Capítulo V – Sombras no Morro
Capítulo V – Sombras no Morro
Continuamos subindo o morro sem enrolação, deixando o barulho da feira para trás. A poeira da estrada começava a dar lugar ao terreno íngreme do Tamandaré. Ajeitei a gola do meu casaco, olhando de relance para o Gui e para o Piquenote.
— É o seguinte — murmurei, me aproximando mais deles para a nossa conversa não vazar. — Consegui ouvir umas coisas na feira enquanto a Ashley pegava os mantimentos. A nossa igreja tá organizando uma varredura geral. Eles planejam invadir o Santa Mônica daqui a dois dias para limpar tudo por lá.
O Gui arregalou os olhos na hora, travando o passo por um segundo. O Piquenote trincou os dentes, a fúria faiscando no olhar.
— Tem mais — continuei. — Eles estão com metade das tropas ocupadas fora daqui porque estão em guerra com outra igreja da cidade vizinha, a Ordem do Espinho de Ferro. O tal do general Mão de Prata tá pressionando as fronteiras deles.
— Uma guerra de fronteira? — o Gui pensou alto, franzindo a testa. — Será que nós não podemos usar essa guerra a nosso favor? Tentar alguma aliança ou fugir para o território dessa outra igreja?
— Você acha que vai mudar alguma coisa? — o Piquenote cortou de imediato, soltando um estalo com a língua. — Provavelmente são só outros idiotas achando que podem virar deuses ou algo do tipo. Nós temos que dar um jeito na igreja daqui. E eles não podem invadir o Santa Mônica de jeito nenhum. Tem muitas famílias inocentes lá.
Esbocei um aceno quieto com a cabeça. Por mais que o Piquenote tentasse manter aquela postura de sujeito durão, cruel e inabalável, no fundo ele realmente se importava com as pessoas do nosso bairro. Ele sempre dava um jeito de ajudar quem não podia se defender.
— O Piquenote tem razão — pontei. — Mas nós precisamos de força para parar a igreja. Talvez com o pessoal do Tamandaré nós consigamos fazer algo. Fiquei sabendo que a facção daqui é forte e que um deles até despertou um Espectro.
— Ah, sim! — o Gui concordou rápido. — O nosso primo, o Petrini. Ouvi dizer que o Petrini realmente despertou o Espectro dele.
O Piquenote soltou uma risada curta e debochada.
— Calma aí. O Petrini? Aquele baixinho tem um Espectro? Isso só pode ser piada. Com certeza é invenção dos caras só para botar medo na igreja. Mas de qualquer forma deve estar funcionando, já que fiquei sabendo que os soldados não sobem o Tamandaré de jeito nenhum. É… até que é uma boa.
Retomamos o ritmo da caminhada. A subida do morro cobrava o seu preço nos nossos músculos já cansados.
— Eu não consigo parar de pensar no Santa Mônica — o Gui desabafou, cabisbaixo. — Nós não podemos deixar as coisas como estão. Mas… e se nós tentássemos um acordo com a igreja? Alguma negociação para eles pelo menos não machucarem as pessoas do bairro?
O Piquenote parou de andar no mesmo instante, virando-se para o irmão com os olhos saltados.
— Você ficou maluco, Gui?! Aqueles caras mataram o nosso irmão! Você acha que tem como fazer acordo com eles?! Eles acabaram de tentar me executar na praça, você acha mesmo que isso é uma boa ideia?!
Aquelas palavras do Piquenote fizeram uma memória amarga subir na minha garganta.
Há três anos, os dois tinham um terceiro irmão — o Breno, o mais velho da família. Ele era, sem dúvidas, a pessoa mais querida e gente boa de todo o Santa Mônica. Mesmo sendo um bandido temido e respeitado por todos na região, ele tinha um coração enorme: estava sempre distribuindo doces e dinheiro para as crianças, organizando festas no bairro e ajudando quem precisava. Quando a igreja assumiu o poder após o Anúncio, ele foi uma das primeiras pessoas a se levantar contra a opressão.
A igreja tentou destruí-lo de todas as formas, mas nunca conseguia vencê-lo em combate direto. Ele tinha sido o primeiro usuário a despertar um Espectro no Santa Mônica. Sabendo disso, a igreja agiu pelas sombras: fecharam um acordo sórdido com a antiga namorada dele, a Camila. Ela o atraiu para uma caminhada fora dos limites protegidos do bairro, e lá uma emboscada o esperava.
