Capítulo 56. Agulhas do Deserto 2
Capítulo 56. Agulhas do Deserto 2
Após a refeição noturna, os membros da caravana socializaram ao redor do fogo. Dentre os vinte homens do deserto, três eram comerciantes, outros seis protegiam a comitiva, divididos em quatro combatentes e dois batedores. Sete deles conduziam e cuidavam dos cinquenta e seis dromedários e, por fim, havia os especialistas do grupo. Um Beirrut, sempre atento ao movimento das dunas e sentindo o chamado das águas; o vice-líder, responsável pelo zelo para com os membros do grupo, pelas estratégias de defesa, alimentação e manutenção dos recursos e da água; e ao lado do grande líder, de vasta experiência na condução das caravanas, estava o representante do cliente, o Agulha.
Farath levantou-se no meio da noite, puxou a adaga escondida no antebraço direito por debaixo de suas vestes, abaixou-se e sacou uma segunda lâmina, presa em um coldre na lateral de sua perna esquerda.
Silenciosamente, acordou o chefe da guarda, Lazraf, com dois toques leves em sua testa.
Caminharam para fora da tenda, encontrando ali Calabar, já ciente da situação.
— Parasitas — informou ele aos dois homens.
Enquanto Farath se embrenhava entre os animais, em direção à fronteira do acampamento, o guarda acordou os demais combatentes do grupo.
A areia castigava as pesadas vestes do Agulha, que distinguia, entre o forte vento, o característico e sutil som deslizante, abaixo da duna macia.
Calabar arremessou um pedaço de carne grossa untada em gordura na direção de Farath, que já se encontrava a uma boa distância do acampamento, mergulhado na noite congelante de Nolag. Costumeiramente, os parasitas sentiam a fraqueza da presa, a seguiam e a cercavam para iniciar o ataque no período noturno.
Deslizavam sob as areias em grupos familiares, variando de alguns membros a até dezenas, sempre orientados pela fêmea mais velha do grupo.
O cheiro intenso da carne exposta direcionou a atenção de quase todo o bando para um único ponto, e ao lado deste irresistível banquete estava Farath, de olhos fechados, concentrando-se nos estalos ao seu redor.
Uma vez que o ataque começasse, a voracidade romperia a contenção.
Os guardas posicionaram-se margeando a borda do acampamento, com Calabar um pouco à frente, segurando sua característica espada curva.
Quando a primeira cabeça de flecha impulsionasse o corpo achatado e anelídeo para fora da areia, uma instantânea e violenta onda de ataques se iniciaria.
No mesmo momento em que o zunido da lâmina esquerda de Farath decapitou o verme da areia, a faca direita — primeiro junto ao quadril e depois mais abaixo, na coxa — fatiou mais dois atacantes. E, sem sair do lugar, apenas movendo os braços ao redor do corpo no breu completo da noite, em poucos segundos, mais de dez parasitas estavam fatiados sobre as areias estéreis de Nolag.
A uma certa distância, próximo ao dromedário mais enfraquecido do bando, um dos vermes saltou do solo, usando sua mandíbula pontiaguda para estocar e perfurar a coxa do animal que, com a dor súbita, soltou um bramido intenso que ecoou entre os camelídeos e despertou os demais membros da comitiva do sono profundo em que se encontravam.
O corpo achatado do sugador cravou-se na carne, abrindo a ferida para que as presas internas perfurassem e penetrassem o músculo. Uma vez fixados na presa, mastigavam os tecidos e sugavam o sangue, avançando rapidamente em direção aos órgãos vitais.
Calabar orientou os condutores sonolentos para que soltassem os dromedários assustados, enquanto rapidamente localizou o animal vitimado, cortou a corda que prendia suas patas e segurou o arreio para tentar acalmá-lo. Bokap, um dos batedores, que também se aproximou, partiu o parasita ao meio, mas, nesse mesmo instante, mais dois deles saltaram de dentro da areia, estocando o animal, já enfraquecido, na parte inferior da barriga.
Calabar abaixou o corpo, contendo o impulso amedrontado do animal e, com destreza, cortou o corpo dos dois vermes com um único movimento preciso de nimcha.
