Uma Estrela Cai (1)
Uma Estrela Cai (1)
Kael esboçou um sorriso no canto dos lábios ao observar a frustração que o tal Reverendo tentava esconder.
“Hehe, aguarde só um pouquinho, pois este Soberano aqui está preparando uma grande performance que vai fazer você cuspir sangue.”
Declarou em pensamento, antes de voltar o olhar para a Divina Imortal.
Ela sequer tentava esconder a própria irritação por não ser lembrada e por ser tratada daquela forma, o que arrancou de Kael um sorriso travesso.
Ele se sentia extasiado.
A situação o fazia recordar-se de uma certa webnovel que havia lido.
Era chamada A Máscara do Ator.
Uma obra coreana muito boa.
Ela contava a história de um ator que morreu e, ao abrir os olhos novamente, descobriu que sua alma havia despertado no corpo do Demônio Celestial, Cheon Sung-Jin , líder do Culto Sangrento Céu Negro Tingido de Carmesim , que travava uma guerra contra todas as seitas ortodoxas e não ortodoxas de Murim.
O protagonista não sabia usar artes marciais. Embora seu corpo possuísse um poderoso reino de cultivo demoníaco, chamado Grande Realização Sangrenta , ele não conseguia utilizar nada daquilo, pois desconhecia os canais energéticos e não sabia como controlá-los para guiar seu fluxo de Ki.
Tudo o que tinha era seu talento como ator e os reflexos musculares do corpo que agora ocupava. Essas duas coisas o ajudavam a manter a fachada de Demônio Celestial e, principalmente, a evitar que os outros percebessem que havia algo de errado em situações críticas.
Kael deixou escapar um silencioso suspiro ao recordar-se daquela obra de arte que havia lido.
Foi aquela novel que o motivou a fazer aulas de teatro no quinto ano do ensino fundamental.
Estava satisfeito, pois aquelas aulas não haviam sido em vão. Seu talento oculto finalmente tinha, outra vez, um palco para brilhar.
“Talvez eu seja um gênio na arte da atuação”, pensou ele, com convicção.
Sentia que era uma pena Hollywood nunca tê-lo descoberto, mas não deixou que isso pesasse em seu coração.
O que tinha em mãos agora era infinitamente melhor do que qualquer papel que poderia interpretar como artista.
Enquanto Kael fazia profundas reflexões sobre assuntos de extrema importância — pelo menos para ele —, Feng Li assistia a tudo, completamente abismado.
A conversa entre aquela alma divina e seu mestre deixava claro que os dois deveriam ser antigos conhecidos.
Esse fato apenas serviu para confirmar ainda mais sua certeza sobre o grande status que seu Soberano possuía.
Naquele momento, a voz do Reverendo surgiu, interrompendo aquele breve período de silêncio mútuo entre todos.
— Mestra — disse ele com um olhar sério. — Você não deve acreditar nesse tal Soberano.
Bai Suxian olhou de relance para o discípulo pelo canto dos olhos, mas manteve o silêncio e esperou que ele terminasse.
— Você vê, mestra, que, até agora, ele não disse nada demais e só está seguindo o fluxo das informações expostas por você… É óbvio que está mentindo!
Um bufado alto ecoou, causando algumas rachaduras no espaço.
— E pensar que meu prestígio caiu tanto a ponto de um pequeno mortal chamar este Digníssimo de mentiroso…
Kael fez uma pausa dramática de quinze segundos, enquanto tamborilava os dedos da mão que estava fora da Caixa contra a bancada.
Com a mente, pediu à Caixa para mudar as configurações, aumentando a percepção sonora dos sons que surgiam dele para aquele pequeno mundo.
Tumph! Tumph!
Tumph!
Ecos de batidas cada vez mais altas reverberaram e, diante disso, o rosto de Yechen escureceu, enquanto Bai Suxian estreitou os olhos, pois os sons eram estrondosos, mas não sabia deduzir de onde vinham.
Os lábios de Kael se arquearam ainda mais em um sorriso presunçoso. Trouxe de volta as configurações originais da Caixa antes de falar.
— Conseguiram ouvir isso? — disse ele, com uma voz cortante. — Há dois servos meus disputando para decidir qual deles descerá a este mundo para exterminar a formiga que ousou insultar o prestígio deste Soberano!
Suspirou pesadamente, como se carregasse sobre os ombros o peso de uma grandiosa decisão.
— Você tem um péssimo olho para discípulos, irmãzinha Bai — continuou secamente. — Caiu muito em percepção comparada à Divina Imortal de que me recordo.
