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Capítulo 54. Dedos Dourados 32

O Abismo De Om — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 54. Dedos Dourados 32

Concentrado e, ao mesmo tempo, sonolento, o escriba percorreu livremente as palavras cirúrgicas da prosa rúnica e as descrições detalhadas que, em algumas passagens e anotações na parte inferior das páginas, conclamavam reflexões sobre o Reino Antigo e o papel da magia na sociedade.

Por pertencer a uma das três famílias nobres tradicionais da região, Endriv Bot conseguiu permanecer no seu Estado de origem, não sendo encaminhado para Ecala Moon, como normalmente acontecia com os magos despertos, tanto para a segurança própria quanto para a de seus familiares. Na verdade, ele nunca saiu do território de Monbot Vort durante toda a sua vida, mas recebeu instrução e ensino diretamente no palácio onde residia.

De acordo com os seus relatos, escritos nas bordas das páginas do grimório, um de seus maiores sonhos era visitar a capital do Estado de Palard, a antiga cidade de Om, que margeia a sagrada inclinação impenetrável que dá acesso à boca do mundo — o abismo do qual nada volta e do qual tudo eclodiu, ao menos segundo os adeptos dessa fé.

Ele comentou com empolgação sobre os aquedutos que irrigavam a prosperidade milenar dessa antiga capital, e demonstrou imenso respeito ao se referir ao primeiro de todos os magos, o fundador e único monarca do Estado que herda o seu nome, Palard, o Rei Vermelho. Palard, o Rei Dragão.

Benk reconhecia a grandiosidade histórica do Estado e da cidade de Om. Era inegável que Palard era o coração do reino, o centro cultural, político e comercial do império do Reino Antigo; no entanto, Endriv viveu em uma outra época. O que o escriba entendia era que atualmente o trono era mais um enfeite; Palard agora era o rei do silêncio. Um trono vazio, um corpo ausente, uma mente exausta.

Benk Souh percorria lentamente as páginas, atravessando as ruelas da história margeada pela contribuição de Fiphew, que, apesar de jamais colocar sua caligrafia diretamente no livro, era um anexo indispensável a Endriv: Fiphew, seu melhor amigo e parceiro de pesquisas advindo do Templo do Sol.

O caminho estreito que o sacerdote trilhou, equilibrando-se como emissário da fé e pesquisador voraz de magia, não era apenas arriscado, mas o levou a atritos profundos com a teocracia de Ecala Sol, seu Estado de origem.

Fiphew nunca rompeu com seus votos, mas também nunca abandonou o seu Bot preferido , como Endriv bem demarcava no rodapé do grimório. A contribuição do pesquisador não mago não podia ser subestimada na formulação poética do coração das runas; era o legado de um apaixonado pelos versos da vida e conhecedor ímpar da tradição e linguagem mesforrita do platô central.

Benk ajeitou a lente dos óculos no rosto, respirou fundo e zombou mentalmente das pessoas que subestimaram Fiphew, o sacerdote mais sorrateiro que ousou se equilibrar entre a heresia e a fé, mesmo sabendo que os ensinamentos tradicionais dos servos do templo determinavam que os não magos deveriam se abster de qualquer aventura no campo da magia.

É isso que acontece quando uma figura histórica se torna uma lenda sagrada, refletiu o escriba ao lembrar-se do mago Sol, pupilo do mago Moon, sob o qual a Teocracia de Sol criou suas bases e fundamentos.

Mas, para Benk, independentemente dos conflitos históricos, a amizade de Endriv e Fiphew não era apenas uma arquitetura distante e impenetrável que guardava os segredos do mundo, mas uma fortuita janela de oportunidade , como bem elaborou o escriba, em pensamentos, naquele instante.

E retornou para ler mais uma vez a frase marcante de Endriv, no prefácio da obra, provavelmente lapidada em homenagem a seu amigo: “ Há quem ouse trancar o conhecimento atrás das portas da tolice, mas não me permito aceitar privilégios que obscurecem a alma…”

Segundo relatos dispersos em papéis nas estantes das bibliotecas, a magia dava origem à vida, mas não era toda vida que manifestava a magia. Assim como Fiphew, Benk não conseguia ler os ecos que teciam as palavras de poder; ele não era um mago. Mas sabia ler, e isso desde o nascimento, todas as palavras de todas as línguas existentes, ou que deixaram de existir, na história do Reino Antigo.

