Capítulo 57. Agulhas do Deserto 3
Capítulo 57. Agulhas do Deserto 3
Não muito tempo depois, a caravana retomou a jornada, sem alterar os planos e permanecendo na rota previamente planejada. Mas, dentre os vinte pés de areia, um deles ficou para trás.
Farath sentou-se sobre a base da duna gélida, concentrando-se no vento que castigava o espesso tecido que protegia seu corpo.
Entreteve-se com o barulho dos redemoinhos de areia e com o movimento de um escorpião de passagem. Com os primeiros raios de sol, na carcaça dos parasitas de Nolag, já se aglomeravam alguns pequenos corvos e, com um estrondoso bater de asas, dois gigantescos abutres, com mais de quatro metros de envergadura, pousaram para aproveitar a oportunidade.
O rapaz, munido de uma pequena faca de arremesso, rastejou rente à areia. Na base do objeto metálico, uma linha fina e resistente de algodão trançado, banhada em óxido de alumínio e pó de quartzo, estava amarrada.
Farath recobriu as mãos com couro e tecido e, com um salto, levantou-se. Foi nesse instante que arremessou a lâmina em arco por cima da cabeça da gigantesca ave. Puxou com um tranco preciso, mudando a trajetória do objeto e habilmente enrolando a linha ao redor do pescoço grosso do animal plumado.
Com o susto, a ave bateu as asas em protesto, correu e levantou voo instintivamente em direção contrária à do vento, mas percebeu que, enquanto ganhava altura, o humano abaixo puxava uma fina corda branca reluzente e, em segundos, com absurda velocidade, aquela corda girou ao redor de seu pescoço, penetrando e lacerando penas e carne, para, com um movimento rápido e violento, separar a cabeça do resto do corpo.
A nova carcaça despencou sobre a areia, ainda se retorcendo em espasmos musculares frenéticos que logo cessaram.
O Agulha retornou para a sombra da duna, sentou-se e esperou.
Com o passar do dia, mais abutres se aglomeraram para festejar o alimento farto, e novamente, repetindo o feito matutino, silenciosamente, Farath decapitou mais uma ave, retornando em seguida para a paciente espera e racionando a água de seu odre , enquanto o sol insuportável tomava conta do céu.
No final da tarde, quando o sol começou a se despedir da cúpula que iluminava, as mariposas finalmente chegaram.
…
Um grupo de onze homens e quatorze animais se aproximou lentamente do local. A uma distância segura, oito deles organizaram os animais em repouso; os demais contornaram a crista das dunas, dispersando-se por uma ampla área enquanto averiguavam a situação e avançavam com cautela, todos em prontidão, armados com escudos e espadas.
Mantinham um dos braços esticado acima da cabeça, sempre à vista uns dos outros, enquanto se comunicavam por sinais. Depois de alguns minutos, avistaram com mais clareza o festejo das aves.
O grasnado agudo dos corvos de diminuto porte competia com o som das asas de quatro abutres gigantescos que estavam se alimentando no chão; já o dobro desse número estava mortalmente distribuído pela região — carcaças decapitadas que, posteriormente, foram mutiladas pelos irmãos da mesma espécie.
O odor forte e podre dos parasitas igualmente ornamentava a grotesca cena dos cadáveres destroçados.
O vento intenso levantava a areia seca do solo e cantava aos ouvidos dos batedores a bela melodia da morte.
Em um instante inaudito, o corpo do homem mais à esquerda dos batedores subitamente desapareceu, tragado por duas lâminas que surgiram de lugar algum. Os colegas, distantes uns dos outros, não perceberam; cada qual se deixou distrair pela cena grotesca enquanto tentava distinguir qualquer vestígio humano ou objeto de valor dentre a areia crepuscular do deserto.
Silenciado o primeiro, era a vez de o segundo ter a voz e o destino apagados no limiar do desespero. Com ainda mais facilidade e discrição, poucos segundos após o primeiro, o corpo do segundo batedor foi privado da vida, esquecido eternamente sob a areia como um cadáver que nenhum de seus companheiros jamais encontraria.
E, alguns instantes depois, exatamente no momento em que o terceiro homem se deu conta de que a presença de seus amigos já não mais era percebida — entre a areia, a luz do dia que entardecia e o som do vento ecoando o crocitar dos abutres —, do ponto cego de sua já limitada visão, uma corda enredou-se ao redor de seu pescoço e, antes mesmo que conseguisse compreender o que estava acontecendo, sua cabeça foi habilmente separada do torso.
