om — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 52. Dedos Dourados 30

Seguindo pelo fluxo dos séculos, Benk entendeu a disposição das obras nos corredores das estantes e, em pouco tempo, sem grandes dificuldades, encontrou o lugar onde repousavam os livros do milênio que desejava.

Eles estavam no segundo piso da ampla galeria, um pouco após o primeiro lance de escadas.

A densidade temática e a quantidade de exemplares revelaram os ecos do passado. Naquela época, a produção de grimórios proliferou e encontrou o seu auge, em paralelo ao projeto de alfabetização e desenvolvimento tecnológico, que estava a pleno vapor, literalmente.

Do oitavo até o décimo segundo milênio, o progresso espalhou-se por todo o continente, encabeçado pela Ordem dos Magos do Platô Central e pelas políticas públicas dos senhores dos Estados que, em grande parte, já se encontravam consolidados por força maior.

As disputas territoriais por fronteiras ou recursos foram apaziguadas pelo Grande Rei, a escravidão dos metamorfos foi obliterada e a alquimia dos acadêmicos tomou forma.

Duas áreas de pesquisa destacaram-se em absoluto durante esse período: a área dos cristais e a das runas. Foi uma época na qual os Doutores Acadêmicos, os Drak — pesquisadores que se destacavam em diversas áreas do conhecimento — ficaram obcecados por investigar a possibilidade da imortalidade. Eles compartilhavam o progresso e cooperavam com os diversos centros de pesquisa e ensino do Reino, o que culminou na consolidação de um novo tabu, inaugurando assim o que foi convencionalmente chamado de Era das Bestas . Foi nesse período que a praga dos Drak empurrou a sociedade à beira do completo colapso.

Os olhos semicerrados do escriba dançaram ao examinar as lombadas dos exemplares enquanto as tocava para sentir a textura do couro antigo. E, depois de uma meticulosa investigação por fileiras intermináveis de encadernados, finalmente encontrou o que procurava.

Naquele instante, no amplo salão da biblioteca mágica, ele não conseguiu conter as palavras de entusiasmo: Este mesmo! Mas o som da sua própria voz não foi ouvido.

Os selos de silenciamento continuavam ativos. Isso o fez retirar do bolso os selos de luz, apenas para perceber que estes também não haviam se desativado. E isso, após tanto tempo vagando entre aquelas estantes, era estranho… Como será que Pelk se sentiria aqui? , questionou-se o escriba, sabendo que não conseguiria acessar essa sensação.

A única dedução inequívoca permitida a qualquer pessoa que ali adentrasse era que a concentração de mana daquele lugar deveria ser absurda.

Com o livro que procurava em mãos, Benk sentiu o alívio, sem pedir permissão, percorrer todo o seu corpo exausto. Desabou no chão, não apenas sentando-se, mas estirando o corpo dolorido completamente sobre a pedra fria do pavimento.

Fechou os olhos e relaxou os músculos, menos os da mão direita, que apertavam com força o grimório intitulado O Princípio do Fluxo no Entalhe das Runas: Um Ensaio sobre a Fixação das Palavras de Poder.

A intensa luz que emanava dos cristais pendurados no teto impedia que suas pálpebras acolhessem as sombras da sonolência. Ele não ouvia absolutamente nada, mas sentia a ardência nos membros e a dor no peito enquanto respirava profundamente, permitindo que suas costas se rendessem ao chão.

Não se mexeu por um bom tempo; não queria se levantar, e até mesmo o sofrimento físico parecia mais um prazer a ser contemplado do que um sintoma de sua petulância rebelde.

Bem, já que não parece ter ninguém além de mim aqui, melhor aproveitar a oportunidade e adiantar a leitura, certo?, refletiu o escriba.

Benk ergueu-se devagar, evitando cambalear. Abriu o grimório de Endriv e, enquanto andava despreocupadamente pelos corredores de livros, chegou exatamente ao centro do pavimento do segundo piso. Ali ele encontrou mesas amplas de mogno escuro e cadeiras disponíveis aos visitantes ou invasores, para que pudessem apreciar com calma o conhecimento ímpar elaborado pelos conjuradores de toda sorte que já habitaram aquele vasto continente do Reino Antigo.

Quem liga para o tempo quando está se divertindo?

Por ampulhetas que nunca foram contadas, o escriba mergulhou nas páginas, palavra por palavra, até perceber que chegara ao fim do livro.

Quando finalmente ergueu o rosto e se desvencilhou do universo rúnico que o acolhera, a expressão exata que descrevia as emoções de Benk era a de absoluto arrebatamento.

Movido pela oportunidade, ele retornou aos corredores, abrindo a esmo os grimórios que mais lhe chamavam a atenção, folheando alegremente as magias, as anedotas e as curiosidades. Magos são fascinantes, mesmo quando se repetem infinitamente. Muitas conjurações eram exatamente as mesmas, separadas por peculiaridades culturais, de personalidade ou relatos particulares que os autores inseriram em seus textos. Alguns enxergavam além, inovando na abordagem; outros experimentaram novas hipóteses, consolidadas em tentativa e erro. Arriscaram a vida e, pela quantidade massiva de livros incompletos — que terminaram abruptamente —, pode-se supor, infelizmente com grande margem de acerto, que a aposta na ousadia inovadora tenha custado tudo o que podiam pagar.

Além de uma biblioteca, certamente aquele lugar era também um cemitério, onde as lápides dos magos guardavam os segredos da vida e do mundo.

Muito antes de Benk se dar por satisfeito, o silencioso invasor notou o reverberar sonoro de uma tranca liberando o acesso. A massiva porta de entrada do terceiro piso se abriu, e um homem de meia-idade usando uma túnica prateada adentrou o lugar com naturalidade.

O convite para se esgueirar de volta à realidade estava entregue.

O escriba, que agora já estava familiarizado com aquele lugar, quase como se fosse o seu próprio quintal, recuou entre as estruturas de madeira, indistinto em som, presença ou existência.

Camuflado pelos obstáculos labirínticos, em pouco tempo já deslizava para o piso inferior, resguardado por estantes de literatura que não confessavam sua incursão, e, curva por curva, retornou à toca.

Encontrando o sólido granito que se abria em passagem no chão abaixo, Benk silenciosamente subiu o tampo de pedra, retirou da bolsa a capa negra e a vestiu, adentrou o túnel e fechou a abertura com o granito, despedindo-se dos salões vastos sem denunciar que carregava nas mãos o livro que tão avidamente havia lido há pouco tempo para encontrar nas runas a sustentação de seu destino.

dd3934c131481725f7e5a0d49b0038f3.jpg