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Capítulo 64. Agulhas do Deserto 10

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Capítulo 64. Agulhas do Deserto 10

Dentro do salão, deliberaram a portas fechadas depois de coletarem os relatos dos envolvidos, os oito anciãos e, em igual número, as mulheres do conselho administrativo trajadas com o Véu Vermelho.

Palavras marcadas pelo impasse ecoavam dentro das paredes em um misto de consciência e condenação.

A presença de Koln foi requisitada como mediador dos fatos.

O Beirrut era um tecelão, e seu vínculo com a água era pleno. Além disso, o comandante enunciou informações relevantes que estavam sob sua tutela. Ohgor possuía vínculo com os Silghte.

“ A justiça deve ser feita, Ouled Naïl ou não, Mirah é a vítima. ”

Afirmação contundente e que não poderia ser ignorada.

“ Bêbado? Criminoso é criminoso. ”

Outra afirmação debatida entre as Túnicas e os Véus.

“ Ele mesmo confessou o desejo, que assuma as consequências do ato. ”

A culpa era evidente; o que deliberavam era o rito.

A voz de Lazhadar concordou com a mocidade de Jafet; Kalin, por sua vez, manteve a serenidade da justiça. Que se vá à morte. Definiu o Vermelho.

“ Ele é um Beirrut, mesmo em Nolag, o sol não é páreo. ”

As palavras de Koln carregavam verdades. Ohgor, o tecelão, controlava a temperatura do corpo e, se preciso fosse, sua urina o nutriria. Não bastasse a vitalidade, se a terra guardasse a vida, com algum empenho dele a água curvaria para a superfície.

“ A norma exige o fim, mas o justo merece a luta. Se Nolag, que é lei, não o julga, então é Dovak que a aplica sob a luz de Monbot Vort .”

— Nesse caso, eu assumo. — Koln levantou-se, encarou os deliberadores à sua frente e, de sua posição de réplica, argumentou:

— Espalhem a palavra de que o Mestre fez justiça e que os Silghte comigo se acertem.

A consternação entre as Túnicas refletiu na ondulação hesitante dos Véus.

— Tem certeza, Mestre Koln? — Lazhadar questionou o homem.

— Isso não é certo, é de Dovak a premissa — Kalin demonstrou o fato.

O comandante espalmou a mão contra o peito.

— Mirah estava sob os meus serviços; o crime aconteceu dentro da minha morada. Cabe-me bem a responsabilidade que sustento em meus ombros — proclamou o Mestre.

O conselho ponderou e, por fim, deliberou.

“ O acordo está determinado. ”

…

Após o fim do julgo, Koln informou ao agressor a sentença.

— Mestre, isso é absurdo — protestou o tecelão que estava com as mãos atadas atrás das costas.

— Que me cobrem o preço do ouro! Seja vida pela vida, a mulher respira.

No discreto escritório onde se encontravam, o comandante ponderou o apelo. O Beirrut não valia nada morto, mas a lei estava posta. Violar é hediondo tanto quanto atacar a vida. Na terra comum, ao contrário da areia aberta de Nolag, o peso da justiça é a palavra do homem.

— Até me compadeço de sua fala, tecelão, mas aqui é Dovak, a terra do povo de Monbot Vort. Mesmo um Mestre deve obedecer às escrituras; não posso ir contra os votos — o olhar de Koln estava firme e não desviou do desespero pálido do condenado um milímetro sequer.

— Não posso morrer, eu tenho valor, sou um Beirrut, homem — afirmou Ohgor, inflando raiva em cada sílaba proferida. — Só eu sei a localização da fonte! Vocês estão loucos?

Koln deixou o ar quente soprar de seus pulmões, passou os dedos pelos bigodes fartos e manteve a expressão inalterada.

— Uma grande capital no coração de Nolag. Uma pena.

O tecelão cerrou os punhos amarrados, forçando os braços contra as cordas, e esboçou a intenção de levantar-se, mas a pressão do comandante, que estava de pé como uma muralha à sua frente, era intensa demais.

— O que posso oferecer é o combate. Vença e reconquiste sua liberdade, Beirrut.

O horizonte oferecido permitiu que a tensão de Ohgor recuasse em intensidade.

— Lutar? Contra quem? O senhor, Mestre? — indagou o prisioneiro.

Koln descruzou os braços fortes e fitou a própria mão esquerda por um instante.

— Comigo? Certamente posso assumir a função! Isso se desejar receber a morte com tamanha avidez — o comandante cerrou o punho, demonstrando, pelo ato, que, diante dele, o destino do tecelão estaria condenado.

Ohgor engasgou sem oferecer qualquer resposta.

— Coma, durma e prepare-se, Beirrut. Assim que o sol despontar nos céus, conduzirá o seu destino com as próprias mãos; assim como com estas mesmas mãos, escolheu violar a Ouled Naïl.

…

Sob a aurora de Nolag, nas areias onde a lei do homem era estéril, o tecelão encontrava-se amarrado de joelhos sobre uma esteira de palha. Ao redor estavam os juízes em obrigação, adequadamente aparatados com seus tagelmust negros e igualmente em número e função, as mulheres do conselho trajavam o Véu Vermelho sobre as cabeças.

Em permissão especial, também estavam presentes os membros da caravana, como testemunhas do julgamento de um companheiro de jornada e Mirah, a vítima do crime cometido.

Koln tomou a frente para proferir a sentença.

