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Capítulo 60. Agulhas do Deserto 6

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Capítulo 60. Agulhas do Deserto 6

O vento era intenso no deserto de Nolag, lar de poucos e intrépidos povos, e também refúgio dos grupos que habitavam as sombras da sociedade.

Hadolm era um experiente Khabir há mais de uma década, um homem do deserto em pacto vital.

Segundo a tradição, desde o momento em que assumira a posição de Aqqad, ainda jovem, já estava ciente do compromisso herdado; nunca abandonar o posto de guia, jamais desrespeitar os ritos e garantir a travessia de todos aqueles vinculados ao caminho dos Mon, os primeiros desbravadores de Nolag.

O serviço em andamento era uma demanda rotineira, abastecer o grupo das Pontas Escarpadas , comandado atualmente por Koln, o mestre tático do deserto, responsável pela coleta e trânsito das informações na região de Nolag e também para além do Estado de Monbot Vort, o que incluía a gerência de segredos e a mitigação de riscos.

Para além dos recursos, Hadolm transportava informação.

Depois de alguns dias de viagem, e sem qualquer sobressalto escondido no restante do trajeto, a caravana chegou ao entreposto de Dovak, um pequeno oásis fortificado e local onde uma das guarnições táticas dos Pontas mantinha em prontidão o regimento leste de inteligência.

Caminharam até a entrada do vilarejo protegida por uma espessa muralha de adobe que se amalgamava internamente a casas de múltiplos andares; uma miscelânea de vida calejada pela hostilidade dos tempos.

Após serem recebidos e se identificarem aos guardas locais, caminharam por vielas estreitas que subiam gradualmente o perímetro rochoso, sempre ladeadas por residências complexas aglomeradas em blocos espessos de argila que, por vezes, eram extensão arquitetônica da própria rocha escavada.

Pequenas janelas e frestas de ventilação mantinham a região arejada, sendo esse labiríntico aldeamento estrategicamente organizado para receber e, ao mesmo tempo, conter o vento indomável de Nolag.

Depois de uma breve caminhada, o pátio central do vilarejo se abriu para a caravana, um círculo radial ao redor do qual todo o aldeamento florescia.

Descendo a inclinação rochosa, uma grande redoma se apresentava para proteger o manancial cristalino de Dovak, com poços e canais que gerenciavam o recurso mais sagrado de todo o deserto.

Calabar agrupou os dromedários e, auxiliando os condutores, organizou os animais para que pudessem beber a água de um dos bebedouros exclusivos para as caravanas que visitavam o entreposto.

Hadolm conversava com os comerciantes da região meridional, Kilajad e Arbk, enquanto o chefe da guarda, Lazraf, esperava orientações. O Agulha e o Beirrut estavam próximos a Cogot, um dos condutores veteranos.

— Kilajad, assim que os animais beberem, leve os produtos para o armazém e apresente o documento da guilda — orientou Arbk ao colega e aos condutores. — Lazraf, comunique nossa chegada ao Mestre das Pontas.

Calabar, que ajudava no manejo dos animais, riu alto.

— Ele já sabe — zombou o artesão. — Não percebe os olhares? — perguntou o vice-líder a Arbk.

Por trás das frestas sombrias nas varandas e prédios ao redor, discretos vultos observavam os recém-chegados.

— Logo seremos acolhidos, só precisamos esperar — disse Hadolm, completando a constatação de Calabar.

Desde que chegaram ao vilarejo, Farath mantinha uma mão próxima ao cabo de sua adaga escondida dentro das vestes.

O Agulha se afastou do grupo, entrou por uma ruela e esperou a recepção de seu colega.

Duas lâminas cortaram o ar, arremessadas em sua direção.

Sem qualquer sobressalto, Farath agilmente aparou uma delas em pleno voo com os dedos e esquivou-se da outra, movimentando o corpo para o lado.

— Bem-vindo de volta, Agulha — a voz ressoou de algum lugar às suas costas, e, apesar da falta de cortesia, ela não apresentava hostilidade.

…

Após a conferência da carga, todos os membros da caravana, exceto Farath, foram convidados para um banquete de hospitalidade. Conduzidos por serviçais, limparam-se, purificando o corpo e afastando as energias da jornada.

