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Capítulo 53. Dedos Dourados 31

O Abismo De Om — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 53. Dedos Dourados 31

O escriba rastejou pela caverna recém-escavada de volta para o túnel do aqueduto. Retirou dos bolsos os selos de luz que, mesmo após tanto tempo, ainda estavam ativados. À sua esquerda, Benk enxergou ao longe a saída do local; ele estava desorientado e não sabia quanto tempo exatamente já havia passado, mas supôs, devido à luminosidade distante, que já havia amanhecido. Por qual outro motivo a biblioteca teria recebido a visita de um mago? Só se ele sofresse de insônia, imaginou o rapaz.

Retornar ao estreito, úmido e asfixiante duto não era algo agradável. Por esse motivo, dentre outros, sua prioridade era sair dali o mais rápido que conseguisse. Poderia retornar em outro momento e, com certeza mais preparado, lidar com o buraco que havia criado na parede da estrutura. Isso se não chovesse, o que, sem dúvida, aconteceria em breve, tornando impossível qualquer incursão por aquele caminho.

De todo modo, o período de inspeção dos reservatórios da cidade de Om só acontecia no começo da época de estiagem, quando se iniciava a estação fria, e nem sequer precisava parar para pensar; era claro que ele e Pelk não mais pertenceriam àquela adorável cidade nesse acolhedor período do ano seguinte.

No fim, por bem ou por mal, aquele buraco não importava mais, mesmo que fosse uma lastimável e absoluta pena perder o arrombamento de acesso para aqueles maravilhosos e preciosos grimórios.

Benk sorriu enquanto tossia e forçava o corpo para fora daquele duto que atentou contra a sua vida — o qual prontamente perdoou. Ele era um rapaz compassivo, e ninguém diria o contrário.

Não demorou para chegar até a grade de proteção e perceber que uma agradável e ensolarada manhã o recebia. Atravessou o gradil e, como sempre, trancou-o atrás de si, renovando o entusiasmo e a energia, apesar de a tontura e a dor de cabeça também requisitarem espaço sobre seu ótimo humor.

Deu tudo certo; estava em posse do grimório que mais lhe interessava, dentre as dezenas de milhares de livros armazenados naquela quase inviolável nova biblioteca. E estava absolutamente satisfeito; agora era questão de tempo, logo conseguiria ajudar Ling com o pequeno problema algemado em seu pulso. Isso sem esquecer de Pelk, que também ficaria radiante em descobrir que poderiam ajudar sua tutora e amiga.

O escriba acariciou a capa de couro macio do exemplar que ainda não conseguia guardar em sua bolsa. Aquela preciosidade descrevia os símbolos de acesso e a gerência da mana; apresentava as fórmulas e as delicadezas dessa ciência tão estritamente controlada pelo Estado. Não abarcava apenas os documentos oficiais e monetários, os segredos dos orbes dos magos, a arquitetura da forja mágica e da engenharia militar dos cristais: tudo derivava da sagaz empreitada de Endriv e Fiphew.

Eles inovaram a ponto de permitir aos não magos ter acesso ao sagrado da magia, e claro, por consequência indireta, propiciaram aos Drak o caminho e a oportunidade de moldar a vida, levando, tragicamente, à morte de mais da metade de todos os habitantes do continente. Mas isso não vem ao caso… pelo menos, não agora , refletiu Benk.

Dentre os diversos incômodos físicos que se acumulavam sobre o rapaz, um deles era o chamado da natureza, intensificado pelo barulho cristalino das águas matinais que corriam livremente pelo leito do rio. Precisava urinar. Ainda mais considerando que passara a noite inteira enfurnado entre os acolhedores papéis imbuídos de mana selvagem.