— O que vai dizer a respeito dessa afronta à minha excelentíssima pessoa? — questionou friamente. — Este Soberano está prestes a acabar com o inseto que você escolheu. Vai tentar defendê-lo de mim? Será que consegue?
A expressão de Bai Suxian escureceu. Ela sequer voltou o olhar para Yechen.
— Discípulo infiel… — disse entre os dentes. — Está me tratando como uma tola? Nós, que alcançamos o ápice, não precisamos de joguinhos ou mentiras como vocês, mortais!
Sua voz era fria e áspera.
Diante daquela repreensão, o Reverendo se calou, mas cerrou os punhos, contendo a raiva.
Para ele, sua mestra era uma tola até o âmago, levando aquela inútil honra que um dia possuiu no Reino Divino a sério demais.
E, de alguma forma, aquele falso Soberano sabia disso e estava usando esse conhecimento para enganá-la a seu bel-prazer.
“Calma, Yechen”, disse a si mesmo em pensamento. “Você deve esperar o momento certo.”
Seus dentes rangeram.
“Um dia você vai me ouvir obedientemente, Bai Suxian… disso não tenho dúvidas.”
Yechen conteve a própria fúria.
Mas, como sua mestra estava cada vez mais dançando na palma da mão daquele sujeito, começou a formular uma alternativa para si caso algo fugisse completamente do controle.
“No fim, fugir é o mais importante para mim no momento. A vingança é um prato que se come frio. Eu terei tempo para alcançar isso se sobreviver.”
Relaxou o aperto dos punhos.
“Não pretendia fazer isso à custa de parte da minha expectativa de vida, mas, se não tiver outro jeito…”
Enquanto a fogueira parecia estar assando a batata chamada Yechen, Kael se divertia cada vez mais com o desenrolar daquele enredo.
Ele já havia formulado algumas suposições.
A princípio, pensou que aquela antiga Divina Imortal estivesse tentando enganá-lo, mas, ao que tudo indicava, talvez ela realmente tivesse certa ingenuidade.
Pelo que havia notado, o orgulho de Bai Suxian era um grande ponto fraco, facilitando as coisas para que sua performance fosse perfeita.
Ainda assim, não estava cem por cento certo disso. Afinal, tudo poderia ser apenas uma performance teatral da parte dela.
Kael sabia que o mundo da atuação era um campo de batalha muito traiçoeiro, que daria uma rasteira no primeiro desavisado. Por isso, devia se manter completamente atento.
“Ela parece fácil de entender”, pensou. “Mas será que parecer fácil não é parte do seu plano? Ou ela realmente acredita que sou o verdadeiro Soberano dos Nove Céus?”
Pegando a Caixa com uma mão enquanto mantinha a outra dentro do mundo em miniatura, sentou-se na cama, pois sentia as pernas fracas depois de permanecer tanto tempo de pé.
“Bem, não nego minha incrível capacidade latente para atuar e interpretar essas sutis intenções escondidas, mas, ainda assim… vamos apenas seguir o fluxo.”
Após finalizar sua profunda reflexão, sua voz surgiu novamente, fazendo o olhar preocupado de Bai Suxian se suavizar um pouco, mas apenas por alguns segundos.
— Minha querida Bai, pelos velhos tempos, este Soberano sente-se na obrigação de alertá-la a tomar cuidado com esse mortal…
Kael fez uma breve pausa para aumentar a tensão, mas, quando notou que o Reverendo iria falar, continuou seu discurso, interrompendo-o descaradamente.
— Esse projeto de discípulo é traiçoeiro, principalmente a seu respeito, irmã Bai. Ele vem pensando coisas perigosas, sabe…
Um silêncio surgiu e logo foi quebrado pela voz furiosa de Yechen.
— Mestra… você não vê que ele está tentando manipulá-la mais uma vez e agora pretende colocá-la contra mim?
Ele fez uma lágrima escorrer de seus olhos, tentando comovê-la.
— Passei mais de mil anos como seu discípulo… não é possível que leve em conta o que ele diz…
Bai Suxian olhava de relance para seu discípulo.
Quando o conheceu, ele era apenas um pequeno garoto de dez anos que havia pouco começado a jornada de cultivo, porém era inegável que era um mortal sem talento algum.
Na opinião dela, o que havia mudado a trajetória dele era sua sorte absurda. Ao calcular seu destino, percebeu uma singularidade.
Era como se estivesse, à força, assumindo um destino solto, algo que não deveria existir, pois tudo tinha seu peso e sua medida.
Não que fosse impossível mudar o próprio destino, porém era terrivelmente difícil, até mesmo para os deuses que compreendiam o Dao do Destino . Isso era um fato.
