Capítulo 63. Agulhas do Deserto 9
Capítulo 63. Agulhas do Deserto 9
Sentado em frente a uma mesa baixa, Koln observava as sombras se contorcendo na parede de taipa; a luminosidade oleosa preenchia a fria noite no aposento do Mestre das Pontas. As tiras de pergaminho já estavam preenchidas, adequadamente seladas com cera e armazenadas em pequenos cilindros de metal. Ao sair da sala, encontrou o subcomandante ao lado da porta, um homem de braços fortes e estatura mediana, conhecido por portar duas cimitarras, uma em cada lado da cintura, por seu humor inexistente e por suas sobrancelhas espessas que recobriam parte de seus olhos. O Mestre entregou os cilindros ao homem e, na primeira curva da residência, Dokrat desapareceu entre as sombras.
Alguns instantes depois, Koln adentrou o salão do banquete. As conversas paralelas ecoavam pelo recinto.
Os comerciantes debatiam a rota; em poucos dias a comitiva de Kilajad e Arbk retomaria a viagem, rumo ao norte. Hadolm, ao lado deles, firmara um novo acordo, sendo contratado para continuar como o guia do grupo.
Calabar, o artesão, há pouco havia sido informado pelo Khabir e, ciente da oferta de Koln, com um aceno de cabeça em direção ao Mestre, demonstrou o aceite em relação à proposta. Apesar de não ter proferido os votos de Aqqad e de não ter qualquer intenção de se tornar um Khabir , após tantos anos auxiliando o Grande guia, o artesão já estava mais do que qualificado para assumir essa função. Os comerciantes, principalmente os de origem Mon, jamais contratariam alguém não lavrado no caminho da areia, mas para Koln, que, ademais, era um Vort, a ausência do vínculo sacro não o incomodava de modo algum.
A música soava alegre ao ouvido de todos, atenuando o semblante dos homens que, cada qual, apesar da confraternização, cultivavam preocupações particulares enquanto socializavam.
Ohgor estava ébrio; o calor do licor preenchia suas entranhas; seus sentidos turvos cambaleavam, mas os olhos teimosamente não desgrudavam da flautista Mirah, perseguindo-a nos mínimos gestos com crescente intensidade.
Ao contrário do dia anterior, em que apenas adultos participaram da ceia, nessa noite dois meninos de sete anos acompanhavam o animado jantar, ambos próximos ao Mestre, e um deles sentou-se ao colo de Koln quando este se aprumou em seu lugar, tendo sua jovem bochecha acariciada pelo homem. Não era segredo algum, mas sim um fato culturalmente estabelecido, o comportamento ou as preferências do comandante.
Ao fim do festejo, cada um retornou para os seus aposentos.
Koln caminhou de volta para o quarto, agora acompanhado dos meninos. Com o corpo relaxado e sem qualquer alteração de comportamento, apenas sussurrou para as sombras um lampejo de saudades. Uma pena que as noites frias não durem para sempre…
A porta do quarto fechou-se, deixando a gélida madrugada de Nolag recobrir Farath, que não se moveu um único palmo sequer até que o sol despontasse no horizonte de um novo dia que, absolutamente, era indiferente a qualquer sentimento reprimido por debaixo do tecido que recobria o rosto do Agulha.
…
Pouco antes da primeira ceia, um dos guardas informou a Koln o que havia acontecido.
— Chamem Mirah — ordenou o Mestre, deixando o ódio transparecer na voz.
A mulher caminhou com dificuldades na presença do comandante. Estava nitidamente abalada; sua face direita, inchada em púrpura. A portas fechadas, relatou os eventos da noite recente em detalhes.
O comandante ouviu, aprumou o corpo e, com passos pesados, encaminhou-se até onde o homem estava.
O Beirrut, encarcerado em um cômodo, roncava alto, impassível a qualquer barulho.
Koln entrou no recinto e trancou a porta. Sentou-se com as pernas cruzadas sobre os calcanhares. Esticou a mão esquerda e, com uma força descomunal nos dedos, apertou a panturrilha de Ohgor até que ele finalmente acordasse.
— Ouça, Beirrut. Desperte e preste atenção em minhas palavras — o Mestre emanava calma e autoridade, mas a expressão em seu rosto fez o tecelão recuar, arrastando-se pelo chão em meio à névoa que recobria sua consciência.
— O que… — tentou responder o homem, mas o comandante apenas balançou a cabeça em aviso.
— Na madrugada de hoje você abordou uma de nossas Ouled Naïl. Ela recusou sua oferta, mas você insistiu. Puxou-a pelo braço e a forçou a entrar em seu quarto. Ela protestou, o que o irritou ainda mais, a ponto de desferir socos em seu rosto, bloquear a boca dela com o tecido que ela vestia, despi-la completamente, ignorando suas súplicas, e imobilizá-la com violência, aproveitando-se da força física superior que possuía. Tocá-la, abusá-la e estuprá-la, deleitando-se com a resistência e excitando-se com o sofrimento dela enquanto a penetrava, até se sentir satisfeito e cair no sono. Tem algo a dizer, Ohgor? — o comandante encarava o Beirrut com um desprezo seco e cortante.
