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Capítulo III – Cicatrizes e Respostas

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Capítulo III – Cicatrizes e Respostas

A escuridão aos poucos foi dando lugar a uma luz fraca e morna. Meu corpo inteiro parecia ter sido pisoteado por um bando de cavalos; cada músculo me mandava um sinal de dor, mas o que me fez recobrar os sentidos de verdade foi uma sensação estranha de conforto.

Minha cabeça não estava encostada na terra dura da rua. Ela estava apoiada em algo macio e aquecido.

Abri os olhos devagar, piscando contra a luz. Eu estava deitado no colo de alguém. Quando olhei para cima, dei de cara com a Ashley. Ela estava curvada sobre mim, com um sorriso gentil e aliviado no rosto, e me encarava de um jeito tão bonito que por um segundo até esqueci a dor no peito.

— Você finalmente acordou… — disse ela, a voz suave. — Fiquei preocupada, Miguel. Você tá cheio de machucados pelo corpo. Tá se sentindo bem?

Fiquei ali travado por alguns segundos, olhando para ela feito um tonto. O cabelo castanho bem claro dela caía um pouco sobre o rosto, e os olhos castanhos brilhavam com a luz da manhã.

— A-ah… estou, estou bem sim — murmurei, concordando com a cabeça meio distraído, sentindo o rosto esquentar.

Lembrei da situação num baque. Me sentei meio rápido, limpando o rosto sujo de poeira e tentando me recompor. Mas no segundo em que me ajeitei no chão, o sorriso gentil da Ashley simplesmente sumiu. A cara dela fechou feio de repente.

— Bom. Agora que você já tá melhor…

PAU!

Ela me deu um soco seco e forte direto no meio da barriga.

— AAARGH! — dobrei o corpo na hora, caindo de lado no chão e segurando a barriga. Os machucados da luta doeram dez vezes mais com o impacto. — O que… por que você fez isso?!

— E quem são esses dois aqui?! — ela gritou, com as mãos na cintura, apontando com a bota para o Gui e para o Piquenote que estavam jogados desmaiados ali do lado, na entrada dos fundos da mercearia.

Respirei fundo, tentando puxar o ar de volta para os pulmões enquanto me levantava devagar, coçando a cabeça.

— Ah… esses caras? Eles são meus amigos.

Ashley me encarou por dois segundos inteiros em silêncio.

— Não vai me dizer que eles são os caras que acabaram de atacar a igreja na praça?!

Fiz uma cara de bobão, olhando para cima e coçando a nuca, sem saber muito bem o que responder.

Ashley levou as duas mãos ao rosto, soltando um urro de frustração.

— Você não tem nada nessa cabeça, Miguel?! Você realmente trouxe eles para cá?! Imagina se o vovô chega aqui agora e vê essa palhaçada!

— Mas não tínhamos para onde levá-los, Ash! — me defensei, erguendo as mãos. — Nós não podíamos voltar para o Santa Mônica, a igreja com certeza ia cercar o bairro primeiro. Eles provavelmente iriam nos matar!

Ela travou o olhar em mim, pegando a palavra no ar:

— Calma aí… como assim “nos matar”? Você estava junto com eles no ataque?!

Baixei os olhos, encarando as pontas das minhas botas sujas de lama e sangue.

— Eu precisava ir… eles são meus amigos.

Ashley soltou o ar com força pelo nariz, massageando o rosto.

— Ah, tanto faz… Que inferno! Vamos levar eles lá para cima de uma vez. A gente tem que ser rápido antes que algum soldado ou qualquer um apareça aqui de surpresa.

Nós dois pegamos o Gui e o Piquenote pelos ombros. Os dois continuavam apagados feito pedras. Carregamos os dois escada acima com um esforço absurdo e os deitamos nos colchões do andar superior da mercearia.

Assim que os deixamos lá, Ashley me puxou pelo braço até uma salinha menor do andar de cima.

— Senta aí — ordenou ela, pegando uma caixa de panos e remédios artesanais.

Ela sentou na minha frente e começou a limpar um corte feio no meu braço. A mão dela era delicada, mas eu mal conseguia relaxar. O clima estava tenso demais.

De repente, lá de baixo, o som do sino da entrada badalou. Alguém estava batendo forte na porta da mercearia.

BAT! BAT! BAT!

Ashley travou as mãos no meu braço. Olhou para mim com o rosto pálido.

— Eu vou descer lá para ver o que é. Fica aqui em cima — sussurrou ela.

Concordei com a cabeça, mas assim que ela pisou no primeiro degrau da escada, a pulga atrás da minha orelha começou a coçar. Poderia ser perigoso demais deixá-la ir sozinha. Me levantei sem fazer barulho, fui até a beirada da escada e me escondi atrás da cortina que separava os fundos da loja, tentando enxergar pelas brechas e focar os ouvidos.

