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Capítulo II – O Julgamento na Praça

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Capítulo II – O Julgamento na Praça

Montamos nos cavalos, e o som dos cascos batendo contra a lama e o entulho da Rua 7 parecia marcar o ritmo do meu próprio coração. Eu podia sentir minhas mãos levemente trêmulas nas rédeas. A sensação de que estávamos marchando direto para uma armadilha não saía da minha cabeça.

Conforme avançávamos em direção ao centro da cidade, a paisagem ao redor começava a mudar. As vielas estreitas e destruídas do Santa Mônica davam lugar a ruas um pouco mais largas, mas o clima não era nem um pouco melhor. Havia pessoas nas calçadas, aglomeradas nas esquinas, todas observando nossa pequena comitiva passar.

Os murmúrios começaram a correr como fogo em palha seca.

— Olha lá… Não são os caras do Santa Mônica? — sussurrou um homem alto com casaco rasgado.

— Pegaram aqueles bandidos de Santa Mônica — comentou uma mulher mais à frente, apontando na nossa direção sem o menor pudor. — Que bom que vão acabar com eles. Eu não aguentava mais esses caras. A Igreja está até que ajudando a gente agora.

— Ajudando o cacete! — esbravejou um velho encostado numa parede de tijolos expostos, cuspindo no chão logo em seguida. — A Igreja só quer exterminar qualquer um que não se ajoelhe pra eles. Hoje são os caras do Santa Mônica, amanhã é qualquer um de nós!

A população estava completamente dividida. Havia quem olhasse para nós com desprezo e alívio, achando que a Igreja estava “limpando” a cidade, e havia aqueles que nos encaravam com um terror silencioso, sabendo que a teocracia estava só acumulando mais poder sobre os nossos corpos.

Avançamos mais rápido. Quando chegamos às imediações do centro, o movimento de civis diminuiu drasticamente e deu lugar a um cerco militarizado.

Parei meu cavalo um pouco atrás e consegui me posicionar em um ponto mais elevado da rua para olhar por cima da multidão. No meio da praça central, haviam erguido uma grande estrutura rústica: um palanque de madeira reforçada.

Em cima dele, a cena embrulhou meu estômago.

Dois dos caras que tinham saído com o Piquenote no dia anterior estavam lá. Um deles era o “Dente-de-Cão”, um cara magro, de dentes falhos e uma cicatriz feia cruzando os lábios, que agora estava com a cabeça sangrando e a camisa rasgada. O outro era o “Torta”, um sujeito parrudo, de barba falhada e braço nitidamente quebrado, pendendo em um ângulo não natural. Ambos estavam ajoelhados, amarrados com cordas grossas.

E, bem no meio deles, estava o Piquenote.

Ele não estava em uma cruz comum. Haviam cravado duas estacas de madeira maciça no chão do palanque, forçando os braços dele a ficarem abertos e levantados, presos por correntes pesadas. Piquenote estava ajoelhado, com a cabeça baixa e o peito subindo e descendo com dificuldade. Lanceiros da Igreja — dois soldados vestidos com mantos cinzentos e armaduras leves — seguravam lanças afiadas apontadas diretamente para as costelas dele.

Mas o que realmente me fez parar de respirar foi a figura que estava um pouco atrás.

Era um homem alto, de ombros largos e postura impecável. Ele usava uma armadura prateada, reluzente, decorada com a gravura entalhada de um lobo rugindo no peito. Tinha uma cicatriz profunda que cortava seu olho esquerdo, mas seu olho direito, cinzento e frio, parecia analisar cada milímetro da praça. Ele parecia um general.

— Pode todo mundo ir para o seu lugar e esperar meu sinal — o Gui ordenou baixinho, com a voz grave, mantendo a calma que ele nitidamente não estava sentindo por dentro.

Os homens do Santa Mônica apenas acenaram com a cabeça. Desmontamos em um beco lateral, prendemos os cavalos nas estruturas de metal abandonadas e cada um tomou seu rumo de forma silenciosa.

Olhei para cima. A umas duas casas de distância do palanque, havia um telhado de telhas de metal onduladas com um ponto cego excelente. Escalei o cano da calha com a agilidade que eu sempre tive desde moleque e me dobrei sobre o telhado, mantendo o corpo colado às telhas.

