Uma Estrela Cai (2)
Uma Estrela Cai (2)
Sem dizer uma única palavra, a Divina Imortal virou o rosto de relance, encarando seu discípulo.
— Isso que ele diz, Yechen… — sua voz surgiu trêmula. — Por acaso, em algum momento, isso passou por sua cabeça?
Seus olhos azuis eram como lupas, tentando encontrar no discípulo, que era como um filho para ela, algo que lhe permitisse negar todas as palavras que aquele seu antigo conhecido havia expressado.
Os anos que Bai Suxian viveu foram muitos, mas foi apenas nesses mais de mil anos desde que conheceu seu discípulo que ela experimentou um pouco do calor que os mortais afortunados encontram em uma família.
Ela não fechou seu coração para Yechen; seu carinho por ele não era pequeno.
Era exatamente por isso que doía tanto em sua alma a possibilidade de ele não ser quem ela sempre enxergou e amou, como uma mãe ama sua criança.
Um sentimento de amargura começava a surgir em meio à sua alma.
Bai Suxian estava com medo, tristeza e ansiedade — sentimentos que desconhecia em toda a sua jornada no Reino Divino.
Mesmo quando seu corpo foi destruído, não havia se sentido como agora.
Era algo novo e, por isso, ainda mais doloroso: saber que aquele de quem ela se dispôs a cuidar com tanto carinho poderia ter tais planos perversos.
Claramente, Yechen negou veementemente.
— Mestra… Como você pode desconfiar de mim? — disse, controlando suas funções biológicas para fazer lágrimas escorrerem por seu rosto. — Você não vê que essa pessoa está tentando virá-la contra mim, seu primeiro e único discípulo?
Sua voz tremeu, quase falhando.
— Será que… o carinho e a devoção que dediquei a você, mestra, não são prova o bastante do quanto a respeito… do quanto me importo…?
Ele baixou a cabeça, enquanto as lágrimas pareciam incessantes, caindo de uma altura de milhares de metros e sendo levadas pelo forte vento que percorria o ambiente.
Yechen falou tudo com grande convicção, exibindo uma profunda tristeza no rosto, mas, por dentro, estava completamente perplexo.
“Como esse maldito Soberano conseguiu isso?”
Respirou fundo, tentando manter a calma.
“Como pode citar meus planos em meio às porcarias que cospe?”
Pensava ele, sentindo-se involuntariamente impressionado com a outra parte.
“Mas ele não acertou em tudo. Eu não pretendo fazer mal à mestra Suxian, ainda que ela tenha essa maldita cabeça de vento inútil. Só pretendo fazê-la ser completamente obediente.”
Seus lábios quase formaram um sorriso, mas ele se conteve.
“Ser uma mulher que não se atreva a me contrariar ou muito menos tenha a ousadia de me encarar olho no olho.”
Lambeu sutilmente os lábios.
“Alguém decente, que apenas aceite tudo o que faço, completamente calada. Exatamente como toda mulher sensata deveria ser.”
Seu olhar se tornou frio ao observá-la de relance.
Ele estava num limite perigoso.
Sua mestra não aparentava ter sido afetada por sua apelação emocional. Diferentemente do passado, aquilo não parecia convencê-la.
“Droga! Que tipo de lavagem cerebral esse desgraçado de Soberano fez apenas cuspindo merda?”
Respirou fundo.
“Essa maldita mulher não consegue simplesmente entender que é apenas por um bem maior?”, pensou, seriamente.
“Eu devo ficar mais forte com a ajuda dela”, refletiu, sentindo-se injustiçado. “O que há de errado nisso? Não é o que um mestre deveria fazer por seu amado discípulo?”
“Além disso, que homem, além de mim, é digno dela? Já não é um grande feito aceitá-la apesar do cérebro?”
Kael admirou a cena silenciosamente.
Não havia palavras entre aqueles dois, apenas um pesado e tenso silêncio.
O olhar da Imortal Bai para seu discípulo era frio e investigativo. Era como se tentasse lê-lo como um livro.
Ela parecia querer abrir a capa do livro chamado Yechen e ler folha a folha para ter certeza.
Essa foi a sensação que Kael teve ao observar aqueles belos olhos azuis.
Diante disso, o sorriso satisfeito em seus lábios só se tornava mais evidente. Ele vinha jogando lenha constantemente nessa fogueira de casos de família.
Porém, agora acreditava ter chegado a hora de finalizar isso, lançando, para o grande final, gasolina para que tudo explodisse de uma vez por todas.
Tendo isso em mente, fitou Yechen cuidadosamente, tentando entendê-lo.
“Esse seu olhar de protagonista astuto e safado não passa despercebido diante deste Soberano, pequeno Reverendo, hehe.”
Por um momento, recordou-se de inúmeras cenas clichês das webnovels que revelavam os pensamentos internos dos protagonistas.
