Capítulo 62. Agulhas do Deserto 8
Capítulo 62. Agulhas do Deserto 8
— Grande guia, ouvi detalhes da turbulenta jornada — Koln cultivava o costume de acolher muito bem seus convidados, mas em troca lhe agradava a oferta de relatos, curiosidades e pequenos segredos.
Hadolm, amigo de muitos anos, conhecia bem as demandas do comandante e as atendia de muito bom grado.
— Pois confirmo a emoção, Grande Mestre. Os parasitas não deram trégua e usurparam nossa paz. Por estima, agradeço novamente os serviços de Farath, jovem de absoluta habilidade que, mais uma vez, iluminou nossa jornada.
— O melhor dos melhores! Meu filho da areia me enche de orgulho — pronunciou o anfitrião, puxando a guerba de água para entornar um bom gole.
Hadolm, sentindo o calor escaldante, mesmo à sombra da tenda ornada pelo vento feroz de Nolag, fez o mesmo.
— Acredito que a água dos Silghte tenha o agraciado. E o extra foi muito bem-vindo, não? — o homem de rosto aberto coçou o queixo liso, contemplando o olhar do Khabir.
— Certamente. E acredito que Kilajad já tenha cumprido sua parte — comentou o velho guia.
— Com um pouco de fibrosidade, mas gostei do homem — disse o comandante, em leve tom de deboche.
— A companhia meridional tem bons homens. Ao menos me agradam mais do que os cascudos setentrionais — afirmou Hadolm, ajeitando as dobras de sua daraa.
— Sabe de uma coisa, velho amigo, não diga nada a nenhum dos estimados comerciantes do norte, mas eles são mais teimosos do que dromedários desdentados — confessou o comandante em zombaria.
— Não direi, Grande Mestre, ainda tenho alguma estima por minha vida.
E apesar do clima descontraído, o Khabir realmente desejava manter a cabeça acima do próprio pescoço.
Koln endireitou a postura e, nesse instante, o guia percebeu que chegara o momento de conversarem sobre assuntos importantes.
— Que agrados me oferece das fronteiras de nosso estado, bom guia?
— A obra se encaminha — respondeu Hadolm, confirmando o que o Mestre desejava saber.
— As tecelãs de Midfig conseguiram o intento? — o olhar do comandante agora emanava um peso semelhante ao de uma rocha.
— Sim, os revoltos de Bow enredaram o ato e triunfaram sobre os guardiões das relíquias — apesar de sucinto, o Khabir não omitia detalhes, apenas repassava o que devidamente sabia.
Koln alisou o longo bigode já prateado pela idade.
— A lâmina está em posse?
— A caminho! Um Crótia dos Drak já ruma para a entrega — relatou o homem e, movido por curiosidade sincera, permitiu-se a ousadia de perguntar.
— O que aqueles mortos-vivos desgraçados planejam?
O Mestre das Pontas balançou a cabeça, advertindo o amigo. Hadolm engoliu em seco, ciente de que cruzava a linha da prudência.
Koln inclinou o corpo, solicitando ao guia que se aproximasse e, com gentileza, enunciou:
— Sabe bem o quanto o estimo, velho amigo, então lhe aconselho de bom grado; olhe a língua e desvie os olhos. O que os sugadores de sangue fazem não diz respeito aos que andam sob o sol. Mas bem que a ganância lhe escapa dos ossos; então ouça. Não sei quando vai acontecer, qual vai ser o estopim. Só sei que isso vai mudar tudo.
O velho guia agradeceu pelas palavras esclarecedoras.
— O que pretende fazer, Koln? — perguntou o Khabir , temendo as escolhas do amigo.
— A arma precisa de um portador. O sagrado já foi profanado e sabe bem quem é o protetor dos guardiões, assim como sabe bem que os ecos levaram os Drak à ousadia de enfrentá-lo. Já o que me cabe? Eu sei bem qual o meu papel como Mestre das Pontas Escarpadas.
Hadolm permaneceu em silêncio; não havia nada que pudesse fazer, nem sequer era um assunto que lhe dizia respeito. Ao menos era o que acreditava.
— Os seus votos de Khabir o impedem de sair do deserto, correto, velho amigo? — perguntou Koln, já sabendo a resposta.
— Sou um Mestre, assim como vós — afirmou o guia. — Os Mestres de Nolag nunca abandonam a areia.
— Sim, eu sei — concordou o comandante.
— Surpreende-me toda essa situação. As tecelãs não formam um grupo, como os Drak conseguiram esse feito? — o Khabir desejou que o ar denso entre eles circulasse mais livremente.
Koln acolheu a intenção de Hadolm.
— As relíquias, isso é algo que tentaram usar. Parece que os termos eram do agrado a ponto de uma união fortuita — Koln deslizou da bainha uma pequena faca e começou a manuseá-la entre os dedos.
— Drak e tecelãs, algo que nunca se imaginou acontecer. A última vez que elas se reuniram foi atendendo à requisição do Grande Rei, certo?
— Paradoxalmente, para limpar a praga espalhada pelos próprios Drak — o Mestre puxou uma tâmara de um bolso do daraa e partiu ao meio, oferecendo metade ao amigo.
Enquanto Hadolm mastigava a fruta, o comandante retomou o assunto.
— Conhece alguém capacitado para conduzir jornadas pelo continente, amigo?
— O que tem em mente, Mestre? — o Khabir limpou os dedos pegajosos na areia do deserto.
— Tenho um trabalho e preciso montar uma expedição — explicou o comandante.
— E que trabalho seria?
— Eliminar os ecos dos Drak — as palavras soaram ambíguas aos ouvidos do velho guia.
— Eles requisitaram seus serviços, amigo?
— Ainda não, mas tenho certeza de que o farão — Koln concentrou os ouvidos no som musical das dunas em movimento.
Levantou-se e fez sinal para que o Khabir o acompanhasse. Saíram da tenda e, sob o sol intenso do ápice do dia, caminharam pela base da duna. Subiram um pouco pela elevação de areia até poderem avistar completamente os rochedos do entreposto comercial de Dovak, um oásis que acolhia os viajantes na rota central de Nolag.
O vilarejo, assemelhando-se à forma de um corpo em ascensão, incrustava-se em meio a casas e construções que se multiplicavam muralhas adentro, gradualmente engolindo as rochas naturais que sustentavam a cidadela; quem desconhecesse o local, de longe, facilmente o confundiria com um cupinzeiro peculiar.
Koln, assim como Hadolm, contemplava a terra, o vento e o vínculo que nutria com aquele remoto lugar, sem precisar de palavras para descrever o quão bem Dovak representava a amizade entre eles.
Farath aproximou-se calmamente de onde estavam os homens, acompanhado por outros dois Agulhas. Sem que precisassem ouvir qualquer comando, começaram a desmontar a tenda na qual o Mestre das Pontas traçara os novos rumos de suas responsabilidades.