A igreja enviou seus melhores usuários de Espectro da época junto com uma matilha de cães de guerra famintos. Ele lutou como um leão, mas acabou sendo retalhado e estraçalhado de forma brutal. Aquela tragédia ficou marcada para sempre no Santa Mônica. Foi depois disso que as coisas desandaram de vez e o Gui precisou engolir a dor para assumir a liderança do bairro.
O Gui abaixou a cabeça ao ouvir a menção ao Breno, engolindo em seco. O peso daquela lembrança parecia esmagar as últimas esperanças dele.
— É… você tem razão — o Gui murmurou, a voz falhando de leve. — Não tem mais salvação para eles.
O Piquenote observou o irmão por alguns segundos. O olhar agressivo dele amoleceu um pouco, dando lugar a uma rara demonstração de empatia ao perceber a dor do Gui.
— Olha… às vezes é difícil encarar que não dá para conversar com certo tipo de gente — o Piquenote completou, num tom surpreendentemente calmo para o padrão dele. — Eu entendo o seu lado, mano. Relaxa.
Os dois trocaram um aceno silencioso, apaziguando o clima pesado entre eles.
À medida que nos aproximávamos das primeiras casas do Tamandaré, uma sensação incômoda começou a pinicar a minha nuca. O silêncio da rua era grande demais, estranho demais.
Olhei de relance para a esquerda, depois para a direita, fingindo apenas ajeitar o capuz do casaco.
— Diminuam o passo aí — falei bem baixo, sem mudar o tom de voz. — Acho que nós estamos sendo seguidos.
O Piquenote não se alarmou; apenas passou os olhos de forma sutil pelas construções acima. O Gui fez o mesmo.
— Ali — o Piquenote murmurou, sem apontar. — Na casa um pouco à frente. Tem um cara em cima daquele telhado. E tenho a sensação de que tem mais dois à direita.
— É… realmente tem mais dois na direita — o Gui confirmou, ajustando a postura. — O que nós fazemos agora, Miguel?
— Vamos continuar andando devagar até ver o que eles vão—
SWOOSH!
O som agudo de algo cortando o ar ecoou antes que eu terminasse a frase. Uma flecha passou assobiando a milímetros do rosto do Gui. Num reflexo puro, o Piquenote avançou e puxou o irmão pelo colarinho para trás com brutalidade. O projétil fincou fundo na terra seca bem onde a cabeça do Gui estava um segundo atrás.
O Gui deu um pulo para trás, chocado, a respiração presa na garganta.
Antes que pudéssemos reagir, outro assobio cortou o ar — desta vez na direção da Ashley.
— Cuidado! — berrei, me jogando por cima dela.
Atingi o ombro da Ashley e caímos juntos no chão. A segunda flecha passou raspando sobre as minhas costas e cravou-se no batente de madeira de uma casa próxima. A Ashley soltou um arfar assustado, encolhendo-se sob o meu corpo.
— Todo mundo no chão! — o Piquenote gritou, agachando-se com a mão na bainha da faca, varrendo os telhados com o olhar.
De repente, do alto da casa à nossa frente, uma figura saltou para a rua. Ele vestia roupas inteiramente pretas e usava uma balaclava cobrindo o rosto. Assim que pisou no chão, o sujeito fez um sinal rápido com a mão, mandando avançar.
No mesmo segundo, os outros dois homens que estavam escondidos à direita — o Renan e o Denis — saltaram dos muros e avançaram juntos.
Três atacantes para nós três.
— Ashley, fica atrás de mim! — ordenei, me erguendo num pulo enquanto um dos mascarados, o Renan, vinha na minha direção com um facão em rasteira.
Pulei para trás, desviando do metal por centímetros. Ajustei o corpo, usei a agilidade extra que meu corpo vinha desenvolvendo e desferi um soco direto no peito do meu agressor, seguido de uma joelhada forte na costela dele. Ele cambaleou, sem fôlego.
Ao meu lado, o Gui desviou de um golpe do outro mascarado, o Denis, travou o braço do sujeito e deu uma cotovelada precisa no queixo dele. Nós dois tínhamos uma clara vantagem sobre os nossos oponentes.
Porém, com o Piquenote a história era outra.