Ashley abriu a porta da frente.

Quando vi quem estava do outro lado, meu sangue gelou. Era o mesmo soldado da igreja que tinha ido lá no dia anterior atrás do Sr. Hazman. Aquele sujeito enorme, pálido, com a cicatriz feia na cara.

— Ora, ora… se não é a garotinha dos Hazman — disse o soldado, com aquele mesmo sorriso nojento no rosto. Ele olhou por cima do ombro dela para dentro da loja. — O velho já voltou?

— Ele ainda não chegou — Ashley respondeu de imediato, mantendo a voz firme na marra.

— Ah, tudo bem. Dessa vez eu não tô atrás dele — o soldado deu um passo para a frente, apoiando a mão no cabo da espada. — Tô atrás daquele outro rapaz que trabalha aqui. O que falou comigo mais cedo.

— Não… ele não voltou — Ashley mentiu sem piscar. — Ele tá desaparecido desde a última vez que saiu daqui. Eu não sei o que aconteceu com ele, a gente tá até um pouco preocupado.

O soldado estreitou os olhos, encarando ela de cima a baixo.

— Você tem certeza disso? É que a igreja tá procurando por ele… Parece que eles querem alguma coisa importante com ele. Eu mesmo não sei dizer o que é.

— Tenho certeza sim — disse ela, sem dar passo para trás. — Ele não tá aqui.

O soldado deu mais um passo para dentro, meio que se embrenhando na mercearia, nitidamente desconfiado. Ele passou os olhos pelas prateleiras, pelas frutas e mirou no corredor dos fundos por dois segundos.

Meu coração batia tão forte contra o peito que tive certeza de que ele conseguiria ouvir. Minhas mãos suavam.

— Bom… de qualquer forma — o soldado se virou devagar para a porta —, se ele aparecer por aqui, você precisa chamar algum oficial da igreja imediatamente. Entendido?

— Entendido — Ashley concordou, com a cabeça erguida.

O soldado pegou mais uma maçã do balcão sem pedir, deu uma mordida estalada e finalmente saiu, batendo a porta.

Assim que a sombra dele sumiu pela janela, soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Ashley trancou a porta na chave rapidamente, encostou a testa na madeira e respirou fundo.

Puxei a cortina e desci os últimos degraus correndo.

— Eles estão vindo atrás de nós — falei baixo, a voz grave. — Nós não vamos poder ficar aqui por mais tempo, Ash.

Ela se virou para mim, os olhos cheios de preocupação.

— Mas vocês não querem um pouco mais de tempo só para descansar?! Vocês estão muito mal, Miguel! Não podem ficar andando por aí desse jeito, ainda mais agora que deve ter soldados da igreja em todos os cantos procurando por vocês!

— Não dá, Ashley — encarei os olhos dela. — Eu não quero colocar você e o vovô em risco. Vocês… vocês são valiosos para mim.

Ashley deu uma leve corada, virando o rosto para o lado e soltando um estalo com a língua.

— Seu idiota… — resmungou ela, baixinho. Depois suspirou. — Tudo bem. Mas deixa eu pelo menos preparar algumas coisas, comida e ataduras para vocês partirem.

Ela se virou e subimos os dois juntos de volta para o andar de cima. Enquanto o Gui e o Piquenote continuavam apagados nos colchões, nós começamos a revirar os armários, juntando suprimentos de emergência em uma bolsa de couro.

Foi quando, lá embaixo, o sininho da porta badalou de novo.

PLIN-PLIN!

Ninguém tinha batido dessa vez. A porta tinha sido aberta direto.

— Vovô?! — Ashley deu um pulo, o rosto se iluminando na hora. — Deve ser o meu avô!

Ela nem esperou por mim; virou as costas e desceu a escada correndo.

Fiquei parado no topo da escada por um segundo. Espera aí… , pensei. O vovô sempre gritava o nome dela assim que entrava na mercearia. Ele nunca entrava em silêncio desse jeito.

— Ashley, espera! — chamei, correndo atrás dela.

Quando cheguei no meio da escada, ouvi o grito agudo dela lá embaixo:

— ME LARGA!

Acelerei os passos e cheguei no térreo. O choque do que vi me fez travar no lugar.

Um homem vestindo uma armadura preta e prateada pesada da igreja — sem capacete, revelando um cabelo curto platinado e um rosto severo, com olhar de quem já tinha matado dezenas de pessoas — estava segurando a Ashley por trás. Ele tinha o braço esquerdo apertando o pescoço dela e a mão direita empunhando uma adaga afiada contra a garganta da garota. Era um comandante da igreja.