Lá de cima, a visão era clara: o Gui e os outros rapazes já estavam se espalhando pelas bordas da praça, cercando o lugar por baixo. Só que o lugar estava infestado de soldados da Igreja. Tinha patrulhas em cada entrada.

De repente, o burburinho da praça foi cortado por um brado ecoante.

Um homem vestindo mantos longos e pomposos subiu ao palanque. Ele não parecia um guerreiro, mas sim um daqueles pregadores fanáticos da Igreja — o discursante.

— Silêncio, todos! — a voz dele ressoou pela praça, amplificada por algum tipo de artefato ou poder menor. A multidão se calou quase instantaneamente. — Hoje, estamos reunidos aqui sob o olhar supremo da Ordem do Sangue Alado para julgar esses pecadores que ousam ir contra nossa honra e contra o nosso novo Deus!

Ele começou a caminhar de um lado para o outro no palanque, gesticulando de forma teatral e agressiva.

— Olhem para esses vermes! — ele apontou para Piquenote e os outros. — Eles são a escória do velho mundo! Pessoas sem propósito, sem pureza! A evolução dos Espectros não foi dada à humanidade para que marginais dominem as ruas! Nosso Soberano, aquele que carrega o Espectro Divino do Morcego Primordial, nos ensinou uma verdade absoluta: aqueles que despertaram e lideram a santa fé são a raça superior! Nós somos escolhidos! O resto de vocês… é apenas o poço de sujeira que precisa ser purificado ou curvado! Quem vai contra a Igreja de Nosso Deus Morcego vai contra a própria existência!

O discurso dele era doentio, puro autoritarismo fantasiado de religião.

Enquanto o falante andava da direita para a esquerda, cuspindo suas palavras, meu olhar voltou para o general de armadura prateada. O cara do lobo estava imóvel. E então, por um breve segundo… ele virou o rosto para cima.

Seu único olho cinzento mirou exatamente no ponto do telhado onde eu estava.

Meu coração deu um pulo na garganta. Por puro reflexo, me encolhi atrás da quina de tijolos, prendendo a respiração. Será que ele me viu? Não, não tem como… Tô na sombra, tentei me convencer, com o suor frio descendo pela minha nuca.

— E por isso — gritou o discursante da Igreja, levantando a mão direita —, nós executaremos esses vermes para que todos vejam o destino da desobediência!

O falante ergueu o braço para dar o sinal final aos lanceiros.

— AGORA! — a voz do Gui cortou o ar como um trovão.

No mesmo instante, o caos se instalou. Os homens do Santa Mônica saíram dos becos gritando, pegando os guardas da Igreja de surpresa. O pavor tomou conta dos civis, que começaram a correr e se atropelar para fugir da praça.

A multidão se abriu em pânico, e o Gui caminhou a passos firmes bem no meio do espaço livre, chamando toda a atenção para si.

— Parece que essa tal Igreja de que vocês tanto falam é só mais uma mentira! — o Gui gritou, com a voz cheia de deboche.

Antes que um soldado pudesse reagir, Gui avançou e fincou sua espada direto no peito do guarda, empurrando o corpo mortificado para o chão.

— Vocês nem são tão fortes assim! — provocou ele, limpando o sangue do rosto com o antebraço e encarando o discursante.

O homem de mantos ficou vermelho de raiva, os lábios tremendo.

— Como você ousa, seu lixo?! — berrou o falante. — Está vindo aqui atrapalhar a execução de outro lixo igual a você?! Você vai morrer junto com ele!

O falante olhou desesperado para o general de armadura prateada, fazendo um sinal impaciente. Mas o cara do lobo nem se mexeu. Continuou encostado na haste do palanque, de braços cruzados, só observando.

Transtornado pela indiferença do general, o falante gritou para os guardas comuns:

— Soldados, para cima dele agora! Matem esse desgraçado!

Mais de meia dúzia de soldados avançou contra o Gui de uma vez. O Gui começou a lutar bravamente, aparando golpes, esquivando-se e contra-atacando, mas a superioridade numérica era esmagadora.

Aproveitei a confusão generalizada para me mover. Corri pelos telhados das casas laterais, saltando de um para o outro, contornando a praça para chegar por trás do palanque. Durante todo o trajeto, uma sensação pavorosa não me abandonava: a impressão nítida de que havia um par de olhos cravado nas minhas costas, me acompanhando a cada pulo.