Ainda com a mente turva, o homem, com a boca aberta e olhar distante, gradualmente recordou o evento que Koln descrevera.
— Eu… bebi demais — justificou-se o Beirrut, tentando esquivar-se da responsabilidade.
Koln levantou-se, contendo o impulso de agredir a patética criatura à sua frente.
Virou as costas para retirar-se dali.
— Meu senhor… — grunhiu o homem com a voz esganiçada e arrastada.
— Será julgado pelo conselho de anciãos, Ohgor.
O comandante retirou-se do cômodo e encaminhou-se à sede administrativa de Dovak, expedindo verbalmente o comunicado aos guardas de plantão para que convocassem os membros do conselho para uma sessão extraordinária.
…
O entreposto comercial era gerido por um conselho de habitantes do oásis, os quais deliberavam as normativas administrativas em reuniões periódicas a cada quatro dias, gerindo os recursos públicos, pautando as demandas dos moradores e movimentando as engrenagens burocráticas locais.
Dentre as funções do conselho de anciãos, que era uma segmentação da cúpula administrativa, estavam o comando do corpo militar permanente de Dovak e a aplicação da lei estatal de Monbot Vort, determinando o devido processo para a validade legal dos julgamentos dos crimes cometidos nas terras comuns.
A jurisdição de Koln no conselho local era, acima de tudo, vinculada ao intermédio comercial e à execução das leis. O comandante atuava na gerência das informações e no suporte tático de tudo o que não poderia ser feito à luz do dia.
Mas, quando se tratava de um crime moral, sua interferência era inadequada.
Na sede administrativa, encontravam-se o Mestre das Pontas e os conselheiros de julgamento a portas fechadas.
— Mestre Koln — chamou o ancião Lazhadar, o senhor de maior estima entre os presentes.
A sala de reuniões era dividida em duas instâncias: a deliberativa e o salão das réplicas. Na ala deliberativa, encontravam-se os oito proeminentes conselheiros de maior idade do conselho dos cidadãos.
O comandante, a certa distância, na ala das réplicas, levantou-se e, em seguida, ajoelhou-se com a perna direita no chão e prestou uma respeitosa reverência aos homens presentes, inclinou o corpo e, sem levantar a cabeça, louvou-os:
— Honoráveis Chiuj de Dovak, concedam-me a palavra para declarar o fato — enunciou o comandante em tom cortês.
Os idosos, ornados com turbantes especiais de cor negra, entreolharam-se brevemente.
Novamente investido da liderança, Lazhadar tomou a palavra:
— Estamos à sua disposição, Mestre, relate-nos o evento — requisitou com solicitude o ancião.
Koln, prontamente, fez uso da palavra e explicou aos presentes o incidente a ele informado, desculpou-se pela mácula que contaminava o oásis de Dovak e lamentou que o ocorrido tivesse se desdobrado devido à conduta deturpada de um de seus hóspedes, por falha de sua vigília.
— A decadência pode nascer a qualquer momento no coração do homem — enunciou Hualah, um dentre os anciãos presentes.
— Ato abominável. Traga-nos a voz da vítima — requisitou Mukkor, sentado ao lado de Lazhadar.
Koln levantou-se e abriu a pesada porta de madeira do salão, caminhou para o corredor externo e retornou acompanhando Mirah, a Ouled Naïl, que manifestava apreensão pelo andar manco e o corpo trêmulo.
— Sente-se, querida, conte-nos tudo o que aconteceu — orientou Lazhadar e, percebendo o olhar fragilizado da mulher, completou: — O tempo é a sua casa, está segura aqui.
Com respeito e condolência, após respirar fundo, Mirah repetiu as palavras já relatadas por Koln, apresentando suas impressões sobre o Beirrut.
— Ele me cobiçou, mas é homem; por vezes o instinto é forte… — explicou a mulher, com a voz embargada. — Não sou pura, mas não foi um cortejo; por mais fora de si que ele estivesse, isso não se faz.
As lágrimas da mulher deslizaram por sua face inchada enquanto ela cobria o rosto dolorido com as mãos.
— Devemos ouvir o que o Beirrut tem a dizer — enunciou Lazhadar, mas antes que pudesse continuar seu raciocínio, Farazol interpôs.
— Precisamos das palavras do Véu Vermelho. Elas já estão a par do incidente?
E, seguindo o fluxo do debate, outro ancião indicou sua posição.
— Podemos deliberar sem recorrer a uma assembleia mista — afirmou Hualah, contrário à proposta.
Lazhadar ergueu a mão, pedindo a atenção dos presentes.
— Não se esqueçam de que estamos à luz dos Bot; é prudente deliberarmos com a voz matriarcal — recomendou o homem.
A colocação era coerente, o que induziu seriedade na ponderação dos turbantes negros. A direção dos ventos seguia rumos próprios com os Bot no trono.
— Que convoquem os Véus Vermelhos — concordou Hualah, abaixando a cabeça e alterando sua posição anterior.