— Ora, ora… não é que ele estava mesmo aqui? — disse o comandante, com uma voz fria e calma. Ele deu um sorriso debochado para o canto da loja. — Você fez um bom trabalho.

Olhei para a direção onde o comandante estava olhando.

Parado ao lado do soldado da cicatriz (aquele que tinha acabado de sair), estava um rosto que eu conhecia muito bem.

Era o Leonardo. O homem alto, velho e cheio de cicatrizes que tinha peitado o Gui lá na mesa do Santa Mônica, dizendo que não queria arriscar a vida de ninguém pelo Piquenote.

Eu não conseguia acreditar no que meus olhos estavam vendo.

— Não é possível… — gaguejei, o peito apertado de raiva e nojo. — Você realmente nos traiu, Leonardo?!

O velho nem piscou. Ele estava encostado numa viga, de braços cruzados, sem a menor sombra de remorso no rosto.

— São só negócios, garoto — disse o Leonardo, cuspindo no chão de madeira. — O Gui estava perdendo a cabeça por causa do irmão dele. Eu não podia deixar o Santa Mônica acabar por causa de dois moleques egoístas. A igreja me deu uma oferta e eu só protegi os meus.

Dito isso, Leonardo virou as costas e caminhou calmamente para fora da mercearia, sumindo na rua.

O comandante da igreja ajustou a adaga no pescoço da Ashley, fazendo um fio de sangue bem fino surgir na pele clara dela. A garota estava de olhos arregalados, tentando não tremer.

— Muito bem, garoto — disse o comandante, mirando os olhos frios em mim. — Onde estão os outros dois? É bom que você se entregue agora mesmo… ou eu vou ter que acabar com a garotinha aqui.

Apertei os meus punhos com tanta força que minhas unhas quase furaram a palma da minha mão. Olhei para a Ashley, olhei para o comandante, e senti o peso esmagador da situação.

O Gui e o Piquenote estavam desmaiados lá em cima. Eu estava machucado, desarmado, e com a vida da Ashley pendurada por um fio. Eu não tinha para onde correr.

A lâmina do comandante parecia queimar a pele do pescoço da Ashley. Ver ela naquela situação me destruía por dentro. Eu não tinha escolha.

— Tudo bem… eu me entrego — falei, erguendo as mãos abertas para frente. — Eu não sei onde estão os outros dois. Só solta a garota.

— Não! Não faz isso, Miguel! — gritou a Ashley, tentando se mexer, mas prendendo o choro. — Eles vão te matar!

Ajustei a postura e encarei os olhos dela por um segundo, tentando passar a maior firmeza do mundo, mesmo com o peito apertado.

— Está tudo bem, Ash. Pode ficar tranquila… relaxa.

Dei dois passos para a frente. O comandante me encarou com um desdém nojento e deu uma ordem com a cabeça para o soldado da cicatriz.

— Algema esse verme.

O soldado avançou rápido, puxou meus braços com violência para trás e travou meus pulsos em um par de algemas de ferro pesadas. O estalo do metal fechando ecoou pela loja. Em seguida, o comandante virou para outros dois soldados que tinham acabado de entrar atrás dele.

— Vocês dois, subam e revistem o resto dessa casa. Se tiver mais alguém, matem.

Olhei de relance para o teto, com o coração na boca. Tomara que o Gui e o Piquenote já tenham acordado , torci mentalmente. Com a barulheira de portadas e gritos que deu aqui embaixo, eles precisavam estar pelo menos conscientes para conseguir fugir pelas janelas dos fundos.

Voltei minha atenção para o comandante.

— Pronto. Agora solta ela!

O comandante deu um sorriso de canto de boca, com aquele olhar de quem se acha dono do mundo.

— Bom… acordos são acordos, né, garoto?

Ele empurrou a Ashley para o lado sem o menor cuidado. A garota tropeçou e caiu de joelhos no chão, perto do balcão. Mas antes que eu pudesse respirar aliviado, o comandante fez um sinal para o soldado da cicatriz.

— Algema a garota também.

— NÃO! — gritei, tentando dar um passo à frente. — Você falou que ia soltar ela!

— Ué, e eu soltei! — debochou ele, ajeitando as luvas. — Mas ela é uma criminosa. Abrigou vocês aqui, o que faz dela uma inimiga declarada da igreja.

Dois guardas foram para cima da Ashley. Me deu um estalo de ódio no cérebro. Tentei dar um puxão bruto com os braços para arrebentar as algemas, mas o soldado que me segurava me travou com força, puxando meus pulsos para cima.

O comandante deu dois passos na minha direção e desferiu um chute seco e forte direto no meu peito.