O homem que tinha dado o sinal de ataque — o líder do trio — avançou contra o Piquenote com uma velocidade absurda. Ele empunhava duas lâminas curtas e se movia com muita facilidade. O Piquenote desviava como podia, usando a sua faca pesada para segurar os golpes, mas a cada troca de ferro, o sujeito mascarado ganhava terreno, encurralando o Piquenote e abrindo pequenos cortes na jaqueta dele.
O Gui arregalou os olhos ao ver o irmão sendo empurrado contra o muro, sufocado pelas lâminas curtas do líder dos mascarados. Foi como se um estalo de pânico atingisse a cabeça dele. Sem pensar duas vezes, o Gui girou o corpo e desferiu um soco brutal direto na boca do estômago do Denis, o cara que estava lutando contra ele. O som do ar saindo dos pulmões do agressor foi seco. Ele caiu de joelhos na poeira, dobrado, sem conseguir respirar.
Sem perder um segundo, o Gui disparou na direção do irmão.
— Piquenote! — berrou ele.
Os dois irmãos se alinharam lado a lado numa sincronia absurda, quase instintiva. O Gui entrou travando o braço direito do líder mascarado com uma cotovelada no cotovelo dele, abrindo a guarda do sujeito, enquanto o Piquenote aproveitou a brecha e meteu uma joelhada violenta na costela do cara. Eles começaram a alternar socos, esquivas e empurrões com uma coordenação tão perfeita que encurralaram o mascarado contra a parede de uma casa em questão de segundos.
Ao mesmo tempo, dei dois passos para trás, esquivei de um golpe descuidado do Renan e mandei um chute certeiro na perna dele, fazendo o cara desabar de cara na terra, desacordado.
O líder dos mascarados, encurralado entre o Gui e o Piquenote, caiu sentado na lama, totalmente sem fôlego. Os dois irmãos já estavam prontos para desferir o golpe final quando o sujeito ergueu as duas mãos em rendição e puxou a balaclava do rosto, dando uma risada alta e arfante:
— Porra… até que vocês dois não ficaram enferrujados, hein? Priminhos!
O Piquenote e o Gui travaram os punhos no ar, completamente chocados.
Aquele cara era o Marcos, o irmão do Petrini.
— Caralho! É você, Marcos?! — o Piquenote soltou um berrão, abaixando as mãos e estendendo o braço para puxar o cara do chão num arranco. — Que merda é essa, cara?! Por que diabos vocês atacaram a gente?!
O Marcos limpou um pouco de poeira do queixo, rindo de canto de boca:
— Relaxa, Piquenote! Era só uma brincadeira pra testar vocês. Até porque… vocês nunca conseguiriam subir aqui sozinhos desse jeito.
No segundo em que ele disse isso, um farfalhar ecoou pelas telhas e janelas ao redor.
Olhei para cima e o meu sangue congelou por meio segundo. Do nada, surgiram cerca de vinte soldados do Tamandaré espalhados pelas lajes e becos ao nosso redor. Todos armados com arcos longos e flechas apontadas para nós, observando tudo em silêncio. Fiquei impressionado comigo mesmo por não ter percebido a presença de nenhum deles ali antes. Eles controlavam aquele morro perfeitamente.
— Quanto tempo, mano! — o Gui sorriu, quebrando o clima tenso e avançando para dar um abraço forte de irmão no primo. O Piquenote entrou no abraço junto, dando tapas estalados nas costas dele.
— Que bom que vocês estão bem, caras — disse o Marcos, desfazendo o abraço e olhando para os dois. — Eu fiquei sabendo do que aconteceu lá na praça. Mas vem cá, Piquenote… como diabos você conseguiu ser pego pela igreja, seu animal?
O Piquenote deu de ombros, estalando o pescoço e tentando bancar o durão:
— Ah, aqueles vermes deram sorte, só isso. Não foi nada demais.
O Marcos olhou por cima do ombro, vendo o Renan e o Denis jogados no chão tentando se recuperar da surra que levaram de mim e do Gui, e depois apontou para mim e para a Ashley:
— E quem são aqueles dois ali?
— Esse aqui é o Miguel e aquela é a Ashley — o Gui apresentou, apontando para nós. — São amigos nossos que ajudaram a gente a sair vivos daquela bagunça. O Miguel inclusive lutou do nosso lado contra aquele cara da guarda de elite da igreja, o Valerius… o Canino Branco.