À distância, os demais membros da comitiva observavam, mas não conseguiram notar, devido ao relevo ondulante, onde estavam e o que havia acontecido com os batedores.
No entanto, uma figura assomou no horizonte carmesim; uma pessoa alta caminhava sem dificuldades sobre a areia macia, suas vestes tremulando devido ao vento incessante. Gritaram para que se apresentasse, mas não obtiveram nenhuma resposta.
Já ao alcance das flechas, o único dentre os homens que portava um arco mirou o desconhecido caminhante; no entanto, Farath continuou, desatou o tagelmust e , sem qualquer cerimônia, desprendeu o tecido da cabeça e do rosto, arremessando-o na areia. Seus cabelos longos e lisos esvoaçaram, revelando um rosto pálido de pele sedosa.
— Uma mulher? Pare agora! — ordenou um dos saqueadores.
Farath apenas ignorou as palavras do estranho, desdobrou o tecido da daraa e, novamente, sem qualquer ritual, despiu a vestimenta longa, permanecendo apenas com a camiseta e o largo seroual.
O arqueiro, enfurecido pelas atitudes grosseiras do rapaz, puxou a corda com força, soltando um projétil em direção à misteriosa figura. A flecha curvou-se levemente devido ao vento forte e, com um leve movimento de pêndulo, Farath esquivou-se sem qualquer sobressalto. No encalço, um segundo tiro se aproximou, com mais precisão, mirando seu rosto, mas, novamente, sem movimentos bruscos, o Agulha apenas torceu o pescoço para o lado, esquivando-se. O terceiro projétil chegou logo em seguida, mirando seu peito, mas, com um rápido saque de lâmina, o punhal na mão esquerda interceptou a ponta da flecha, arremessando-a para o alto, inerte.
— Um assassino? — perguntou aos companheiros um dos membros da comitiva, sacando a kaskara da bainha.
— Soltem o louco — instruiu o líder.
Prontamente, um dos homens sacou um punhal e correu o mais rápido que pôde em direção a um dos dromedários que estava bem atrás dos demais animais, encarou os olhos da criatura e cortou as cordas que prendiam suas patas.
Orientado pelo condutor, o dromedário de tamanho desproporcional levantou-se, balançando a cabeça. Era uma besta de comportamento comprometido. O homem puxou o animal com um tranco e, no mesmo instante, apunhalou a parte traseira de uma das fêmeas próximas, ajoelhada na areia. O urro de dor da parceira foi ouvido e percorreu o alterado instinto protetor da massiva criatura.
Enquanto Farath se esquivava sem dificuldade do sétimo projétil, os homens se dispersaram e, galopando em absoluta fúria, um dromedário com o dobro do tamanho de um animal normal, com as orelhas para trás e a cauda chicoteando, rapidamente se arremessou em direção ao assassino, tentando inicialmente mordê-lo com suas presas ameaçadoras.
Sem perder a concentração, Farath não apenas se esquivou da investida, mas, com velocidade desumana, golpeou com precisão o pescoço fortificado do animal, que, apesar do corte profundo, simplesmente balançou a cabeça, torceu o corpo e direcionou um coice lateral contra o agressor.
No exato instante em que o casco tocou levemente seu abdômen, o Agulha saltou para trás e, erguendo o próprio peso sobre a pata, escalou-a; enquanto a mão esquerda deixava a faca abrir uma fenda na articulação atrás do joelho da criatura, impulsionou-se com os pés, saltando sobre o pescoço vulnerável e cravando novamente a adaga da mão direita na jugular do animal.
Equilibrando-se na corcova frontal, o assassino, novamente, com habilidade cega, desviou mais um projétil lançado pelo arqueiro, e, enquanto a besta balançava violentamente o corpo, tentando se desvencilhar do agressor, Farath, aproveitando o impulso, saltou no ar e dobrou os braços para controlar o giro; fisgou no cinto uma pequena faca e a arremessou em direção ao arqueiro, que, sem qualquer chance de esquiva, apenas recebeu a lâmina, que se cravou profundamente na maçã do rosto.
— Maldição — berrou o homem, levando as mãos ao cabo do objeto.
Quando pousou na areia, ainda distante de todos os demais saqueadores, o assassino ergueu as lâminas curtas em frente ao rosto e escolheu mentalmente qual dos homens deveria matar primeiro.
— Um Agulha? — gritou o líder, aterrorizado com o que acabara de presenciar.