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Capítulo IV – O Peso do Caminho

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Capítulo IV – O Peso do Caminho

Nós nos abrigamos na dobra de um beco apagado, longe de qualquer janela que pudesse revelar nossas silhuetas. Puxei um pedaço de carvão do chão e raspei a quina dura contra a madeira encardida de um caixote para desenhar o mapa da cidade.

— Nós precisamos sair do bairro da Vila Brasil — iniciei, apontando o carvão para o início do risco. — A rota mais direta é seguir essa reta que corta direto o centro urbano e cruzar para o outro lado da cidade. Mas isso significa uma coisa: nós vamos ter que passar exatamente por onde aconteceu o massacre na praça central.

A Ashley deu um passo à frente, ajustando a alça da bolsa no ombro enquanto observava o desenho no caixote.

— O centro deve estar abarrotado de patrulhas — comentou ela, a voz baixa.

— Com certeza — concordei. — E tem mais um detalhe. O Leonardo nos traiu. Ele conhece o Gui, conhece o Piquenote e sabe perfeitamente que, se nós escapássemos vivos, o nosso único porto seguro seria o Tamandaré. É bem provável que ele já tenha avisado a igreja ou até mandado algum recado para os contatos dele de lá. A nossa atenção precisa ser dobrada.

O Piquenote encostou as costas na parede, cruzando os braços pesados e soltando um estalo de língua carregado de desdém.

— O Leonardo é um verme traidor, mas a rapaziada do Tamandaré é de família — cortou o Piquenote, irredutível. — Eles eram parceiros fechados do Santa Mônica. Ninguém daquele morro vai comprar o barulho de um traidor da igreja contra a gente.

— O meu irmão tá certo — reforçou o Gui, concordando com a cabeça. — Nós crescemos conhecendo aquele pessoal. Eles não vão virar a cara para nós só porque o Leonardo abriu a boca.

Olhei para os dois por um segundo. A lealdade cega deles aos velhos laços de facção me deixava com uma pulga atrás da orelha, mas contestar aquilo agora seria perda de tempo.

— Que assim seja. Mas nós não podemos vacilar no caminho — arrematei.

O ar da cidade no pós-Anúncio cheirava a poeira queimada e mofo. Conforme avançávamos rumo ao centro, a decadência das ruas ficava cada vez mais evidente. As pessoas andavam encolhidas, de cabeças baixas, carregando o peso de uma rotina esmagada pela opressão da Igreja do Morcego Primordial. A esperança tinha virado artigo de luxo.

Para a nossa sorte, a rota nos forçou a cruzar a borda do grande mercado central — o coração comercial da cidade. O lugar era um caos absoluto de tendas improvisadas, lonas rasgadas e barracas de madeira disputando espaço nas calçadas. Vendia-se de tudo: de frutas amassadas e roupas usadas até peças de latão e supostas “pedras milagrosas” que prometiam despertar o Espectro de quem as carregasse.

Como a Ashley e eu tínhamos pego uma quantia razoável de moedas do caixa da mercearia antes de trancar o lugar, decidimos agir rápido para mudar as nossas aparências.

A Ashley se encarregou de ir atrás de mantimentos e me chamou para ir com ela. O Gui e o Piquenote se separaram para buscar roupas mais discretas para nós quatro e reforçar o que pudessem.

Caminhar ao lado da Ashley no meio daquela multidão barulhenta trouxe um silêncio estranho entre nós dois.

— Sabe, Miguel… — disse ela, ajeitando uma mecha do cabelo castanho atrás da orelha enquanto desviávamos de um grupo de carregadores. — Às vezes eu só queria que tudo voltasse a ser normal. Quando o Anúncio aconteceu… eu cheguei a pensar que as coisas fossem melhorar. Que se Deus ou qualquer coisa do tipo tinha falado com o mundo, a gente finalmente teria paz. Mas parece que o ser humano só perdeu o resto de humanidade que ainda tinha.

Olhei para as minhas botas enquanto andávamos. As palavras dela pesaram no meu peito.

— Eu odiava a minha vida antiga, Ash — confessei, a voz calma. — Eu queria que algo mudasse, queria sentir que existia algo a mais para mim no mundo. Mas eu nunca imaginei que essa mudança viria acompanhada de tanto sangue. Talvez… a ideia de ter uma vida especial fosse só um sonho estúpido de criança.

Ela me olhou de canto de olho, a expressão amolecendo por um instante, mas logo fomos puxados de volta para a realidade do mercado.