PAM!

Como eu já estava absurdamente machucado e de mãos presas, não consegui segurar o peso do meu próprio corpo. Voei para trás, batendo com as costas no chão e derrapando no assoalho de madeira da mercearia.

O comandante caminhou até mim, parando do meu lado e me olhando totalmente por cima, com nojo.

— Vocês são todos uma escória… Pensar que gente como vocês conseguiu vencer alguns dos nossos soldados. O Canino Branco tava ficando maluco em achar que vocês seriam úteis para a igreja. Vou resolver logo essa merda.

Ele levou a mão à bainha atrás das costas e sacou sua espada, erguendo a lâmina prateada para me cravar ali mesmo.

Fiquei deitado, encarando o metal brilhando acima de mim. Só que, ao olhar para cima… notei que o teto de madeira diretamente acima do comandante estava tremendo. Pedaços de poeira e farpas começaram a cair.

CRACK!

O teto simplesmente explodiu para baixo.

Um soldado da igreja despencou lá do alto, e o Gui veio direto no vácuo dele, pisando com os dois pés no peito do coitado! O impacto foi insano: o soldado caiu feito uma rocha exatamente em cima do comandante!

CABOOM!

O comandante foi ao chão na hora, desmontado sob o peso do próprio soldado e do Gui.

Com o susto da explosão do teto, os dois guardas que me seguravam se distraíram e me soltaram por um segundo. Não perdi tempo: rolei de lado no chão, me levantei num pulo e dei uma corrida curta para trás, me posicionando.

O Gui se ergueu de cima dos caras com uma poeirada subindo ao redor e um sorriso enorme na cara.

Nisso, a cortina dos fundos rasgou e o Piquenote apareceu, agarrando o outro soldado que tinha subido pela gola da armadura e jogando o sujeito como se fosse um saco de lixo direto por cima de outro guarda que estava no salão.

— Tá precisando de ajuda, Miguel? — o Gui perguntou, limpando o pó do ombro e dando aquela risadinha debochada dele.

Olhei para ele, rindo de canto de boca enquanto ajustava os braços algemados atrás das costas.

— Não é como se eu precisasse de ajuda para ganhar de sujeitos assim… — respondi.

Antes que o guarda mais próximo cobrasse o juízo, avancei de frente e meti uma bicuda de canhota com toda a força da minha bota direto no queixo dele. O capacete voou longe e o cara caiu apagado.

A mercearia virou uma arena de pancadaria generalizada.

O soldado da cicatriz, que ainda tentava segurar a Ashley, se distraiu por meio segundo olhando a confusão. A Ashley aproveitou a brecha, virou a cabeça e cravou os dentes no braço dele com toda a força que tinha.

— AARGH! Sua cadela! — o soldado berrou, soltando ela na hora.

Ashley saiu correndo e se escondeu atrás do balcão. No mesmo instante em que ela se afastou, eu cheguei de lado e mandei mais uma bicuda violenta no meio da barriga do soldado da cicatriz, fazendo ele dobrar de dor e perder o ar.

O Gui e o Piquenote viraram dois demônios ali dentro. Mesmo sem armas grandes, o Gui trocava soco desviando das lâminas com uma agilidade absurda, enquanto o Piquenote usava o peso do próprio corpo e a raiva acumulada para arremessar guardas contra as prateleiras de madeira. Era gaveta voando, fruta caindo e capacete estalando pra todo lado.

De repente, o comandante se ergueu dos destroços do teto, com a cara toda ensanguentada e cuspindo fúria.

— NÃO! EU VOU MATAR TODOS VOCÊS! — gritou ele, percebendo que os soldados dele tinham sido massacrados.

Ele olhou para a porta de saída, percebeu que não tinha como vencer aquela trocação e se virou para dar no pé.

— Gui! Nós precisamos pará-lo! — berrei, correndo atrás. — Se ele sair, vai chamar os reforços da praça!

O Gui deu uma olhada rápida ao redor, caçando qualquer coisa. Ele olhou para o balcão, viu uma maçã vermelha inteira em cima da bancada, pegou a fruta e lançou com uma mira perfeita.

CATAPLAM!

A maçã acertou em cheio na nuca do comandante. O impacto foi tão seco que o cara perdeu o equilíbrio, tropeçou nas próprias botas e desabou de cara no chão perto da porta.

O Gui disparou, agarrou os dois pés do comandante e veio puxando o desgraçado de volta para o meio da loja, arrastando ele pelo assoalho.

Enquanto isso, o Piquenote caminhou com calma até a entrada, encostou a porta da mercearia devagar e passou o ferrolho, trancando tudo.