Quando finalmente alcancei a parte traseira do palanque, olhei para baixo. O Gui já estava visivelmente desgastado. Tinha cortes nos braços e na coxa, sangrando bastante, mas deu um sorriso debochado, limpando a boca com a mão suja.

— É só isso que a Igreja tem? — arfou o Gui. — Vocês realmente são uns fracassados.

O discursante da Igreja, furioso, olhou mais uma vez para o homem da armadura de lobo. Desta vez, o general deu um suspiro curto, acenou levemente com a cabeça e desceu os degraus do palanque com passos lentos e pesados.

— Olha, garoto… não tenho nada contra você — disse o general, com sua voz calma e grave. — Eu só estou fazendo o meu trabalho.

Ele sacou uma espada prateada da bainha. No momento em que a lâmina ficou exposta, uma aura azul-clara gigantesca e densa começou a emanar de seu corpo. O ar ao redor dele ficou pesado. Da sua própria sombra no chão, a energia azul se moldou até invocar o Espectro: um lobo gigante, de pelagem prateada e olhos cinzentos e mortos, que emergiu rosnando e mostrando presas afiadas como navalhas.

O Gui deu um passo para trás, com o pavor estampado nos olhos, mas tentou segurar a firmeza na marra, erguendo sua espada.

Enquanto a atenção de todos estava no general, saltei do telhado direto para a parte de trás do palanque, caindo sem fazer barulho atrás das estacas do Piquenote.

Saquei minha faquinha e comecei a tentar afrouxar as amarras de ferro e corda que prendiam os braços dele.

— Miguel…? — Piquenote murmurou, quase sem forças.

— Fica quieto, vou te tirar daqui — sussurrei.

Antes que eu pudesse cortar a segunda corda, uma voz fria ecoou bem acima de mim:

— Eu não faria isso se fosse você, garoto. Você até que é bom em se esconder, igual aos outros vermes aqui.

Gelei. O general do lobo tinha virado o rosto na minha direção. Sem nem mudar de postura, ele apenas deu um golpe rápido com sua espada no ar.

SWOOSH!

Não foi a lâmina que me atingiu, mas uma rajada de vento cortante, gerada pelo movimento violentíssimo da espada. O golpe de ar passou raspando por cima da minha cabeça e decepou a madeira espessa da estaca acima de Piquenote como se fosse papel. A tora de madeira voou longe, e a pressão do vento foi tão forte que jogou meu cabelo todo para trás e me fez cair sentado no chão do palanque.

Fiquei paralisado, o pavor tomando conta de cada célula do meu corpo.

— Meu Deus! Como você chegou aí?! — gritou o discursante da Igreja, assustado ao me ver ali atrás.

O general nem deu atenção ao pregador. Virou-se de volta para o Gui, ignorando minha presença no palanque por um momento.

— Bom… vamos acabar logo com isso — disse o cara do lobo.

Ele avançou contra o Gui. A luta foi uma humilhação. O general se movia com uma velocidade absurda, atacando com precisão mortal. O Gui tentava bloquear, mas sua espada mal acompanhava o ritmo. Ficava nítido que o cara da armadura prateada estava se segurando, brincando com o Gui como um gato brinca com um rato antes de matar.

A lâmina prateada cortava o ar e a carne do Gui em golpes dinâmicos e devastadores. Com uma rasteira e um golpe de cabo no peito, o general derrubou o Gui pesadamente no chão.

Nisso, recobrei os sentidos. O discursante tentou vir para cima de mim, gritando:

— Seu moleque desgraçado—!

Antes que ele terminasse, inclinei o corpo e desferi um chute giratório com toda a força da minha bota, direto na têmpora dele. O impacto foi seco. O falante caiu desmaiado no palanque como um saco de batatas.

Aproveitei a brecha e terminei de soltar as duas amarras do Piquenote.

— Vai, levanta! — pedi, tentando puxá-lo.

Mas, quando olhei para as pernas do Piquenote, percebi a desgraça: os joelhos dele estavam estourados; ele nem conseguia ficar em pé, muito menos correr. E, ao redor da praça, a situação era sanguinária. A maioria dos homens do Santa Mônica já tinha sido chacinada pelos soldados. Os poucos civis que sobraram já tinham fugido.