A Ashley tinha uma facilidade absurda para conversar com as pessoas. Enquanto comprava maçãs, pães secos e tiras de carne numa barraca de madeira envelhecida, ela puxava assunto de um jeito tão natural que ninguém desconfiava das intenções dela. Eu ficava mais recuado, apenas observando e juntando as peças.

— A vida tá difícil por aqui, né, senhor? — perguntou ela ao dono da barraca de frutas, um velho de barba rala chamado Seu Osvaldo.

— Não me fale uma coisa dessas, menina — resmungou o velho, embalando três maçãs numa folha de jornal. — E vai piorar. A nossa igreja tá organizando uma varredura geral pra invadir o Santa Mônica daqui a dois dias. Querem limpar tudo por lá.

— Misericórdia… — murmurou a Ashley, trocando um olhar rápido comigo.

Na barraca ao lado, uma vendedora de tecidos comentava em voz alta com uma freguesa sobre os confrontos fora dos limites urbanos:

— A patrulha tá reforçada porque a nossa igreja tá em guerra contra a Ordem do Espinho de Ferro , lá da cidade vizinha. Aquele general deles, o Mão de Prata, tentou invadir os postos avançados de novo.

Passei as informações mentalmente limpas para a memória: A invasão da nossa própria igreja ao Santa Mônica em dois dias; as patrulhas deslocadas por causa da guerra contra a Ordem do Espinho de Ferro. Rumores valiosos.

Terminadas as compras, nos apressamos para o ponto de reencontro combinado com os meninos.

Ao chegarmos perto de uma barraca pesada, cheia de lâminas penduradas em ganchos, encontramos o Piquenote examinando o fardo de uma faca de caça de aço escuro.

— Cadê o Gui? Ele não estava com você? — perguntei de imediato, olhando ao redor.

— Aquele tonto parou numa tenda ali atrás para ficar encarando umas pedras coloridas — resmungou o Piquenote, testando o fio da faca com o polegar. — Nem entendi o que ele cismou de fazer com aquilo.

Pensei em pedir para a Ashley esperar ali com o Piquenote enquanto eu ia atrás do Gui. Mas logo pensei: Porra, mas o Piquenote deixou claro que não ia cuidar dela de jeito nenhum… talvez não seja uma boa ideia.

Porém, antes que eu dissesse qualquer coisa, a Ashley se aproximou da bancada de lâminas por conta própria, pegando uma das facas para olhar. O Piquenote olhou por cima do ombro dela, franzindo a testa:

— Você entende alguma coisa de faca por acaso, garota?

— Mais do que você pensa — respondeu a Ashley, sem se intimidar. Ela virou a lâmina contra a luz. — Essa de lâmina curva aqui tem um equilíbrio péssimo para combate direto. Mas essa outra de cabo de osso do lado… a distribuição de peso e a espessura da espinha são perfeitas para corte rápido e firme.

O Piquenote ergueu as sobrancelhas, genuinamente surpreso com o conhecimento prático dela, e pegou a peça de osso para testar na mão. Em poucos segundos, os dois engataram uma conversa concentrada sobre armamento e corte.

Vendo que os dois estavam se entendendo, percebi que podia deixar os dois ali tranquilamente. Me virei e fui atrás do Gui.

Encontrei meu amigo parado diante de uma tenda pequena. Sobre o pano esticado na bancada, havia dezenas de minérios e pedras reluzentes. Atrás da mesa, sentada numa cadeira de palha, estava uma senhora extremamente idosa, magra, vestindo panos escuros e com o olhar fixo no vazio.

— E aí, Gui? Tá suave, mano? — perguntei, me aproximando. — Ficou encarando essa pedra aí sem parar.

— Tô suave, Miguel… — disse ele, sem tirar os olhos de um colar de pedras ásperas. — É que… eu ainda tô pensando naquela energia que nós sentimos na praça. Será que a gente consegue controlar aquilo de algum jeito? Eu sei que pode parecer idiota, mas vai que uma dessas pedras ajuda a guiar o que tá no nosso peito?

Passei os olhos pelas peças dispostas na bancada. Aquilo me trouxe uma memória antiga: minha mãe costumava dizer que os minérios e as pedras da terra serviam como condutores para guiar a nossa própria energia. Ela era extremamente supersticiosa.

— Olha… dependendo do preço, às vezes vale a pena tentar — comentei. Me virei para a vendedora: — Senhora?

A velhinha, que parecia imóvel, piscou devagar e focou os olhos em nós. A profundeza do olhar dela me deu um arrepio gelado na espinha. Era como olhar para o fundo de um poço sem fim.