Aqueles caras, em sua maioria, eram cópias uns dos outros. Principalmente em obras de cultivo Xuanhuan ou Xianxia.
Possuíam, por sua vez, uma personalidade possessiva e narcisista, acreditando plenamente que, fosse mestra, discípula júnior ou sênior, todas deveriam estar à disposição para abrir as pernas diante deles.
Ainda tinham a convicção de que era por uma boa causa e que eram os únicos dignos dessas belezas, por isso o roteiro tentava convencer o leitor de que tudo havia acontecido naturalmente.
Bem, ele mesmo não era hipócrita. Esses protagonistas, ainda que fossem o acúmulo de tudo que não presta, no fim tinham uma vida invejável.
Qual homem não quer ter uma beleza em cada braço? Mas Kael ainda tinha seus próprios princípios, pois acreditava que um relacionamento só poderia existir se os dois lados estivessem dispostos.
Esse tipo de coisa, sendo forçada, era, por sua vez, detestável para ele.
Após algum tempo ponderando e deduzindo quais seriam os possíveis pensamentos desses sujeitos caso fossem expostos, teve uma ideia.
Provavelmente erraria a maior parte dessa próxima jogada, mas não importava. A parte mais difícil já estava feita e, se não desse certo, improvisaria outra coisa.
Terminando seu raciocínio, fez sua voz descer sobre aquele mundo em miniatura mais uma vez.
— Olhe bem para ele, irmã Bai — disse com um tom de seriedade. — Seus pensamentos de agora mesmo são coisas do tipo: Como ele sabe disso? Quem, além de mim, é digno da mestra?
Cessou a fala por um breve momento, apreciando a reação abismada do Reverendo Radiante.
“Hehe… parece que acertei em cheio por sorte”, refletiu, antes de continuar a performance.
— Seu discípulo também está pensando coisas ainda mais egoístas, típicas dos mortais — zombou. — Ele diz, em mente, que é para um bem maior que deve ficar mais forte com sua ajuda.
Kael não foi específico, pois as próximas falas eram a jogada-chave.
— Também pensa coisas como: O que há de errado nisso? Não é simplesmente o que uma mestra deveria fazer por seu amado discípulo?
Bai Suxian tremeu.
Ela não queria acreditar naquilo. Nada disso deveria fazer sentido, mas notou as mudanças no rosto de seu discípulo.
Percebeu o quanto aquele garoto se esforçava para esconder suas intenções sempre que aquele seu conhecido dizia algo que alegava ser um pensamento de Yechen.
Durante esse meio tempo, ela vinha tentando fazer a leitura do Destino de seu discípulo, porém, como sempre, não chegava a um resultado convincente.
Era um destino turbulento e imprevisível.
Bai Suxian, mesmo conhecendo as profundezas do Dao do Destino , simplesmente se sentia como uma simples mortal em um barco à deriva, em meio a uma terrível tempestade, tentando deduzir de qual lado viria a próxima onda.
Essa incerteza sobre Yechen, que antes havia deixado de lado por acreditar que ele era como um filho para ela, havia retornado com muita força.
Engolia em seco a angústia que a tomava.
“Será que você só quis me usar desde sempre?”, perguntou consigo mesma. “Eu ser sua mestra realmente não tinha sentido para você, Yechen?”
A Divina Imortal mordeu os lábios.
“Seus planos realmente eram se aproveitar da minha essência divina e aumentar sua força?”
“Eu não quero acreditar nisso, pequeno Chen…”, pensou ela, com um aperto na alma. “Mas por que seu olhar já o acusa tanto antes mesmo de dizer algo para se defender?”
Kael notou que era o momento ideal para finalizar com uma última sentença, e sua jogada final estaria feita.
A voz dele ecoou mais uma vez, fazendo a Divina Imortal tremer dos pés à cabeça.
— Você sabe bem disso, minha irmã Bai — completou ele. — Sabe que tipo de ajuda esse verme espera receber de você…
Fez uma pausa estratégica, pois era mais um xeque-mate.
— Certamente — disse Kael secamente. — Entrar entre as suas pernas com seu minúsculo membro endurecido para ser um parasita é o maior desejo de vida desse inseto.
Ele bufou com desdém.
— Divina Imortal da Pureza Radiante… é um bom título, mas acredito que minha irmã Bai terá que retirar “Pureza” deste título honorífico!
Sua voz tornou-se fria.
— Cair nas mãos dessa corja desonra qualquer um — concluiu com um tom áspero.
Diante disso, a respiração de Yechen já estava ofegante, e seu corpo tremia de medo com tudo o que ouvia.
Não era medo da morte, nem mesmo de sua mestra descobrir seus planos. Isso ele poderia resolver, ainda que fosse à força. Porém, o pavor que sentia e o assustava profundamente era estar completamente exposto diante daquele sujeito.