O comandante, caído de barriga para baixo e sendo puxado pelo Gui, encheu os pulmões para dar um berrão e pedir socorro para a rua:

— SOCOR—!

Antes que a palavra saísse da boca dele, o Piquenote pegou um pedaço de viga grossa de madeira que tinha caído do teto e desferiu um golpe seco, de cima para baixo, bem no topo da cabeça do cara.

THUD!

O comandante apagou na hora, caindo de cara na madeira, completamente apagado.

O silêncio finalmente voltou para a mercearia Hazman.

Procurei pelo corpo do comandante apagado e achei um molho de chaves no cinto dele. Com os braços ainda travados para trás, foi um malabarismo desgraçado até conseguir encaixar a chave certa e girar a trava.

No segundo em que o metal estalou e as algemas caíram no chão, soltei um alívio. Mas a paz durou exatamente dois segundos.

— Vocês têm bosta na cabeça?! Olha o que vocês fizeram com a loja do meu avô! — a Ashley apareceu de trás do balcão, vermelha de raiva, apontando para o teto destruído, as prateleiras quebradas e as frutas esmagadas pelo chão.

Ficamos os três em fileira — eu, o Gui e o Piquenote —, ouvindo a bronca de cabeça baixa feito três moleques que tinham acabado de quebrar a janela do vizinho com uma bola de futebol. Ela nos xingou de tudo quanto foi nome por quase dez minutos seguidos.

Depois que ela gastou a fúria, fomos arrumar a bagunça. Juntamos as frutas inteiras e limpamos o excesso de terra e sangue. Arrastamos os soldados comuns para uma salinha menor nos fundos, deixando todos bem amarrados com cordas e panos enterrados na boca.

O comandante, no entanto, ficou separado. Levamos o desgraçado para a sala do andar de cima, amarramos ele numa cadeira pesada de madeira e travamos os pulsos dele nas algemas da própria igreja. Enfiamos um pano na boca dele.

Enquanto esperávamos ele acordar, encostei na parede perto da janela. O Gui estava com a cara fechada, nitidamente incomodado com a situação toda.

— Nós precisamos arrancar informação desse cara — comentei baixo, olhando para os dois. — Precisamos saber onde estão os soldados e o que a igreja quer.

— Como a gente vai fazer isso? — perguntou o Gui, franzindo a testa.

— Deixa comigo — o Piquenote respondeu de imediato, um sorriso frio surgindo nos lábios dele enquanto ele estalava os nós dos dedos.

Olhei para a cara do Gui no mesmo instante. Ele ficou visivelmente desconfortável com o tom do Piquenote, dando um passo para trás e balançando a cabeça.

— Tá… tudo bem — o Gui suspirou, virando o rosto. — Eu só… não quero estar perto na hora. Vou esperar vocês lá embaixo. Tenho que pensar em umas coisas.

O Piquenote soltou um estalo com a língua, fazendo um som de desgosto pela reação do irmão.

— Tsc… mole — resmungou o Piquenote. Ele virou para mim: — Vem junto, Miguel. Você sabe fazer as perguntas certas.

— Beleza… — concordei, engolindo em seco. Eu precisava daquelas respostas, mesmo que meu estômago estivesse dando nós.

A Ashley também foi orientada a descer. Trancamos a porta da sala do andar de cima.

O Piquenote pegou um copo cheio de água fria do balcão e jogou na cara do comandante. O cara deu um baque seco, engasgando e abrindo os olhos estalados. O sangue seco do corte na cabeça cobria parte do rosto platinado dele.

Mesmo amarrado e todo surrado, o comandante ergueu o queixo, nos encarando com um olhar cheio de desprezo.

O Piquenote se aproximou sem pressa, estendeu a mão e puxou o pano da boca dele de uma vez.

— Vai se foder, seu rato imundo! — o comandante cuspiu sangue direto na direção da canela do Piquenote. — Acham que essa cadeirinha vai me segurar?! Vocês dois já estão mortos! A igreja vai massacrar o resto dessa cidade desgraçada!

Eu dei um meio passo para trás, sobressaltado com a audácia do cara. Como esse desgraçado consegue ser arrogante estando amarrado numa cadeira? , pensei comigo mesmo, sentindo minhas mãos suarem.

O Piquenote nem piscou. Parecia acostumado com aquele tipo de reação. Sem mudar a expressão calma e cruel, ele desferiu um tapa de mão aberta tão violento na orelha do comandante que a cadeira pesada de madeira quase tombou de lado.

PATÁ!

O estalo foi ensurdecedor. O comandante deu um urro de dor contido, a orelha ficando roxa na hora e a cabeça balançando.

— Responde só o que meu amigo perguntar — o Piquenote avisou, a voz assustadoramente baixa.