— Oh… meu pequeno garoto… — a voz dela saiu arrastada, suave. — Estão procurando algo em específico?

— Não… só dando uma olhada — respondi, tentando disfarçar o desconforto. — A senhora tem alguma coisa para oferecer para nós?

A senhora levantou-se da cadeira com uma lentidão quase dolorosa. Ela se aproximou do balcão, estendeu a mão enrugada e, sem pedir licença, puxou suavemente um dos meus cachos de cabelo, esticando o fio e observando a cor quase dourada dos meus olhos.

Fiquei totalmente estático, desconcertado com o gesto.

— Olha só… que garotos fortes — sussurrou ela, soltando meu cabelo e sorrindo com a boca quase sem dentes. — Eu sinto uma energia muito boa vindo de vocês. Acho que tenho algo para vocês sim.

Ela se virou para a parte de trás da tenda e mexeu em alguns caixotes velhos. Quando voltou, trazia uma única caixa de madeira escura . Entalhado na tampa, havia o desenho detalhado de uma rosa cheia de espinhos afiados .

ela abriu a caixa na nossa frente.

Dentro, repousados sobre um pano de veludo desbotado, haviam dois anéis de prata envelhecida , ambos entalhados com o mesmo símbolo da rosa de espinhos no topo.

— Abram os caminhos… — disse a senhora, mirando os olhos fundos em nós. — Esses anéis foram feitos para andar juntos. Sinto que eles vão abrir muitas portas na jornada de vocês.

Peguei o meu anel e deslizei pelo meu dedo médio. O Gui pegou o dele e fez o mesmo. Serviram perfeitamente em nós dois. No instante em que o metal ajustou-se à minha pele, uma pulsação morna e sutil percorreu o meu braço. Era uma sensação estranha, mas que trazia um eco distante de poder.

— Quanto custa os dois, senhora? — perguntei, puxando a bolsa de moedas.

— Para vocês… posso fazer um preço especial — disse ela, sorrindo. — Sete moedas de prata pelos dois.

Nós tínhamos catorze moedas ao todo. Sete moedas cobriam exatamente o valor cobrado. Olhei para o Gui:

— O que acha, mano? Vale a pena?

— Se ajudar a gente a ter aquele poder… e mesmo se não ajudar, ainda são coisas bem legais de se ter — disse o Gui, abrindo um pequeno sorriso.

— Tudo bem, nós vamos levar os dois então — concordei, entregando as sete moedas na mão enrugada da senhora.

Ela guardou as moedas, colocou os dois anéis na caixa de novo e nos entregou numa sacola de pano. Antes que eu recuasse, ela estendeu a mão e fez mais um carinho leve no topo da minha cabeça, o que me fez estranhar de novo.

— Foi uma boa compra, meus garotos… — disse ela.

A senhora voltou a se sentar na cadeira de palha e, num piscar de olhos, voltou a encarar o nada, ficando completamente imóvel como se nós já não existíssemos ali.

Pegamos a sacola e nos afastamos.

— Não conta para a Ashley que nós compramos isso — avisei o Gui, baixinho. — Ela é muito fiscal de dinheiro. Se souber que gastamos sete pratas com isso, mata a gente.

O Gui riu e concordou com a cabeça.

Ele aproveitou para vestir a nova troca de roupas que tinha comprado: uma calça de sarja escura e uma jaqueta gasta sem mangas. Eu vesti um casaco pesado de gola alta que escondia o cabo da minha faca e a minha corrente no pescoço. Nos limpamos na água de um barril e nos reunimos com o Piquenote e a Ashley.

Continuamos o caminho cortando os becos do centro até chegarmos à avenida principal que dava acesso à ponte do Tamandaré.

Ao espreitarmos pela quina de um muro, o meu sangue congelou.

A rua principal estava completamente bloqueada. Barradeiras de madeira reforçada e três soldados armados com lanças e espadas pesadas paravam cada pessoa que tentava cruzar a travessia, revistando bolsas e fazendo perguntas rígidas.

— Droga… — murmurei, recuando a cabeça. — Eles estão parando a rua principal.

Enquanto estávamos escondidos ali perto, agucei os meus ouvidos. Consegui pegar um trecho da conversa dos três soldados perto da barricada:

— …pois é, os superiores avisaram que o grupo que a gente tá procurando provavelmente vai tentar passar por aqui — dizia um dos guardas, ajustando a braçadeira. — Aquele bandidinho do Santa Mônica deu a dica certeira. É só manter os olhos abertos.