Na margem do rio, Benk retirou a capa imunda e tentou limpar a roupa, que também estava suja de pó de rocha, o melhor que conseguiu; guardou os selos luminosos e silenciadores dentro da bolsa e conferiu se tudo estava ali. Os selos de abertura de fechadura e os que utilizara para moldar o tampo de granito, a cola, as hastes metálicas — os instrumentos que o auxiliaram em sua aventura noturna —, menos os selos que se autodestruíram no cumprimento de seu dever. Colocou o grimório dentro da bolsa e andou rapidamente, subindo a encosta e buscando em suas memórias a localização de algum banheiro público nas redondezas.

Ao longe, na montante do sinuoso curso, próximo à sustentação arquitetônica que adentrava o leito do Corgo, a celebrada e grandiosa ponte em construção agora fazia companhia aos antigos moinhos hidráulicos que giravam ritmicamente. Os eixos móveis das pás adaptavam-se ao nível e à vazão de seu provedor de águas.

Na parte interna da estrutura dos moinhos, como Benk bem sabia, os pistões trabalhavam sugando e empurrando a água pelo encanamento para preencher o reservatório regional um pouco mais ao norte; lugar onde a água era tratada, tendo suas impurezas retiradas e, posteriormente, direcionada às caixas de armazenamento residenciais e comerciais, irrigando toda a região.

Cerca de um terço da cidade era atendido por essas estruturas essenciais, incluindo o Forte de Madre Sanor, o colossal castelo que se assentava no topo da colina rochosa à esquerda de Benk, estrategicamente protegendo toda a extensão norte da velha cidade de Om.

O sistema de esgoto abaixo do solo também se utilizava das águas impulsionadas pelos moinhos, com a única diferença de não haver necessidade de tratamento prévio do recurso hídrico.

A coleta se encaminhava por dutos subterrâneos até a área de tratamento de resíduos, vale abaixo e território adentro, no extremo sul da cidade.

O aperto abdominal tensionou a urgência do escriba: voltar para a área central, onde morava, sem antes resolver esse pequeno problema era impossível.

Um pouco abaixo do Forte, no perímetro comercial da região, um banheiro atendia às necessidades locais. Os longos passos para chegar ao lugar custaram a Benk uma concentração semelhante à de adentrar portas antes trancadas, mas ele bravamente resistiu, cruzando as ruas ainda desertas de uma manhã que mal começara seu expediente.

Om era famosa por seu zelo com a saúde e o bem-estar da população, uma referência entre as cidades do reino no que dizia respeito ao manejo sanitário, incluindo, é claro, seus famosos e agradáveis banheiros públicos.

A casa possuía uma porta de dupla ação, convidativa, ampla e discreta, ornada de azulejos azuis, aberta permanentemente para a recepção dos homens e mulheres que careciam de um espaço adequado para fazer suas necessidades.

Seu interior possuía um amplo corredor onde, lado a lado, cubículos sanitários privativos ofereciam o atendimento ideal para todas as idades. Dentro de cada cabine, depois da porta de madeira entalhada em gravuras florais, uma louça de cerâmica recebia os cidadãos, e era possível ouvir o distante eco da corrente d’água que fluía logo abaixo da estrutura, levando consigo os resíduos. Vasos de plantas ornamentais espalhavam um cheiro doce e agradável pelo recinto, e o vento entrava pelas frestas altas do teto, arejando e iluminando o local. Realmente uma experiência acolhedora, sem dúvida.

Benk não podia reclamar; comparados aos banheiros do orfanato e da Câmara Forte, os banheiros públicos eram insuperáveis. Lavou as mãos com a água corrente que descia da caixa no teto da casa até uma torneira metálica, secou-as com o papel e descartou-o latrina abaixo. Se existia um defeito de planejamento nesses sanitários, era o fato de que pessoas desastradas podiam deixar cair seus pertences no aqueduto abaixo, e alguns usuários reclamavam de roedores que escalavam pelas latrinas. Bem, nada é perfeito.

Aproveitando o clima acolhedor, Benk abaixou o tampo da latrina e, sem hesitar, sentou-se para avidamente consultar uma vez mais o grimório de valor inestimável que emprestara sem pedir permissão.