Foram recebidos em um salão simples, dentro do prédio administrativo local. As paredes estavam ornadas com tecidos lustrosos de várias cores vibrantes, pendurados em cascatas; o teto alto e abobadado, geometricamente, permitia a entrada do ar e da luz diurna, barrando qualquer poeira carregada pelo vento. O chão, por sua vez, estava revestido por tapeçarias de fino trato.

Hadolm acomodava-se sobre uma almofada, sentado ao lado direito de Koln, o contratante, de costas à extremidade oposta da porta. Em um grande círculo ao redor da ceia, todos os homens confraternizavam, admirados com a generosidade do grande Mestre.

— Bebam o vinho de Norgta, bravos homens — convidou o anfitrião, utilizando o dialeto de Vort.

Em ambos os lados das paredes, a música vibrava nas cordas e flautas, propagando-se pelo cômodo através das hábeis mãos das artistas de Dovak.

O Beirrut enchia o copo e o esvaziava logo em seguida, aproveitando a gentileza do anfitrião sem qualquer cerimônia.

Arbk conversava com Lazraf, debatendo sobre qual seria o próximo destino da caravana.

— Meu Agulha foi de serventia? — perguntou Koln, o único do local que revelava completamente o rosto.

Ohgor se endireitou e ergueu o copo, que balançou quase derramando o seu conteúdo.

— Se me permite, grande mestre. Temo pela segurança do rapaz — alertou o Beirrut.

Os olhos do anfitrião focaram o tecelão, com um misto de curiosidade e descrença.

— Pois diga o que lhe preocupa, homem — convidou Koln.

— É cisma, Mestre — interpôs o Khabir. — O Agulha rendeu ao céu onze Silghtes. Recuperou o saque de animais da companhia setentrional de Lorot. Cumpriu o ato e cobrou o preço. Assim como deve cobrar-me também em custeio.

Koln abaixou o copo. Deslizou os dedos pelo vasto bigode até o queixo sem barba e depois bateu a mão esquerda sobre a perna.

— O justo. Os salteadores não valem o pão que amassam, mas toda vida tem o seu merecido valor. Acertamos depois, grande guia.

Ainda gesticulando, o Mestre das Pontas retomou a atenção ao tecelão.

— Diga se novas águas podem ser desbravadas, Ohgor.

Ruborizado, mas fisgado pela missão, o Beirrut confessou.

— Tenho boas novas, mas acredito que o momento de contar-lhe será breve.

— E quais planos possui, Arbk? — indagou o anfitrião.

O comerciante engoliu a porção de carne de cordeiro que mastigava.

Com a voz firme de um experiente negociante, enunciou:

— Tenho uma deixa para rumar ao norte, os Lorot nos devem graça — respondeu Arbk, e Kilajad completou:

— Mas antes temos que acertar a prosa, Mestre Koln. Confio que tem algo em mente.

— Os Vort sempre têm algo em mente — comentou Calabar, entrando na conversa.

O anfitrião franziu a testa, aceitando a provocação.

— Assim como os Mon sempre têm algo no bolso, artesão.

Antes que Calabar pudesse retrucar a audácia, o Mestre das Pontas chamou com um gesto a mulher que tocava nay, próxima à parede ao seu lado direito.

— Mirah, venha aqui! — pediu o anfitrião. — Escolha a melhor das gazelas e recepcione os nossos convidados — sussurrou o Mestre, indicando o atendimento dos dois homens ao seu lado.

O Khabir balançou a cabeça, sem jeito.

— Não é necessário, Mestre Koln.

Mas o anfitrião olhou com intensidade para Mirah, que discretamente subiu os véus da saia, revelando para os dois convidados parte da sua panturrilha e uma corrente de ouro que adornava seu tornozelo esquerdo.

— Não me negue a gentileza, grande guia, suas três esposas não hão de reclamar de um simples agrado — disse o anfitrião.

— E aproveite a honraria, artesão, pois sei que sua cama está vazia — convidou Koln.

Ohgor, que estava sentado do outro lado próximo à porta, encarou demoradamente o quadril da artista, correu os olhos pelos braços bronzeados e vagou pelo longo cabelo preso na parte de trás da cabeça. Cobiçava os lábios volumosos da mulher.