O desgraçado do Leonardo realmente tinha entregado a nossa rota para a igreja.

O Piquenote e o Gui estreitaram os olhos, calculando se valia a pena partir para a ignorância e atropelar os guardas na força bruta.

— Espera — a Ashley se intrometeu, surgindo de trás de nós. — Eu tenho uma ideia. Mas vocês vão ter que ter a mente um pouco aberta.

Nós olhamos para ela, mas paramos para ouvir o plano.

O plano era simples e funcional. O Gui e o Piquenote usariam a agilidade deles para escalar as casas por trás e atravessar por cima das telhas sem que os guardas vissem. Enquanto isso, a Ashley e eu criaríamos a distração perfeita na rua.

A Ashley posicionou-se na calçada oposta, respirando fundo e ajustando a expressão do rosto. Num piscar de olhos, a postura defensiva dela sumiu, dando lugar a uma atuação impecável de puro desespero.

Ela desatou a correr na direção dos três guardas da barreira, gritando com a voz embargada e lágrimas nos olhos:

— SOCORRO! POR FAVOR, ALGUÉM ME AJUDA!

Os três soldados da igreja viraram o rosto na hora, empunhando as armas.

— O que houve, garota?! — perguntou o guarda do centro, surpreso.

— Eu fui roubada! — gritou a Ashley, jogando um charme sutil para cima deles enquanto segurava o braço do guarda com as mãos trêmulas. — Um rapaz de casaco escuro acabou de arrancar o meu colar de família e correu por ali! Por favor, o colar era da minha mãe!

— Onde é que ele foi?! — perguntou o segundo guarda, caindo feito um patinho na atuação dela.

No mesmo segundo, eu saí da dobra da rua em alta velocidade, fingindo desespero, e cruzei a avenida bem na vista dos soldados.

— Ali! É aquele ali! — gritou a Ashley, apontando para mim.

— Parado aí, seu verme! — berraram os três guardas em coro.

Os três soldados abandonaram o posto de bloqueio e saíram em disparada no meu encalço.

Aproveitando a brecha perfeita, a Ashley apenas se recompôs com um sorriso calmo, ajeitou a roupa e atravessou o ponto de bloqueio deserto andando tranquilamente, enquanto o Gui e o Piquenote saltavam das telhas do outro lado para se juntarem a ela.

Enquanto isso, cortei direto para o beco que eu tinha mapeado mentalmente minutos antes.

Pisei fundo no chão batido do beco, projetando meu corpo para frente. Mas quando dobrei a última curva… dei de cara com uma grade alta de ferro trancada com correntes. Era um beco sem saída.

Parei bruscamente, girando os calcanhares.

Os três guardas dobraram a esquina do beco, cercando a minha única rota de fuga. Eles sacaram as espadas longas, sorrindo com deboche.

— Foi você, né, que roubou o colar da garota? — disse o guarda do meio, dando passos lentos na minha direção. — Acho que agora você tá bem ferrado, menino.

Encostei as costas na grade de ferro, encarando os três. Um sorriso lento e confiante rasgou o meu rosto.

— É… talvez eu estivesse ferrado — respondi, mantendo a voz fria. — Mas dessa vez não vai ser o caso.

Puxei o olhar para o lado: empilhadas perto da grade, havia uma porção de lajotas de obra e telhas de barro soltas.

Sem hesitar por meio segundo, me abaixei rápido, agarrei duas lajotas pesadas e arremessei a primeira com toda a força do meu braço direto na cara do guarda da frente.

CRASH!

A lajota de barro explodiu em cheio contra o capacete e o nariz do soldado, esmigalhando-se e espalhando uma nuvem densa de poeira e pedregulhos nos outros dois guardas. A poeira tirou a visão deles por um tempo, fazendo-os tossir e proteger os olhos.

Aproveitei a agilidade que eu tinha. Finquei a bota nas frestas da grade de ferro e me projetei para cima como um gato, escalando a grade e pulando para o outro lado da cerca.

— ELE TÁ FUGINDO! PEGUEM ELE! — o guarda atingido berrou, limpando o sangue do nariz.

Não olhei para trás. Iniciei uma disparada veloz pelas travessas secundárias até despistar completamente os soldados.

Corri o máximo que pude até encontrar a Ashley, o Gui e o Piquenote nos esperando perto da antiga rodoviária.

Parei ao lado deles, puxando o ar para os pulmões com um sorriso de canto de boca.

Daquele ponto em diante, bastava subir o morro perto da rodoviária e nós finalmente pisaríamos no Tamandaré .