Puxei o ar, tentando disfarçar a minha hesitação. Minha voz saiu um pouco travada no começo:

— O-onde… onde estão as tropas da igreja? Quais são os planos de vocês?

O comandante virou a cabeça devagar, encarando a mim e ao Piquenote com puro rancor, mas sem demonstrar o pavor que eu esperava. Ele apenas trincou os dentes:

— Querem posicionamento, seus vermes? Estão na praça central, fechando todas as rotas do bairro comercial. O plano era massacrar vocês no Santa Mônica assim que a execução terminasse.

Fiquei processando aquilo mentalmente. Eles fecharam as saídas do centro, mas o Tamandaré ainda deve estar limpo.

— E o vovô da Ashley? — continuei, tentando manter o tom firme, embora ainda gaguejasse de leve. — Por que mandar tropas para uma mercearia?

— Ordens diretas do topo — o comandante respondeu, seco e ríspido. — O velho Hazman tem algum tipo de ligação antiga com o Alto Ministro. Eu não sei que merda de segredo eles têm, só sei que o topo queria a localização dele a qualquer custo!

O vovô Hazman ligado ao Alto Ministro… Aquilo não entrava na minha cabeça. Como um velho dono de mercearia tinha contato com a autoridade máxima da igreja?

Ajustei a postura e fiz a pergunta que mais estava queimando na minha mente:

— E o Canino Branco? Por que aquele cara com o Espectro do lobo veio atrás de mim e do Gui?

O comandante soltou um riso debochado e amargo, cuspindo mais saliva vermelha no chão:

— Aquele desgraçado do Valerius… Ele disse que vocês dois tinham “brilho”. Falou que percebeu potencial de usuário de Espectro em vocês e queria vocês para a guarda de elite dele.

O cara demonstrou uma raiva profunda ao mencionar aquilo. O peito dele subia e descia com violência.

— Aquele filho da puta se acha um deus só porque usa aquela aberração de lobo. Eu servi à igreja por anos! Pedi para entrar na guarda especial dele e ele me negou! Falou que eu não tinha um Espectro!

Pensei rápido no que ele disse e decidi arriscar uma pergunta sobre como os Espectros funcionavam:

— E você… não tem um Espectro? Como é que funciona esse poder? Como faz para despertar um?

O comandante me encarou como se eu tivesse feito a pergunta mais estúpida do mundo, soltando um debochado:

— Espectro? Essa merda é só uma muleta para fracos! Eu sou um guerreiro treinado, caralho! Não preciso de assombrações ou de vozes na cabeça me dizendo o que fazer para matar um homem! Aquilo lá é coisa de gente doente! Se eu tivesse a armadura pesada dele, pisava em qualquer um de vocês sem precisar de poderzinho de luz!

Percebi na hora: esse cara não sabe de nada sobre Espectros. Ele não passou pelo despertar e nem entendia a origem das vozes. Ele só tinha inveja por ter sido rejeitado pelo Canino Branco. Não dava para tirar nada útil dele sobre isso.

Mudei o foco, fazendo mais algumas perguntas rápidas sobre as rondas e os horários das patrulhas. O comandante respondeu tudo com grosseria e xingamentos, levando mais um soco do Piquenote quando tentou erguer a voz demais.

Depois de juntar todas as peças sobre os caminhos da praça e os horários das tropas, olhei para o Piquenote. Eu já tinha conseguido o que precisava.

— Já deu — falei baixo. — Fica à vontade, Piquenote.

Saí da sala e encostei a porta. Lá dentro, ouvi apenas o som seco de mais alguns socos e o baque do comandante desmaiando pesadamente junto com a cadeira.

Fiquei um instante parado no corredor, pensando em como o Piquenote conseguia ser tão frio. Ver aquela cena ainda me deixava com uma sensação estranha na garganta.

Assim que dei mais alguns passos, dei de cara com a Ashley. Ela estava ali perto, esperando.

— Nós acabamos aqui — falei, limpando um pouco da poeira da calça. — Você sabe cadê o Gui?

— Ele disse que ia esperar lá embaixo… não quis ver o que vocês estavam fazendo — respondeu ela, num tom baixo.

Concordei com a cabeça em silêncio.

— Você foi muito corajosa hoje, Ash. Queria te agradecer de novo.

Ela deu um sorriso fraco. Deixei ela ali por um instante e desci as escadas para falar com o Gui. Ele continuava apoiado na madeira do térreo, cabisbaixo.

— E aí, Gui? Tá legal, mano?