Olhei para a frente. O Gui estava jogado no chão, sangrando, e o general caminhava lentamente até ele.

Eu não podia largar o Piquenote ali para ser pisoteado, então o puxei com cuidado e o coloquei deitado no canto mais seguro do palanque, para não se machucar mais.

Eu não tinha meu Espectro. Eu só tinha uma faquinha na cintura que nem tinha sacado ainda. Mas eu não podia deixar o Gui morrer.

O general parou ao lado do Gui, ergueu o pé e afundou a bota pesada de metal no ombro ferido dele.

— AAARRGH! — Gui deu um grunhido gutural de dor.

— Vou te dar a honra de saber o meu nome antes de morrer — disse o general, pressionando ainda mais o pé sobre o ombro destruído do Gui. — Eu sou Valerius, o Canino Branco.

Vendo o Gui ser esmagado daquele jeito, o desespero tomou conta de mim. Corri na direção do Canino Branco com tudo, vindo por trás dele, tentando acertar o mesmo chute na cabeça que tinha derrubado o discursante.

Só que o Canino Branco nem piscou.

Sem tirar o pé do ombro do Gui, ele apenas girou o tronco com uma facilidade assustadora, estendeu a mão enluvada de metal e segurou meu pé no ar antes que o chute o atingisse.

Ele olhou no fundo dos meus olhos com uma indiferença aterradora e simplesmente me arremessou de lado.

Meu corpo voou pelo ar e colidiu com violência contra o chão de madeira do palanque. Minha cabeça estalou, minha visão ficou turva e o ar fugiu completamente dos meus pulmões, me deixando tonto e totalmente desorientado no chão.

O impacto me jogou contra a parede de madeira do palanque com uma força brutal. Senti a madeira estalar nas minhas costas, e o ar sumiu completamente dos meus pulmões. Fiquei ali, caído de lado, com a visão embaçada e um zunido ensurdecedor nos ouvidos.

Eu conseguia ver, no limite do meu campo de visão, o Canino Branco ajustando o cabo da sua espada prateada, preparando-se para desferir o golpe final e cravar a lâmina no peito do Gui.

Foi nesse momento que a dor física desapareceu.

De repente, o som das espadas e dos gritos da praça sumiu. O tempo pareceu desacelerar até parar. Dentro da minha cabeça, aquela mesma voz feminina do meu pesadelo — doce, suave, mas infestada de uma maldade ancestral — ressoou tão clara quanto se alguém estivesse sussurrando no meu ouvido:

“Ó, meu garoto… tão pequeno, mas ainda tão fraco…”

No instante em que ela terminou de falar, senti uma força invisível esmagar meu pescoço, como se uma mão gigante e fria estivesse me enforcando. Tentei puxar o ar, mas não saía nada. E então, meu peito queimou.

Uma onda de energia violenta disparou do meu coração para as minhas extremidades. Senti minhas veias pulsarem, o sangue fervendo, e uma eletricidade estranha e desconhecida se espalhou por cada músculo do meu corpo.

A pressão do ar ao meu redor mudou drasticamente.

O Canino Branco, que já estava com a espada armada sobre o Gui, parou o movimento no meio do caminho. Ele virou o rosto rapidamente na minha direção, com os olhos cinzentos semicerrados. Ergueu uma sobrancelha, encarando o ponto onde eu estava jogado, e soltou um murmúrio desconfiado:

— Hm… Interessante.

Ele deu meia-volta, tirando a atenção do Gui e dando o primeiro passo na minha direção.

Mas ele não conseguiu dar o segundo.

Uma mão ensanguentada e firme agarrou o tornozelo da armadura do Canino Branco com extrema força.

— A gente… ainda não acabou, cara — a voz do Gui saiu rouca, rasgada, vinda do chão.

O Canino Branco olhou para baixo, surpreso. O Gui começou a se levantar devagar, ficando de pé com certa dificuldade. Mas havia algo absurdamente errado — ou certo — com ele. Uma aura de energia vermelha e densa começou a emanar do corpo do Gui, ondulando no ar como chamas puras. Quando ele ergueu a cabeça, vi que seus olhos não eram mais normais: brilhavam em um tom amarelo e vermelho misturados, radiantes de pura fúria.

