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Capítulo 59. Agulhas do Deserto 5

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Capítulo 59. Agulhas do Deserto 5

Após organizar todas as armas e os espólios do combate nas costas dos animais, Farath recolheu suas vestes da areia e, sem perder tempo, iniciou a longa marcha aproveitando os últimos raios de sol. Conduzir sozinho treze animais pelas dunas gélidas de Nolag não era sua especialidade.

A temperatura despencou rapidamente, mas a jornada noturna era inevitável; montou em um dromedário, colocou sobre os ombros uma grossa manta de lã e limpou o longo tecido de seu tagelmust, prendendo-o e enrolando-o habilmente sobre a cabeça e o rosto.

Farath olhou para o céu, buscando orientação e contemplando o despertar das infinitas estrelas que ornamentavam a joia negra da noite.

Em destaque, na mais alta posição dos céus, estava a majestosa Lua, entidade imponente e cravejada de vultosas crateras; ela era reconhecida como o escudo do Sol, o senhor do dia e condutor da abundante vida.

Na outra extremidade noturna, estava a menor, mas ainda mais imponente e profunda esfera branca de Zom, a Deusa da luz mágica, o astro mais vibrante na coroa do cosmos que, ao contrário de sua companheira lunar, produzia o próprio brilho intensamente. Mas também era chamada de Sol que não ilumina, uma vez que sua emanação parecia limitar-se a enaltecer apenas a si mesma; e, apesar de suas peculiaridades, muitos sequer percebiam a sua existência no vasto tecido celeste a menos que se concentrassem e prestassem bastante atenção.

No entanto, a cada cem anos, durante o magnânimo eclipse triplo, ela reinava absoluta, explodindo sua presença e abençoando em glória todo o mundo ao se conectar com o seu indecifrável marido, o Abismo.

Dessa união — que para muitos marca o início dos tempos — relata-se ter surgido não apenas a semente da magia, mas também os benditos filhos sagrados, chamados de Dragões, criaturas inigualáveis que cumpriam o papel de guiar a mana pelos rios da matéria de todo o mundo.

Fossem histórias de Nolag ou não, elas preenchiam a imaginação de Farath sempre que ele se encontrava sozinho na vasta noite do deserto.

…

A marcha progrediu lentamente, marcada pela feroz companhia do sempre presente vento, que, subindo e descendo dunas, contornando as cristas e os vales, abraçava a preciosa e congelante paisagem inóspita de Nolag.

O Agulha tinha pressa, mas controlar todos aqueles animais em fila — que reclamavam da areia nos olhos, do peso da carga ou simplesmente por orgulho — não era fácil. Avançavam noite adentro e, de tempos em tempos, Farath parava para analisar o terreno, rastreando as fezes deixadas por outra comitiva em locais estratégicos, sinais de que, em algum momento do dia anterior, mercadores haviam passado por ali.

Quando faltava pouco para que a aurora tomasse conta da paisagem, Farath avistou um vulto, um solitário batedor que propositadamente se expôs no distante horizonte.

O homem desapareceu logo em seguida, mas foi mais do que o suficiente para que o rapaz tivesse certeza de que estava no caminho certo.

A excursão de comerciantes não esperaria, mas eles também não podiam lutar contra o calor implacável. Farath, no entanto, não tinha escolha; seguiu a jornada sem descanso mesmo com o sol escaldante cozinhando seu corpo sem piedade.

Aproveitando a água abundante carregada pelos dromedários, encharcou as vestes e escolheu a rota cuidadosamente, superando, sem que precisasse parar, o ápice mais tortuoso e arriscado da jornada.

Manteve o ritmo da marcha e, ao fim da tarde, já avistava ao longe a cauda da caravana guiada por Hadolm à sua frente.

…

No ápice da noite, enquanto acampavam para recuperar as energias, o Agulha alcançou o grupo e entregou aos condutores os novos animais; silenciosamente, recebeu o reconhecimento nos olhares e as palavras avulsas de respeito e temor.

Calabar verificou a marca nos dromedários, investigou por cima a carga e os espólios e, depois, retornou à presença de Hadolm.

— Pertencem à guilda de Lorot — informou ao líder.

O homem assentiu e ponderou por um momento, sem olhar para o artesão; ele cultivava uma boa relação com os membros dessa organização.

— E os saqueadores? — perguntou Hadolm, mesmo já conhecendo bem o grupo que atuava naquela região.

Calabar estendeu uma faca, revelando o cabo entalhado com um símbolo lunar estilizado, característico dos saqueadores locais.

— Silghte da areia — reconheceu Hadolm e, sem demonstrar qualquer emoção, orientou: — Confirme com Farath.

O jovem assassino já tinha se acomodado em uma esteira e ignorava a ladainha do Beirrut enquanto tentava descansar.

— Eram os Silghte ? — perguntou Calabar, aproximando-se da tenda onde Farath repousava.

O rapaz olhou em direção a Ohgor.

— Sim, os mesmos malditos da última vez — confirmou o Beirrut no lugar do Agulha.

— Em quantos eles estavam?

O vice-líder, ciente do cansaço do rapaz, não queria incomodar, mas a curiosidade em relação ao combate não era apenas contemplativa.

O Agulha arremessou ao chão um pequeno saco de pano, deixando o barulho metálico das moedas revelar a história.

Ohgor, sentado ao lado do rapaz, abriu o recipiente, exibindo onze moedas de bronze.

Calabar compreendeu. Como era costume para uma eliminação padrão, a cada morte, uma moeda de bronze era ofertada ao assassino, mas, dependendo do renome e da dificuldade do serviço, esse acordo deveria ser negociado.

Pela atitude desinteressada do Agulha, o artesão apenas deu de ombros. Tratava-se de um ataque rotineiro em que o pagamento já tinha sido coletado dos bolsos dos saqueadores.

Farath não se importava com dinheiro; sequer se deu ao trabalho de cobrar pelos animais que abateu durante a execução da demanda.

Nenhum Alfinete de língua solta havia acompanhado a preparação ou sequer presenciado o combate; o Mestre Koln veria apenas a cor da parte que lhe era devida pela multiplicação dos onze bronzes por quatro.

O Beirrut, com certo ceticismo, recolheu as moedas e as devolveu ao Agulha. Calabar, por sua vez, sorriu, satisfeito por terem água mais do que suficiente para completar a travessia.

— Não se esqueça de comer alguma coisa — orientou o artesão enquanto se afastava da entrada da tenda e, para permitir que o assassino repousasse, completou: — Venha, Ohgor! Deixe Farath descansar em paz.

O resto da madrugada transcorreu sem qualquer surpresa e, como sempre, algum tempo antes de o sol despontar no horizonte, a caravana desmontou o acampamento para seguir viagem. Mais alguns dias e chegariam ao seu destino, a encruzilhada rochosa de Dovak, no coração oriental de Nolag.