Sua curiosidade sem fim o arremessou em desafios; sua ousadia o elevou como aquele do qual todos, com razão, deveriam ao menos desconfiar.

A linguagem era o seu lar: cruzar entre as palavras empoeiradas do tempo, interpretar as fórmulas rúnicas do conhecimento. Para ele, não existia, naquele instante, nada mais importante do que isso.

A magia era indomável, Benk sabia disso; para um mago, conjurar feitiços exigia concentração total. Qualquer falha poderia gerar consequências avassaladoras. Apenas os eruditos devidamente instruídos e os afeitos à voz, que consagravam o tecido da energia por afinidade, podiam acessar o vasto repositório da criação.

Mas a imprudência sussurrou aos ouvidos do jovem rapaz.

De posse do espesso grimório, ancorado pela emoção e envenenado pelo desejo, Benk não percebeu o tamanho da responsabilidade que repousava nas pontas de seus dedos. Ele ergueu, mesmo sem perceber, uma muralha entre si e o mundo ao redor. Sequer ouviu os passos do lado de fora que, devagar, avançaram pelas sombras, rastreando o trajeto de outros passos, igualmente cautelosos, de um homem que adentrara o banheiro e investigava o anexo ao lado, talvez para utilizar o recinto, ou quem sabe para desvendar algo que apenas ele podia sentir.

Com uma habilidade que sorriu em regozijo ao dirigir-se em lâmina para o coração do funcionário do templo, o qual, após um pequeno solavanco e sem poder fazer nada, rendeu-se ao metal que entrava por suas costas, encaminhando-se dentro da carne e mudando o curso da vida para o repouso eterno da morte.

Benk, acordando de seu transe, finalmente ouviu um barulho que representava um suspiro final. Percebeu que, do outro lado da divisória, alguém liberava não excreções urinárias, mas algum outro líquido viscoso. Aguçou os ouvidos e olhou para a fresta abaixo, reconhecendo a cor, o cheiro e a textura. Em seguida, olhou para a frente e sondou a porta que, no segundo seguinte, foi arrombada por um chute que destruiu o trinco e o batente, revelando a presença da desconhecida figura.

Portando uma adaga fina de duplo gume, um rapaz alto avançou com a lâmina em direção à nova vítima. Benk, o ladrão de grimórios, em face do assassino, não hesitou. Por um milésimo de segundo, e por reflexo mais do que coragem, ergueu o livro, interceptando a trajetória da adaga que perfuraria seu tórax, mas que, por acaso, transpassou a literatura.

— Calma! Espera um pouco — balbuciou o escriba, sem entender o que diabos estava acontecendo.

E, por mais estranho que pudesse parecer, o rapaz esperou. Paralisado, encarou o rosto de Benk com uma expressão de absoluta confusão.

Nesse instante, o estrago já estava feito. O grimório cravado em metal agonizou. Benk sentiu um choque na ponta dos dedos imersos entre as páginas do livro apunhalado, um brilho intenso contornou a lâmina banhada de sangue estocada e, através do papel perfurado, labaredas vermelhas surgiram acompanhadas de vozes inaudíveis que escaparam em redemoinhos dourados e escarlates, conclamando sua vontade.

O manuscrito mergulhou a atmosfera em uma densidade impermeável, evocando todos os irmãos, pois todos compartilhavam um mesmo corpo e um inevitável destino. Quando a magia era quebrada, algo sempre acontecia, mesmo que parecesse não acontecer nada, sempre acontecia.

Dentro do Forte Norte de Madre Sanor, uma luz transpassou a rocha, precipitando-se em direção aos céus, e logo depois, um calor abrasador penetrou o solo, derretendo tudo ao redor em chamas de múltiplas cores que, em segundos, moldaram tudo o que era potência em ato.

Esse evento seria posteriormente conhecido como a explosão da magia de Sanor, instante em que a janela da oportunidade se revelou como a janela da catástrofe . A tormenta estava lançada.

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