Todavia, seu discípulo, ainda que não sendo favorecido pelos céus, conseguiu viver oportunidades que apenas esses seres escolhidos pelo Dao Celestial de seus respectivos mundos poderiam viver.
Por conta dessa singularidade, sua atenção foi bastante atraída por aquele jovem, que parecia fazer o impossível acontecer com facilidade.
Diante disso, decidiu ajudá-lo, facilitando seu caminho, na expectativa de que, futuramente, ele pudesse retribuir, ajudando-a a reunir todos os materiais necessários para restaurar seu corpo divino.
Foi a partir da sua intervenção que aquele garoto se tornou um gênio incomparável naquele pequeno mundo dos mortais, tornando-se seu discípulo e tendo acesso à técnica mística do Clã Bai , a técnica de cultivo divino — Destino Radiante.
Como mestra, ela sentia certo orgulho de Yechen. Isso era algo que não negava. Ele a respeitava, era obediente e disciplinado. Não havia nada a suspeitar.
Por outro lado, havia esse seu antigo conhecido.
Não tinha como confiar nas palavras daquela pessoa de seu passado se fosse uma situação comum, mas a diferença entre os dois lados era evidente.
Aquele antigo companheiro era agora poderoso a um nível que ela ainda não conseguira compreender. Mas, apenas pelo pouco que havia visto até então, reconhecia que ele era mais poderoso do que ela mesma havia sido em seu auge.
A conclusão era simples.
Uma potência divina de alto nível não tinha motivos para desperdiçar tempo em diálogos desnecessários. Ele nem precisava dar qualquer satisfação.
Bai Suxian não tinha certeza, mas, pelo pouco que observou e pelas singularidades que percebeu, deduziu que a outra parte havia alcançado o fim do cultivo, o Reino do Senhor Supremo.
Com esse poder, não havia necessidade de joguinhos. Ele poderia conseguir tudo o que quisesse.
Se quisesse sua alma divina, nem seu discípulo, muito menos ela, poderiam fazer algo a respeito.
O fato era que, por aquela pessoa de seu passado ser tão poderosa e ainda se dispor a conversar, Bai Suxian não tinha motivos para desconfiar. Mas isso não significava que simplesmente acreditaria cegamente.
Seus olhos se fecharam brevemente e, quando tornou a abri-los, encarou seu discípulo friamente.
— Yechen! — Sua voz reverberou, suave, porém cortante. — Se você tem certeza de que ele não fala a verdade, então cale-se e deixe-o terminar!
Notando a ferocidade de Bai Suxian, Kael pensou rapidamente em como deveria escolher suas próximas palavras, ou poderia colocar tudo a perder.
Mas não demorou muito para pensar em algumas coisas.
Avaliou melhor o perfil daquele tal Yechen.
“Até seu nome é nome de protagonista. Hm… Apenas tem um péssimo gosto para títulos e roupas…”
Colocando uma mão levemente sobre a têmpora, começou a desenvolver seu roteiro mentalmente.
E, nesse momento, um certo romance duvidoso de cultivo que havia lido no passado lhe veio à mente.
Chamava-se De um Simples Homem ao Deus Supremo das Lindas Cultivadoras Voluptuosas.
Este era um romance bem quente que ele havia lido no passado, apesar de ter um péssimo arco final.
Naquela novel, o protagonista encontrava um anel e descobria a alma de uma antiga imortal. Ela se tornava sua mestra.
Mas o desenrolar da história era bem parecido com aquela situação entre Bai Suxian e Yechen.
Aquele protagonista em questão era um homem de muita cultura.
Kael sorriu, completamente pronto para finalizar aquele cara de batata com aquela jogada. Mas manteve a calma.
Havia a possibilidade de suas palavras não se encaixarem e ele ser descoberto, mas não estava realmente muito preocupado com isso.
O Reverendo era fraco, e sua mestra era apenas uma alma remanescente sem corpo. O problema real era que Kael gostou bastante dela para deixá-la cair nos braços desse protagonista clichê.
Fora isso, também era melhor cortar as pernas desse Yechen.
Após um minuto de silêncio ponderativo, cheio de profundidade, ele tornou a falar, mas, dessa vez, ninguém o interrompeu.
— A irmã Bai quer reconstruir seu corpo divino, certo?
A Divina Imortal concordou sem pensar muito. Era algo óbvio.
— E se eu te disser que seu discípulo planeja possuí-la?
Bai Suxian estreitou o cenho, mas continuou ouvindo em silêncio. Kael, por outro lado, riu internamente.
