Capítulo 61. Agulhas do Deserto 7
Capítulo 61. Agulhas do Deserto 7
Nos arredores do entreposto, na orla desértica que se estendia por todos os lados, uma tenda discreta recepcionava os contratos, longe de qualquer parede, teto ou porta.
Dentro da tenda, armada para amenizar o contato com o sol escaldante, dois homens conversavam em tom sério e com vozes ásperas.
— Mestre Koln, a carga dos dromedários dos Lorot pertence somente a eles — argumentava Kilajad com firmeza.
— Não me venha com santidade, homem. Diga o certo. Sei que há barganha, ou não vai cobrar sua parte pela gentileza da remessa? A quem deve o lucro? — pressionou o comandante.
— Juro que não há intenção de vantagem, Mestre.
— A guilda meridional de Nolag não é conhecida exatamente pela paixão do voluntariado, mas reconheço sua coragem de prometer a mim uma palavra de fé — arrematou Koln.
Kilajad sentiu o suor estancar no meio de suas costas. Descumprir a palavra dada ao comandante da inteligência de Monbot Vort, assumir filantropia subestimando as consequências e contrariando o óbvio de sua missão — o lucro — era ousado até para o alto escalão da companhia. E ele bem sabia que sua palavra valia apenas como agrado ornamental.
— Dobro o pagamento pelas cabeças — propôs o comerciante, em busca de conciliação.
O Mestre das Pontas inclinou a cabeça para o lado, ponderando a oferta.
— Dobre o dobro e fechamos negócio — contrapôs Koln, adoçando o tom da voz.
O comerciante engoliu em seco, arranhando a garganta com o ar.
— Entregamos-lhe a seda, o metal, as tâmaras, o papel e o sal. Não crê que o custo do empenho seja justo? O que deseja da carga dos onze?
O comandante de corpo musculoso e bem definido respirou fundo, marcando as vestes largas com os contornos de sua plena saúde.
— O empenho foi pago. Aquilo que herdam, devem ao Agulha. Eu sou o Mestre das Pontas Escarpadas e meu dever é zelar pela paz. A areia protege o descanso dos homens, mas o vento indomável sempre pode revelar os ossos. Acredito que entenda, Kilajad.
Sem cartas disponíveis em sua mão e ciente da efemeridade da vida, o orgulho do comerciante ainda assim reluziu uma vez mais.
— É certo que, se acredita no dobro de minha prenda, não duvido que reconheça minha dignidade como provedor. Aceite-me como garantia de palavra, bom Mestre. Forneço-lhe a metade do que requisita. Aceite não o dobro, mas o meio-termo do caminho e fechamos negócio?
Koln sorriu por baixo de seu tagelmust, reconhecendo a fibra promissora do homem.
— Onze vidas por uma moeda de prata, mais custeio de lucro por três moedas de ouro? — ofertou o comandante como proposta final.
— Negócio fechado — respondeu Kilajad, que, apesar do lucro diluído, acreditava em um bom retorno quando negociasse os animais e o despacho dos espólios.
…
O segundo homem a negociar com o Mestre das Pontas foi o Beirrut, o tecelão das águas.
— Sente-se, bom homem — convidou o comandante, recepcionando Ohgor na tenda.
— Grande Mestre! — a saudação proferida foi seguida de uma respeitosa reverência e, aproveitando que estava de joelhos, o tecelão acomodou-se em frente ao anfitrião.
— Ouvi de Hadolm que trazes boas novas, amigo — comentou Koln no dialeto dos Mon.
— A mensagem é verdadeira. Encontrei em minha jornada uma nova oportunidade abundante.
Ohgor endireitou o corpo, orgulhoso de suas habilidades incomparáveis.
— E quão abundante é essa fonte? — indagou o Mestre, sem demonstrar qualquer expectativa.
— Acredita na fundação de uma grande capital? — a expressão corporal do Beirrut não demonstrava brechas; era uma muralha de convicção.
O Mestre das Pontas , inconscientemente, aceitou que o corpo inclinasse para a frente, reagindo ao peso de tamanha comparação.
— Certamente isso é grandioso. Já revelou suas descobertas a alguém?
Tamborilando os dedos sobre as pesadas vestes, o tecelão olhou nos olhos do comandante.
— Não existe pessoa mais adequada com quem compartilhar a informação — elogiou Ohgor, referindo-se ao anfitrião.
— Agradeço a consideração, amigo. E acredito que tenha um preço, certo?
O tecelão comprimiu os lábios recobertos pelo tecido de seu turbante.
— Imagino que valha um bom montante — o Beirrut deixou os olhos vagarem por um instante, tentando descobrir, em especulações delirantes, se o lucro o levaria ao status de riqueza.
— Sou intermediário de nosso bom reino, mas não posso falar em nome de nosso Rei.
As palavras do Mestre congelaram os devaneios do tecelão; o impasse de autoridade era nítido.
Percebendo o impacto sobre o homem, Koln atenuou a situação.
— Mas como bem sabes, estamos sob a égide dos Bot, os mais generosos entre a tríade governante.
Ohgor respirou um pouco mais aliviado, deixando que os músculos do tórax relaxassem.
— Acredita que consigo uma margem, digamos, de mais de dez mil moedas de ouro? — e por mais que a ganância fosse uma fraqueza, o Beirrut era conhecido por abraçar todos os defeitos de caráter que um homem poderia cultivar.
— É uma soma expressiva… o que posso afirmar é que, se o que relata for confirmado, não me parece impossível. Mas devo aconselhar que mesmo os Bot têm limites nos bolsos — esclareceu o comandante sem soar alarmista.
— Acha melhor diminuir a soma? — Ohgor permitiu transparecer sua decepção no olhar enquanto o suor se acumulava em suas têmporas.
— Como disse, dentre os três Reis, afirmo que esta regência é oportuna. A cada cinco ciclos eles revezam no trono; estamos no meio da atual coroa, ou seja, há tempo de sobra para barganhar a sorte, amigo — disse o comandante, mais uma vez oferecendo esperanças ao tecelão.
— Poderia fazer essa ponte em meu nome, grande Mestre? — solicitou o Beirrut, retomando o rubor no rosto recoberto.
— É claro, amigo. Por um preço. Mas nenhum de nós é um Bot. Se conhecer alguém de estima que o seja, é certo que o êxito pode ser elevado — Koln era um Vort; Ohgor, um Mon; súditos de diferentes famílias, mas que, em última instância, pertenciam ao mesmo Estado: o povo de Monbot Vort.
— Confio que o grande Mestre tenha contato com alguém dessa posição que possa me ajudar! — exclamou o tecelão em expectativa.
— Como bem sabes, amigo. Por um preço! — o sorriso do comandante, ao contrário do de Beirrut, estava à mostra, sem qualquer tecido que o escondesse.