Capítulo 55. Agulhas do Deserto
Capítulo 55. Agulhas do Deserto
— E, em absoluto, me espanto, decerto não termina assim? Uma vida inteira para percorrer o narrado e, no momento de maior incandescência, resolve que a prosa finda?
— Perdão, mas quando resolve dar o ar da palavra, vem com ardor na língua, Senhor das Dimensões?
— Quem te permite essa rusga se nem a ti consagro? Fica no canto que é ao amigo verde a quem clamo.
— Entendo a sua mágoa, e concordo que falei mais do que a boca. Perdoem-me por dourar a prosa. No entanto, é uma boa oportunidade para apresentar sua terra, e se permite, o Asas Laminadas bem poderia cruzar o verso de seu domínio! Ou prefere dar o tom agora?
— Não tenho pressa, mas concordo que a vez é fortuita. Se estiver de acordo, Mestre das Bordas?
— Bordas não, Dimensões! Cortador de Vento também não lhe agrada, certo?
— O vento é meu lar…
— Senhores, depois do abandono em tal ponto pelo Amigo das Flores, não me enrolem!
— O Senhor da Terra tem razão.
— Bem, então, se me permitem, continuarei o fio da meada.
Na terra ao norte, onde a rocha é pó e a grama não é bem-vinda, Farath, um jovem alto e magro, particularmente pálido e de palavras secas, encarava a areia sob seus pés.
— Erga os olhos — o comando partiu do Beirrut, homem de meia-idade que aparentava mais ser um velho que beijava a morte.
— Farath! Depende demais do instinto. Erga os olhos, observe a lâmina — comandou o homem.
Ao lado do Beirrut, segurando uma espada de lâmina curva, uma figura emoldurada pelo tagelmust que o protegia da areia e do sol apenas balançou a cabeça.
— O que foi? Se tem algo a dizer, use a boca, Calabar.
Ainda sem lhe direcionar a palavra, o homem de barba espessa manobrou a espada nos dedos. Com um movimento de ímpeto. puxou o corte de baixo, mirando o corpo do rapaz.
Farath, sem notar o movimento com os olhos, apenas girou o corpo, dando espaço para que o objeto cortante o errasse.
— Assim como confia na sua habilidade, Beirrut, em que a água habita o solo, confie que nem tudo precisa dos olhos.
Calabar recuou, mais preocupado com o dromedário que ainda não tinha sido liberado da carga do que com o local onde Farath escolhia centrar a atenção.
— Deixe o menino em paz, venha ajudar no acampamento. Essa madrugada chega logo — disse o líder mercante de pele queimada e olhos profundos, enquanto guiava os animais para o lado menos escaldante da duna.
— Sabe bem o quanto esse magrete nos serve, e se morre por vesgueiro, Hadolm?
O Beirrut de meia-idade bateu a areia da daraa e desatou parte do turbante, revelando o rosto barbado.
Seguindo o exemplo de Calabar, Hadolm apenas balançou a cabeça. — Homem, concentre-se na sua função, é um Beirrut, ele é uma Agulha.
O rastreador de águas franziu a testa larga.
— Maldito seja, sei bem usar a faca tanto quanto cavar o chão! — bradou Ohgor.
— Ei, Agulha, ajude na descarga. Não parece que qualquer besta ou saque se aproxima.
Hadolm, homem de exemplo, chamou Farath enquanto movia as mãos. Calabar apenas concentrou o esforço na função, evitando perder seu tempo em conversas desnecessárias.
— Hoje não tem lua, coloque as mantas sobre os animais e amarre-as no dorso — orientou o líder da expedição.
Os expedicionários se aglomeraram em um semicírculo na base da duna, os animais e a carga protegendo o flanco contra o vento. Na parte interna, os vinte pés de areia armavam as tendas, enquanto Calabar acendia o fogo com o esterco seco de dromedário. O Beirrut se acomodou em repouso.
— Hadolm — chamou Dornal, um jovem ainda inexperiente nas travessias.
— Podemos seguir a jornada; ainda é cedo.
O líder cortou um naco de carne seca e ofereceu ao inquieto recruta.
Ele aceitou e, com dificuldade, mastigou o alimento.
Calabar riu enquanto fervia a água do ensopado.
— Quem tem pressa machuca a mandíbula — respondeu Hadolm.
Outro homem se aproximou do fogo, sob o espesso tecido que recobria todo o corpo, apenas seus olhos estavam visíveis. Depositou o arco e a aljava na areia e se sentou.
— O Agulha não congela? — perguntou o comerciante.
O líder sondou as costas do rapaz; ele estava parado próximo à borda do acampamento, ao lado dos fardos de carga.
— Deixa ele, já basta o Beirrut que teima com qualquer coisa.
Ohgor, que estava deitado sob uma esteira próxima, reclamou sem abrir os olhos:
— Não estou teimando com porcaria nenhuma.
O líder deu de ombros, calculando o tempo ao sentir o vento frio que açoitava o acampamento sem trégua.
— Calabar, junte todos, vamos comer — solicitou Hadolm.
O segundo expedicionário mais experiente do bando levantou-se e, com autoridade, informou aos demais:
— É tempo da Mansaf, entrem na tenda de nosso Khabir .
Todos os homens da caravana aproximaram-se e começaram a se acomodar na tenda do líder, sentando-se em esteiras de palha ao redor da bandeja de alimentos ao centro.
— Ei, Agulha, venha comer — chamou Calabar.
O rapaz ainda estava parado ao lado dos animais; parecia incomodado com alguma coisa.
Calabar aproximou-se. — Primeiro a ceia, depois as preocupações, Farath — comunicou o vice-líder.
Seguindo o ritual, Hadolm ofereceu aos mais jovens a carne, organizando a bandeja ao redor da qual todos estavam reunidos.
— Algum dromedário está abatido? — perguntou o comerciante, Arbk, retirando completamente o turbante do rosto.
— Dentre os cinquenta e seis, dois estão enfraquecidos — informou Cogot, um dos condutores da caravana.
Kilajad, outro comerciante, ao lado de Arbk, mastigando com energia sua porção de arroz, bateu no peito e apontou para o batedor no lado oposto do círculo.
— Ei, Lazraf, encontrou alguma trilha de ameaça?
O homem de olhos claros encarou o companheiro de armas ao lado, que também apresentou a mesma expressão de calmaria. O comerciante aceitou o silêncio como resposta.
Calabar, ao lado do líder, sorriu e não resistiu à ingenuidade do instante.
— Sabe de alguma coisa, artesão? — questionou Arbk, entrando no assunto.
O homem desceu a mão direita para pegar mais uma porção de comida. Piscou os olhos e assentiu com a cabeça, confirmando a questão do comerciante.
— Melhor dormirmos com um olho aberto — declarou o artesão.