Qualquer coisa que o maldito Soberano cuspia acabava acertando sutilmente, como se fosse friamente calculada para arruiná-lo.
Yechen rangeu os dentes.
“Esse desgraçado deve ser do mesmo tipo que eu… Se não for assim, não faz sentido.”
Seus olhos se estreitaram.
“Deve ser por esse motivo que está mirando em Bai Suxian”, refletiu, entendendo as possíveis motivações da outra parte.
Mesmo se esforçando para manter a calma, havia algo que fazia ele quase cuspir sangue de tanta raiva. Era a mera possibilidade de a outra parte de fato poder ler sua mente.
Essa era uma habilidade que ele detestava quando era possuída por alguém além dele mesmo
Yechen recordou o que aquele Dragão Imortal falou anteriormente. Foi exatamente sobre isso.
“Que desgraça de azar repentino é esse que me alcançou? Essa maldita merda teve que ocorrer logo antes mesmo de eu alcançar o Reino de Verdadeiro Imortal.”
“Isso complica em muito os meus próximos passos. Que maldição!”
Suspirei lentamente.
“Certo, não vou tirar conclusões precipitadas. Primeiro devo ouvir mais o que aquele cara tem a dizer; só assim terei certeza sobre essa leitura de mente.”
Decidiu em silêncio.
“Espero que minha mestra sem cérebro não fique perspicaz repentinamente, fazendo loucuras que compliquem ainda mais minha vida.”
Seus olhos brilharam com confiança em si mesmo.
“O máximo que posso fazer por agora é ganhar tempo, continuando a negar as especulações daquele cara e deixando ela dividida entre o que ele fala e o que eu, seu querido discípulo, digo.”
Observando seu discípulo, que parecia pensativo, Bai Suxian o encarou, estreitando ainda mais os olhos.
Então, um suave, porém pesado, suspiro ecoou de seus lábios.
Ela estivera tentando suportar esses sentimentos turbulentos, aos quais não estava acostumada.
Seus punhos estavam cerrados, e sua face demonstrava uma mistura de raiva e decepção extrema.
Era possível ver um brilho em seus olhos, como se segurasse as lágrimas, enquanto sua essência divina ameaçava escapar por eles diante da amargura em sua alma.
— Jure, Yechen, pelo Grande Dao… — a voz dela cortou o silêncio friamente. — Jure agora e prove que você nunca planejou tais abominações contra mim, sua mestra, que fui como uma mãe para você!
A voz dela carregava um pesar profundo. Ela queria acreditar que aquilo tudo não era verdade, que de fato esse antigo conhecido estivesse mentindo, como seu discípulo afirmava.
Essa era a chance dele provar isso para ela. Provar que não estivera enganada sobre o doce menino que amou profundamente como sua única família.
Diante das palavras dela, Yechen se sentiu encurralado. Seu corpo inteiro tremeu.
Ele suava frio, sem saber o que responder. Não passou pela sua cabeça que sua mestra, que era tão certinha, usaria esse golpe baixo.
“Maldita… Só bastava ficar calada e acreditar em mim, seu discípulo. Porra, é algo tão simples.”
Seus lábios se abriram, porém não se moveram.
“Maldição! Se realmente jurar pelo Grande Dao, é certo que seria feito em cinzas no mesmo segundo.”
Seus olhos seguiam de um canto a outro enquanto tentava pensar em uma saída.
“Vamos, Yechen, pensa em algo logo ou é certo que sairá perdendo”, pensou consigo mesmo.
Ele refletiu profundamente em busca de uma saída para aquela situação, mas parecia perdido.
Se fosse só sobre Bai Suxian, ele conseguiria mudar os pensamentos dela com sua lábia, mas, como o maldito Soberano estava por perto, estava sem escapatória.
Ele levou uma mão ao rosto e riu amargamente. Não se importou mais em esconder sua face; não fazia mais sentido.
Decidiu tentar outra abordagem.
O sorriso amargo desapareceu de seu rosto quando mordeu os lábios com força suficiente para feri-los, mesmo possuindo o físico de um Imortal Dourado.
— É para o seu bem, mestra… — um murmúrio escapou. — Para o nosso bem… Como eu poderia deixar você livre para ser levada por outro qualquer?
Breve silêncio. Em seguida, sua voz se elevou quando seus olhos se fixaram nos da Divina Imortal.
— Quem além de mim é digno de você? Me diga, mestra! — gritou ele.
Bai Suxian pareceu levar um choque elétrico diante daquele grito repentino e narcisista.
Naquele momento, foi como se toda a muralha que ela levantara para tentar acreditar nele desmoronasse.
— Haha…
Uma risada trêmula e baixa lhe escapou entre os lábios.
— Sim… então esse é o verdadeiro Yechen… Entendo… — murmurou, abatida.