— Tô… tô tranquilo — ele respondeu, fazendo uma pausa longa antes de continuar. — Cara… você acha que a gente realmente fez o certo em ir atrás do Piquenote? A gente praticamente assinou um atestado de morte pro Santa Mônica. Todas aquelas pessoas agora… elas não vão mais conseguir viver em paz.

— Relaxa, Gui — falei, colocando a mão no ombro dele. — Elas já não iam ter o que fazer. A igreja ia acabar com a gente de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde. Não tinha como escapar disso. Eles estão cada vez mais fortes.

— Mas será que esse era o melhor caminho? — Gui olhou no fundo dos meus olhos. — Eu sei que o Piquenote é meu irmão e eu amo ele, mas ele nunca foi um exemplo de pessoa. Eu acho que ele é violento demais às vezes.

Lembrei na mesma hora do Piquenote desfigurando o comandante lá em cima e concordei por dentro com o Gui, embora soubesse da necessidade daquela brutalidade contra a igreja.

— É até bom ter alguém como ele em momentos assim, Gui — respondi.

O Gui respirou fundo, encostando a nuca na parede e olhando para o teto. A expressão dele mudou, ficando mais pensativa e intrigada.

— Miguel… e aquele poder na praça? — ele sussurrou, a voz caindo de tom. — O que diabos foi aquilo?

Encarei o Gui, atento.

— O que você sentiu? — perguntei.

— Mano… quando eu tava no chão, sangrando, prestes a morrer… eu senti um calor desgraçado no peito. E aí… foi como se alguma coisa falasse comigo na minha mente. Uma voz estranha, parecendo que tava me empurrando pra cima. E aí veio aquela energia vermelha toda. Será que… será que era um Espectro?

Ouvir o Gui falar aquilo fez minha cabeça girar.

Tudo o que nós sabíamos sobre os Espectros vinha de boatos do pós-Anúncio: eram entidades ou seres míticos associados aos poderes que algumas pessoas despertavam. E sim, diziam que eles conseguiam se comunicar diretamente com os seus portadores.

Fiquei em silêncio, apenas escutando o Gui, enquanto raciocinava por conta própria. A voz na mente do Gui falou com ele só na hora do desespero. Mas e a minha?

Lembrei da voz feminina, doce e maligna (“ Ó, meu garoto… “) que sussurrou no meu pescoço antes de eu disparar aquela velocidade bizarra. Só que aquela voz já falava comigo há muito tempo… nos meus sonhos no palácio branco, muito antes da briga na praça. Se aquilo era o meu Espectro, por que ele já estava me assombrando antes?

Decidi não falar nada sobre o meu pesadelo por enquanto. Guardei essa dúvida para mim.

— É bem provável que seja um Espectro sim, Gui — falei baixo. — Se nós realmente despertamos isso, vai ser a nossa única vantagem contra esses caras.

O Gui concordou com a cabeça, visivelmente mais reflexivo.

— Não comenta disso com o Piquenote ainda, tá? Ele tá cego de raiva por causa do Leonardo e da igreja. Ele não vai entender isso agora.

— Pode deixar — respondi.

O Gui respirou fundo e subiu as escadas para se juntar ao irmão. Logo depois, a Ashley desceu devagar para falar comigo no térreo.

— E aí, Ashley? Tá bem? — perguntei.

— Tô… até o possível — disse ela, abraçando o próprio corpo. — Mas ainda tô muito preocupada com o vovô. Ele não chegou…

— Ash, escuta — cheguei mais perto dela, abaixando a voz. — Você não pode ficar aqui. Quando aqueles soldados forem dados como desaparecidos, a igreja vai mandar metade do exército para cá. Você precisa vir conosco.

— O quê?! Ir com vocês? — Ashley franziu a testa, surpresa. — Mas… e se o vovô vier? Se ele voltar e não me encontrar aqui?

— A gente deixa uma carta para ele — respondi rapidamente, já calculando os riscos. — Uma carta escrita com coisas que só você e ele entenderiam, algum código ou memória de vocês. Assim, se alguém da igreja achar, não vai entender nada, mas o vovô vai saber exatamente para onde você foi e que está segura.

Ashley me encarou por alguns segundos, ponderando as minhas palavras. A lógica fez sentido para ela.

— Tudo bem… — ela concordou, soltando o ar. — Me dá um pedaço de papel.

Subimos para o andar de cima. Enquanto a Ashley escrevia a mensagem enigmática para o vovô Hazman, chamei o Gui e o Piquenote para o canto da sala. Era hora de alinhar o nosso destino.

— Para onde nós vamos agora? — perguntei, encarando os dois.

— A gente tem que ir pro Tamandaré — disse o Gui de imediato. — É o melhor lugar. Tem bastante parente nosso por lá e a galera da facção de lá era parceira do Santa Mônica. A gente pode se esconder lá por enquanto.