— Vermes de Nolag? — perguntou Arbk, acompanhando o líder da caravana e auxiliando no controle dos animais afoitos.
— Sim — advertiu Calabar.
— Afastem-se daí! — ordenou Hadolm aos condutores próximos de Calabar, sabendo bem que os parasitas marcavam uma presa e atacavam em grupo.
E, de fato, mais um deles saltou em direção ao dromedário ferido, mas, no caminho, colidiu com a djellaba que revestia o corpo do batedor, desviando seu rumo e resvalando as presas externas de perfuração na coxa do homem.
No momento em que Bokap soltou a voz em sofrimento, Farath, sem que ninguém notasse sua presença ou aproximação, partiu o verme em dois, antes que este atingisse o solo e retornasse para dentro da areia.
Arbk assustou-se com a cena e caiu sentado no chão.
Calabar empenhava-se em segurar o dromedário, e Hadolm orientava os condutores.
Para além das maldições de protesto do batedor, a situação de perigo se atenuou e o cheiro nojento que emanava dos corpos dos parasitas ocupou as narinas dos homens naquela gélida noite.
…
Antes mesmo do amanhecer, a comitiva já se preparava para seguir a jornada. Com o saldo de um dromedário bastante abatido e com mobilidade reduzida, e um batedor levemente ferido, o grupo desmontou o acampamento.
— Contei dezessete vermes mortos — informou o Beirrut.
— Demos sorte, era um grupo pequeno.
Calabar arrumava o pesado tecido da tenda sobre as costas de um animal.
Hadolm, por sua vez, olhava fixamente para o céu escuro: — Temos que partir logo.
— Senhor — chamou o artesão.
— Pode falar, Calabar.
— Quatro guerbas de água se romperam com o tumulto — informou o vice-líder.
O líder ajeitou o tecido de seu tagelmust . — Isso é um problema.
— Ohgor, sente o fluxo de algum reservatório? — perguntou Hadolm, contendo sua expectativa.
O tecelão das águas abaixou-se e colocou a mão sobre o solo.
— Não nas proximidades — informou o Beirrut.
Calabar encarou o líder com seriedade e manifestou sua preocupação:
— Ainda temos ao menos seis dias de viagem, Hadolm. Acha melhor voltarmos? Ou seguimos em frente?
O Khabir desviou o olhar novamente, observando o céu noturno.
— Chame Farath, Calabar! — solicitou o líder.
…
O rapaz, de cabeça baixa, ouviu o esclarecimento de Hadolm. Seguir viagem nessas condições não era impossível, mas oferecer uma chance ao azar de ficarem sem água na jornada não era a escolha que o homem gostaria de tomar.
— Olhe para o céu, Farath — orientou o líder.
O rapaz não conseguiu entender o que o homem gostaria que enxergasse.
— Normalmente, essas bestas não podiam se lançar na escuridão antes de o sol estar pleno no céu — informou Hadolm.
— Mas seus corpos mudaram, agora eles ousam se arriscar em qualquer momento do dia. Olhe, Farath! Criaturas detestáveis. Já encarou uma de frente?
O Agulha confirmou com o olhar.
— Eu já presenciei um dromedário adulto ser levado aos ares como se fosse uma algibeira vazia — comentou o líder.
Ambos pareciam meditar enquanto observavam os vultos quase imperceptíveis que obstruíam a tênue luz que transpassava o final da nebulosa madrugada de Nolag.
— Quando os abutres dançam, é certo que algo brilha na areia, Farath.
— A luz atrai as mariposas. Entende o que eu digo? — perguntou Hadolm.
O Agulha, novamente, assentiu com um leve movimento de cabeça.
— Consegue capturar as mariposas, rapaz? — o olhar do líder estava encoberto pelas sombras noturnas, e no contraste mínimo da parte visível de seu rosto, Farath não conseguia distinguir qualquer emoção.
Em resposta à pergunta do homem, o Agulha deslizou a mão esquerda sobre o cabo da adaga, agora não mais secreta, que repousava sob suas vestes.