— Veja, este Soberano já assistiu a situações semelhantes ocorrerem em vários mundos mortais.
— Divindades caídas treinam um suposto mortal. Se o mestre é uma mulher, o discípulo cria um plano e convence a mestra a fazer cultivo duplo, fingindo estar em uma situação de quase morte…
Percebendo a expressão no rosto dela se distorcer levemente, seu sorriso se intensificou.
— Quando é um homem, o discípulo misteriosamente cai em uma situação de perigo de vida, e o mestre, em sua bondade infinita, sacrifica sua alma divina para fortalecer esse discípulo, que promete vingá-lo e, muitas vezes, nem se lembra mais dessa promessa.
Bai Suxian o interrompeu por impulso, diante da gravidade do que ouviu.
— O que você quer dizer com isso? — questionou ela, apertando levemente os punhos.
Kael assistiu à sua reação com um olhar vitorioso, notando que suas palavras começavam a surtir o efeito esperado.
— Resumindo — ele continuou. — Quando uma estrela cai do céu, outra deve ocupar o seu lugar, e geralmente o destino nunca escolhe a mesma estrela, mas usa a caída para levantar uma nova e mais brilhante, levando-a ainda mais alto do que a anterior alcançou.
Fez uma breve pausa dramática.
— Você entendeu, minha linda irmã Bai? Sei que entendeu, pois deve ter notado uma certa peculiaridade…
Deixou escapar uma risada.
— Uma sorte milagrosa, um caráter aos seus olhos inquestionável, ainda que por dentro seja diferente.
— Fora isso, por algum motivo, tudo sempre funciona para o bem dele, seu discípulo.
— É como se ele soubesse exatamente onde pisar no longo rio chamado destino ou, melhor, como se caminhasse por ele em passos largos sem afundar…
Kael fez mais uma pausa, dessa vez para recuperar o fôlego, mas logo continuou.
— Não acha estranho que ele pareça ter cada passo calculado e até os perigos de vida pacientemente resolvidos pelo mesmo? — questionou em tom irônico. — Coisas que até você consideraria complicadas para os maiores gênios dos inúmeros mundos mortais?
Por algum motivo, todas aquelas palavras pareceram atingir Bai Suxian profundamente.
Ela, que compreendia o Dao do Destino, sentiu como se uma porta se abrisse diante de si após ouvi-las.
— Então é isso… — murmurou. — O segredo dos escolhidos pelos céus…
A Divina Imortal pareceu tão absorta repentinamente que nem notava o olhar apavorado de seu discípulo, que recuava lentamente, à espreita.
Kael não pareceu ligar para seu murmúrio, nem mesmo para as tentativas de Yechen.
Agora que havia chegado ao clímax daquele roteiro, estava determinado a finalizá-lo com chave de ouro.
Com isso em mente, em vez de jogar ainda mais lenha onde já estava pegando fogo, decidiu finalizar com gasolina.
Nesse meio-tempo, o Reverendo tentou interromper novamente, apenas para ser repreendido por sua mestra, furiosa por tê-la tirado daquele transe divino.
E agora, por conta disso, o encarou com um olhar estreito.
Aqueles belos olhos azuis pareciam tentar enxergar seu interior.
Diante disso, Yechen parecia cada vez mais nervoso, sem entender como aquele cara estava acertando sutilmente tanto sobre várias de suas atitudes ao longo de sua trajetória desde que renasceu naquele mundo, até mesmo certos planos de longo prazo que havia elaborado.
Nem sua verdadeira face, que sempre manteve escondida, passou despercebida. Aquilo não fazia sentido.
Para ele, isso só seria possível se os dois fossem do mesmo tipo.
Yechen não se lembrava da existência de alguém tão roubado quanto aquele Soberano.
“Ele seria, por acaso, semelhante a mim?”, perguntava-se seriamente em pensamento.
Nesse momento, Kael finalizou.
— Bem, irmãzinha Bai, esse é o plano dele — disse com um tom sério. — Seu discípulo planeja usá-la em cultivo duplo para ascender mais rápido à divindade e, depois, vai torná-la uma de suas inúmeras mulheres.
— O interessante é que você nem notaria que tudo foi arquitetado por ele — zombou. — E, depois disso, é inevitável que esse inseto decida invadir os Nove Mundos Divinos para se vingar deste Soberano…
Kael lambeu os lábios levemente, apreciando o sabor de efetuar um xeque-mate.
— Apesar disso, este Magnífico acha bem interessante a tentativa de vingança dele… algo bem divertido de ver, você não acha?
— Bem, então deu para compreender o que seu discípulo pensa sobre sua grande mestra, Bai Suxian?