— Por mim fechou — o Piquenote concordou, com os braços cruzados e a cara fechada. — É o único lugar onde a gente ainda tem alguma moral. Lá a gente se arma e planeja como vai massacrar aquele desgraçado do Leonardo e os vermes da igreja pra vingar todo mundo que morreu no Santa Mônica.

A menção ao Leonardo fez o ar da sala pesar. O Piquenote estava com os dentes trincados de puro ódio pelo traidor.

— Beleza, o Tamandaré é uma boa — pontei, mantendo a voz calma e calculada. — Então nós vamos para o Tamandaré e a Ashley vai conosco.

— Nem fodendo! — o Piquenote disparou na hora, a voz alterada. — Ficou maluco, Miguel?! A gente vai atravessar a cidade caçado por soldados e você quer carregar uma garota fraca que só vai ser um peso morto?!

— Ela não é peso morto, Piquenote — o Gui rebateu, ficando de frente com o irmão. — Ela ajudou a gente, escondeu a gente e cuidou de você quando você tava apagado! Se a gente deixar ela aqui, a igreja mata ela assim que pisar no salão!

— E o que a gente tem a ver com isso?! — vociferou o Piquenote. — A minha meta é vingança! O Leonardo nos vendeu, a igreja destruiu nosso bairro e matou nossa gente! Não tenho tempo pra babá de garotinha!

Eu continuei quieto, só observando os dois baterem de frente. Quando percebi que o Piquenote estava irredutível, soltei minhas palavras na medida certa para guiar a decisão dos dois sem me alterar.

— Piquenote… — falei, bem baixo, chamando a atenção dele. — Se a igreja descobrir que a mercearia do avô dela nos ajudou, eles vão usar a garota para tentar nos achar de qualquer jeito. Se ela estiver conosco, no Tamandaré, ela fica protegida e sob o nosso controle. Além do mais, ela conhece suprimentos e remédios que podem ser úteis para a nossa base lá.

O Piquenote me encarou, bufando de raiva, mas não conseguiu rebater o meu argumento prático.

— É isso aí, Piquenote — o Gui reinforced, aproveitando a brecha que abri. — Nós não vamos largar a garota para morrer depois do que ela fez por nós.

O Piquenote encarou o Gui, depois olhou para mim, e finalmente soltou um estalo de língua irritado.

— Que se foda! — resmungou ele. — Mas se essa garota atrasar a gente ou der um piado na hora errada, eu não vou parar pra socorrer ninguém. A minha prioridade é caçar o Leonardo e derrubar a igreja, entenderam?

— Combinado — disse o Gui.

— E o que nós fazemos com os soldados amarrados lá embaixo? — perguntei, direcionando o assunto para a última etapa.

— A gente mata todos — o Piquenote disse na hora, levando a mão ao cabo da faca na cintura. — Corta a garganta de um por um e joga os corpos no esgoto. Morto não fala.

— Não — o Gui interveio imediatamente, chocado. — A gente não é igual a eles, Piquenote! Não precisa assassinar caras que já estão renderidos e desarmados!

— Se deixar eles vivos, eles vão dar o alarme assim que alguém achar eles! — o Piquenote gritou.

— Não vão, se nós fizermos do jeito certo — me intrometi, usando meu tom calmo para encerrar a discussão. — Nós não precisamos matar. Nós damos mais um golpe para desmaiar todos eles de vez, carregamos até a beira do rio perto da saída do bairro e largamos eles amarrados lá na lama. O tempo que eles vão levar para acordar, se soltar e conseguir voltar para a praça é mais do que o suficiente para nós já estarmos bem longe, no Tamandaré.

O Gui olhou para mim e concordou rapidamente:

— É perfeito. Ninguém morre e a gente ganha a nossa vantagem do mesmo jeito.

O Piquenote olhou para mim, depois para o Gui, e balançou a cabeça em negação, inconformado com a nossa falta de sangue nos olhos.

— Vocês são muito moles… PQP. Tá bom, façam essa merda rápido antes que apareça mais patrulha nessa rua.

Arrumamos a mercearia para parecer que tinha sido apenas abandonada às pressas. Carregamos os soldados desacordados um por um até a beira do rio próximo, deixando eles bem amarrados na lama da margem, exatamente como planejado.

Quando voltamos, a Ashley já tinha deixado a carta bem escondida em um ponto do balcão que só o vovô Hazman saberia procurar.

Colocamos capas e capuzes velhos para nos disfarçar, cobrindo os rostos e escondendo as poucas armas que tínhamos. Deixamos a Mercearia Hazman para trás, cortando ruelas secundárias na escuridão em direção ao bairro do Tamandaré.