O Marcos assobiou, impressionado, olhando para mim com um novo respeito no olhar.
— Bom… então sejam bem-vindos ao Tamandaré — disse ele, fazendo um sinal para os arqueiros nos telhados abaixarem as armas. — Vamos subir, vocês precisam ver como as coisas estão por aqui.
Começamos a subir a ladeira principal. O clima entre o Gui, o Piquenote e o Marcos ficou leve na hora, com os três conversando alto e dando risada na frente.
Fiquei um pouco mais atrás com a Ashley, observando tudo. Me aproximei dela e perguntei baixo:
— Você tá bem, Ash?
— Tô sim… — respondeu ela, abraçando os próprios braços e olhando para os soldados nas janelas. — Mas esse pessoal é meio estranho, né?
— Ah, você se acostuma — respondi com um sorriso fraco. — É o jeito deles de sobreviver.
Conforme avançávamos morro acima, percebi que o Tamandaré não era só um bairro: era um verdadeiro forte militar. Havia postos de guarda em cada esquina, barricadas de madeira reforçada e homens armados vigiando os acessos. Mas o que mais me chamou a atenção foi a vida lá dentro. Diferente da desgraça e do medo sufocante que vi no centro da cidade, as pessoas no Tamandaré andavam normalmente pelas ruas. Tinha comerciante vendendo coisas na calçada e crianças correndo e brincando sem medo.
Aquele cenário trouxe um calor bom para o meu peito. Olhei para a frente e vi que o Gui e o Piquenote também estavam sorrindo, visivelmente aliviados ao ver aquele lugar respirando em paz.
— O Petrini agora é o novo líder daqui — o Marcos ia explicando enquanto andávamos. — Ele assumiu o comando de tudo depois que organizou a defesa do morro.
— Mano, é sério que o Petrini tem um Espectro? — o Piquenote perguntou, genuinamente curioso. — Eu juro que não esperava que ele fosse o primeiro de nós a despertar uma porra dessas.
— É sério sim! — o Marcos riu. — Ele vai ficar feliz pra caralho de ver vocês. Bora lá. Levem os amigos de vocês também!
— Ei, Miguel! Ash! Bora! — o Piquenote chamou, acenando para nós dois.
Acelerei o passo junto com a Ashley e seguimos os três. Fomos subindo cada vez mais alto no morro até chegarmos diante de uma construção enorme que se destacava de todas as outras. Parecia um verdadeiro castelo urbano: não tinha reboco nenhum, era toda feita de lajotas alinhadas e tijolos expostos, mas construída de um jeito absurdamente firme e bem estruturado.
Subimos as escadas de entrada. Por dentro, o lugar fervilhava de movimento. No térreo, tinha gente sentada em sofás velhos conversando, caras contando maços de dinheiro em bancadas de madeira e guardas subindo e descendo com relatórios.
Quanto mais subíamos pelos andares, mais a segurança aumentava. Soldados armados nos encaravam nos corredores até que finalmente chegamos ao último andar da casa.
Lá em cima, num salão amplo com janelões abertos para a vista de toda a cidade, demos de cara com quatro caras sentados ao redor de uma mesa redonda, jogando truco e dando risada.
O cara que estava dando as cartas não era muito grande. Ele tinha mais ou menos a altura do Piquenote — talvez até um pouco menor —, pele morena, o nariz um pouco avantajado e vestia um moletom azul chamativo junto com um boné preto com detalhes azuis virado para trás.
Assim que a porta abriu e ele nos viu entrando, ele travou as cartas na mão. Os olhos dele se arregalaram.
— Não é possível que vocês estão aqui! — berrou ele, jogando o baralho na mesa e se levantando num pulo. — Caraca! Eu achei que nunca mais ia ver vocês, porra!
O Petrini veio andando rápido na nossa direção com um sorriso enorme no rosto. Ele puxou o Piquenote e o Gui para um abraço triplo reforçado, rindo alto e dando tapas na cabeça dos dois.
— Caraca, que bom que vocês estão bem! — disse ele, desfazendo o abraço e olhando para todos nós, transbordando alegria. — Eu tava num cagaço desgraçado por causa de vocês. Vocês conseguiram fugir da igreja, né? Pelo visto vocês tão ficando bons nisso!