O Canino Branco deu um sorriso de canto de boca, visivelmente surpreso.

— Olha… até que os garotos daqui têm um certo futuro.

Antes que o general pudesse levantar a espada, o Gui avançou de mãos limpas. Ele não usou lâmina alguma; foi direto para a trocação bruta. O Gui desferiu uma sequência rápida e violenta de cruzados e diretos. A velocidade era tanta que o Canino Branco teve que dar dois passos rápidos para trás, usando os braços da armadura para bloquear os socos que estalavam contra o metal prateado.

Vendo aquela brecha e sentindo aquela energia desconhecida ainda queimando nas minhas veias, não pensei duas vezes.

A dor no meu corpo tinha sumido completamente, substituída por uma leveza absurda. Me lancei para a frente em uma velocidade que eu nunca tinha atingido na vida. Alcancei o outro lado do Canino Branco e desferi um soco direto na costela dele.

BOOM!

O impacto do meu soco contra a armadura fez o general balançar.

Pela primeira vez, nós estávamos pressionando ele. Eu e o Gui começamos a encaixar ataques sincronizados de socos e golpes de curta distância, um de cada lado, sem dar espaço para ele sacar a espada direito. O Gui atacava com a aura vermelha rugindo ao seu redor, e eu me movia no ritmo daquela energia estranha que guiava meus reflexos.

Em vez de se irritar, o Canino Branco começou a dar risada. Ele estava realmente gostando daquilo.

— Que interessante! — disse ele, aparando um soco meu com o cotovelo e bloqueando um direto do Gui com a palma da mão. — Vocês, garotos, realmente são diferentes do resto dessa sujeira. O que acham de vir trabalhar conosco? Na Igreja, talentos como vocês seriam lapidados!

— CALA A BOCA! — berrou o Gui, com os olhos amarelos e vermelhos brilhando de fúria.

Continuamos avançando sem parar. O Gui tentou um gancho, eu tentei um golpe na base da cabeça dele, mas o Canino Branco desviou de ambos com esquivas curtas.

Em um movimento combinado e desesperado, eu e o Gui saltamos ao mesmo tempo, desferindo dois chutes fortes na altura dos braços dele — um pela esquerda e outro pela direita.

CLANG!

O Canino Branco ergueu os dois braços para fora, segurando nossos chutes no ar com as mãos nuas. O impacto dos nossos pés na armadura dele gerou uma rajada de vento tão forte que levantou a poeira e fez as tábuas do palanque estalarem alto ao redor.

— Muito bem — o Canino Branco sorriu, com o olhar ficando frio de novo. — Se vocês não querem simplesmente aceitar o que estou dizendo… vou ter que mostrar para vocês como as coisas funcionam.

Com um movimento brutal de ombros, ele nos arremessou.

Ele girou os braços e me jogou para a esquerda e o Gui para a direita. No mesmo milissegundo em que soltou o Gui, o Canino Branco disparou como um bicho, encurtando a distância e desferindo um chute lateral devastador.

O Gui conseguiu cruzar os braços na frente do rosto no último segundo para se defender, mas a força do golpe foi absurda.

CABOOM!

O corpo do Gui voou metros pelo ar, atravessou a varanda de uma casa de madeira próxima e afundou direto na parede dos fundos, levantando uma nuvem gigante de poeira e pedaços de telha.

Pousei de pé no chão, derrapando na lama. Respirei fundo, com o peito subindo e descendo. Olhei para a estrutura onde o Gui tinha afundado — ele não estava se mexendo rapidamente. O Canino Branco estava se virando devagar para mim, sem um único arranhão sério, só limpando a poeira do ombro.

Pensar. Eu preciso pensar, minha mente começou a girar a mil por hora.

Comecei a calcular cada possibilidade, cada plano, cada linha de ação. Se a gente continuasse lutando diretamente, ele ia nos matar. A armadura dele era pesada, a força era desproporcional e ele mal tinha usado o Espectro do lobo até agora.

Meus olhos mapearam a cena inteira ao meu redor em frações de segundo. E foi aí que eu notei.