— Eu, Mestre das Pontas, perante a constatação indubitável do crime de estupro e atentado à honra de Mirah, uma artista que trilha o caminho de Ouled Naïl, e que está sob minha proteção e serviços, julgo aplicando as leis de Dovak e Monbot Vort e condeno: Ohgor, o tecelão das águas, um Beirrut das trilhas de Nolag e provedor dos serviços de rastreio dos veios da vida, em ato abominável, confesso e julgado, à pena de luta até a morte sob as leis naturais de Nolag. Que purifique o caminho pelo combate e, se vitorioso for, inocente e livre o será.

— Como isso foi acontecer, Mestre? — perguntou Hadolm, assim que o comandante retornou ao seu posto, em espera.

O homem girou o pescoço para encarar o amigo e, sem meias palavras, confessou o fracasso.

— A vigília foi negligente. O Agulha não cumpriu o dever de zelar pela dignidade noturna — relatou Koln, sem revelar o responsável.

— Por ela ser uma Ouled Naïl?

O comandante franziu a testa por debaixo do turbante enrolado ao redor de sua cabeça.

— Há verdades que pertencem às consequências dos atos. Presenciamos o mundo com olhos abertos, amigo, mas eles não apenas piscam, como não enxergam a nuca.

Hadolm fitou o Beirrut, isolado ao centro da roda, e depois Mirah, que estava acolhida entre as mulheres do conselho.

— A luz da lei não dorme — ponderou o Khabir, protegendo os olhos da areia fina que dançava com o vento.

— Em Nolag, a lei é cega — Calabar comentou sem desviar sua atenção enquanto observava o prisioneiro.

— Mas não na terra comum de Dovak.

A afirmação de Koln foi acompanhada da chegada de Farath, que lentamente caminhou até o tecelão, libertando-o das amarras e desamordaçando-lhe a boca.

— Profira suas palavras, Ohgor. Escolha o que desejar como arma e supere a provação imposta por seu crime — comandou o Mestre das Pontas.

O tecelão levantou-se e olhou para a multidão ao redor; encontrou Mirah entre as mulheres presentes e, por um instante, hesitou.

— Sou homem e assumo que roubei a honra da flautista. Bêbado ou não, cedi ao desejo. Mas não roubei nenhuma vida, não mereço que roubem a minha — argumentou o Beirrut.

Todos ao redor ouviram em silêncio. O que quer que fosse dito, o julgo havia terminado; o que restava era a sentença.

Os presentes recuaram alguns passos e abriram o círculo um pouco para ceder espaço aos combatentes. Uma manhã ainda gélida na orla do oásis de Dovak, onde as dunas se moviam lentamente arrastadas pelo vento incessante do deserto. Ao centro do círculo, imóvel e de olhos fixos em Koln, estava Farath. Um pouco distante deste estava Ohgor, que compreendia aos poucos a situação em que se encontrava.

— O que eu faço? — perguntou o tecelão aos presentes.

Lazhadar ergueu a mão direita aos céus.

— Está em Nolag agora. Seu oponente está à sua frente. Lute — proclamou o ancião.

— Devo matar o Agulha? — Ohgor fitou Farath, que estava imóvel como uma estátua.

O ancião assentiu com um amplo movimento dos braços em direção ao chão.

— As vidas de ambos pertencem à areia agora — explicou Koln, levemente incomodado pelo comportamento de seu comandado.

— Garoto — chamou Ohgor. — Não desejo machucá-lo, desista da luta.

Mukkor tomou a palavra para esclarecer o tecelão.

— Sua liberdade é a vida ou a morte, Beirrut, assim como a do Agulha.

O condenado olhou para o rosto encoberto dos habitantes de Nolag.

— Matar o Agulha? Pelos céus, que crime ele cometeu? — a voz de Ohgor vacilou. Por mais que tivesse passado pouco tempo ao lado do rapaz, não conseguiu evitar sentir certo afeto por ele.

— Escolha uma arma, Beirrut, os votos guiam o destino de Farath, não há necessidade de carregar qualquer culpa… claro, se sair vencedor — como Mestre das Pontas, comandante superior dos Agulhas e responsável pela execução da pena, oferecer um dos seus ao combate era necessário.

— Quais são as chances do tecelão? — perguntou Arbk, ao lado de Calabar, como testemunha da justiça.

Calabar, mesmo com o rosto encoberto pelo tecido do turbante, sorriu balançando a cabeça.

— Ao Beirrut, só resta a sorte que seja rápido — disse o artesão.

Ohgor encontrou, em posse das pessoas presentes, espadas, facas, cajados e fundas.

Após um exame atento, e ainda inconformado com a situação, caminhou até o comandante e apontou para sua espada.

— Posso tomá-la emprestada, grande Mestre? — requisitou o condenado.

Koln desatou a bainha do cinto e prontamente ofereceu a lâmina ao Beirrut, uma bela kaskara com o punho cravejado por uma pequena joia losangular azul próxima à guarda. Na base da lâmina, ao retirá-la para fora da bainha, pôde enxergar as runas gravadas no metal.

Ohgor virou-se para encarar o Agulha nos olhos. O rapaz permanecia imóvel, com o olhar fixo no comandante, como uma víbora enfeitiçada.

— Garoto, olhe para mim! — requisitou o tecelão.

— Nada disso faz sentido… olhe para mim, Farath. Saque sua arma, Agulha — intimou o Beirrut.

Ohgor começou a andar de lado, medindo a distância e observando a postura do oponente que permanecia paralisado à sua frente. O condenado parou quando chegou até as costas do Agulha.

— Pelo amor dos Dragões, acorde, rapaz! — gritou o tecelão, perdendo a paciência.