Logo acima da casa onde o Gui tinha afundado, havia uma estrutura rústica de segundo andar — uma espécie de depósito improvisado com uma quantidade absurda de entulho, vigas de ferro pesadas e sacos de entulho acumulados. Com os golpes de antes e o impacto do corpo do Gui, a estrutura inteira de madeira da base daquela casa estava visivelmente bamba, rangendo e prestes a ceder.

Se eu conseguisse levar o Canino Branco até ali e acertar o ponto certo… a casa inteira desabaria em cima dele.

O Canino Branco nem me olhou. Ele simplesmente virou de costas e começou a caminhar na direção do Gui, pisando fundo sobre as tábuas quebradas. Ele ia passar exatamente pelo ponto cego, bem debaixo daquela estrutura bamba de madeira carregada de entulho.

Era a única chance.

Puxei a faquinha da minha cintura com a mão direita. A energia estranha que ainda queimava no meu corpo pareceu se concentrar na ponta dos meus dedos, deixando minha percepção nitidamente mais afiada.

Ajustei a mira, puxei o ar e berrei com toda a força do meu peito:

— GUI, SE PROTEGE!

No mesmo segundo, lancei a faca com toda a força que me restava.

A lâmina voou feito um projétil, cortando o ar e cravando-se na viga mestra de sustentação, que já estava rachada. O impacto da faca foi a gota d’água. A estrutura cedeu com um estalo seco e ensurdecedor.

O Canino Branco parou. Ele olhou para cima e, ao ver toneladas de madeira, vigas de ferro e sacos de entulho desabando direto sobre sua cabeça, apenas deu um sorriso calmo.

CABOOM!

A estrutura inteira veio abaixo, cobrindo o general da Igreja em uma tempestade de poeira, pedras e destroços pesados.

Não perdi um segundo. Corri em disparada até o buraco na parede, puxei o Gui pelo braço — que já estava tentando se encolher para se proteger do entulho — e passei o braço dele pelo meu ombro. Em seguida, corremos até o palanque, pegamos o Piquenote e o içamos juntos.

— Vamos embora daqui! Agora! — gritei, sentindo minhas pernas pesarem.

Fugimos dali o mais rápido que nossos corpos surrados permitiam. Atravessamos ruelas escuras, evitando as patrulhas principais e cortando caminho por becos imundos até finalmente deixarmos o centro da cidade para trás.

Conforme a distância da praça aumentava, o ritmo da corrida diminuía, dando lugar a uma caminhada pesada. Piquenote acabou apagando totalmente no meio do caminho, pelo cansaço e pela dor. O silêncio da rua só era quebrado pelas nossas respirações desgovernadas.

— Valeu, Miguel… — o Gui murmurou, com a voz fraca e a aura vermelha já tendo desaparecido por completo. — Se não fosse você… a gente tinha virado comida de lobo.

Engoli em seco, com o peito ainda queimando por dentro.

Que porra foi aquela?, pensei comigo mesmo, olhando para as minhas próprias mãos trêmulas. Aquela energia absurda pulsando nas minhas veias… seria um Espectro finalmente despertando? E o pior: de quem era aquela voz feminina e doce que parecia estrangular meu pescoço por dentro? Eu não fazia a menor ideia.

— Gui… — chamei, olhando para ele de canto de olho. — O que foi aquilo lá atrás? De onde veio aquela energia vermelha toda?

O Gui deu um riso fraco, limpando o sangue que escorria do seu nariz com a manga da blusa.

— Pra ser sincero? Eu não sei, mano. Eu só senti uma raiva desgraçada e o corpo esquentou… Mas com certeza foi o que salvou a nossa pele ali.

Continuamos caminhando no limite do nosso fôlego, carregando o Piquenote inconsciente entre nós.

Pensei comigo mesmo que não era uma boa ideia ir para o Santa Mônica. Então, nos guiei ao único lugar que achei que era seguro.

Quando finalmente cruzamos a entrada da mercearia, a tensão acumulada desmoronou de uma vez. A energia que sustentava meu corpo simplesmente evaporou, e minhas pernas viraram geleia.

O Gui cedeu primeiro, caindo de joelhos. Logo em seguida, eu e o Piquenote fomos juntos, desabando pesadamente dentro da loja.

Fiquei ali, deitado de costas, olhando para o teto de madeira, com a visão escurecendo aos poucos pelas bordas, até que tudo apagou por completo.