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Lágrima Divina

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Lágrima Divina

Uma lágrima de brilho dourado e cristalino escorreu dos olhos da Divina Imortal Bai. Percorreu lentamente seu belo rosto antes de cair em direção ao oceano, a milhares de metros abaixo.

As bestas marinhas pareciam sentir o perigo iminente, fugindo a toda velocidade daquele lugar.

Aquela lágrima finalmente atingiu o mar após alguns segundos em queda livre, sendo carregada pela força do vento. No instante em que tocou a água, houve um resplandecer, e um brilho dourado percorreu o local.

Em seguida, dezenas de milhares de carcaças marinhas flutuavam sem vida nas águas abaixo.

Tudo causado por uma pequena porção de sua essência divina, que escorria na forma de lágrimas — algo letal para seres abaixo do reino de um Imortal comum.

O silêncio tomou o ambiente. Nem ela falou mais nada, nem Yechen.

Bai Suxian apenas o encarava com frieza e pesar, enquanto as lágrimas continuavam a escorrer incessantemente de seus olhos.

Naquele momento, um jovem bonito, vestindo uma túnica preta, com chifres projetados na testa e uma cauda negra, observava tudo em silêncio.

Feng Li assistia a todo aquele desfecho desde o início e, na sua opinião, aquilo era muito interessante. Porém, o que mais o impressionava era a eloquência de seu Soberano.

Por isso, fez o possível para não interromper seu Mestre enquanto ele falava com aquela divindade caída, conduzindo-a à inevitável verdade.

Por várias vezes, Feng Li quis partir aquele inimigo irritante em pedaços quando o sujeito interrompia seu Soberano, aproveitando-se da fraqueza atual dele, mas conteve-se. Fez isso por respeito a seu mestre e também àquela alma divina que havia sido terrivelmente enganada pelo verme Radiante.

“Tch! Eu não esperava menos daquele vermezinho maldito.”

Pensou ele, dando com a língua nos dentes.

“Sempre desconfiei dessas caras e bocas típicas dos humanos desprezíveis, cheios de hipocrisia a cada duas palavras que cospem.”

Refletiu, esboçando um sorriso.

A humanidade não era uma raça agradável aos seus olhos.

Quase cem por cento das inúmeras Bestas Sapientes do Mundo Imortal pensavam da mesma forma. Aos olhos delas, aquela era uma raça problemática, sempre iniciando guerras pelas razões mais banais.

Além disso, os humanos tinham uma longa história de perseguição contra muitas bestas do Mundo Imortal, com a intenção de usar seus núcleos internos, ossos, carne e outras partes para fabricar elixires, armas, pílulas e poções variadas.

Para Feng Li, eles eram como uma praga a ser exterminada. Não que se importasse tanto com isso. Ser poderoso era o que o movia e, ainda que precisasse se voltar contra a própria raça, não recuaria.

O sorriso se tornou ainda mais evidente no canto de seus lábios.

“Só mesmo alguém irrepreensível como meu mestre para expor à luz toda aquela falsidade.”

Riu baixinho, divertindo-se com o sofrimento de seu grande inimigo. Aquilo era simplesmente prazeroso demais para ele.

Fora da Caixa, Kael ampliou a imagem até aproximá-la do rosto da Divina Imortal.

Não resistiu e deixou o ar escapar lentamente entre os lábios diante do que via.

Até então, havia atuado apenas com base no conhecimento que tinha dos romances.

Seguiu seu instinto de leitor especialista em clichês, principalmente de webnovels xuanhuan, cujos autores, pelo menos em sua maioria, seguiam padrões semelhantes ao criar os protagonistas de suas histórias.

Kael entendia que ter um mundo em miniatura dentro de uma caixa já era, por si só, um absurdo digno de uma novel.

Ainda assim, sabia que aquilo era um mundo real.

Até ali, havia atuado e se divertido enquanto tentava desvendar o mistério daquele suposto protagonista, mas isso não mudava o fato de tudo não passar de uma encenação de sua parte.

Porém, por incrível que parecesse, havia acertado em cheio sobre aquele cara, Yechen.

Tinha suas próprias suspeitas, mas as chances de estar errado eram maiores do que as de estar certo.

Ainda assim, acertou de forma terrivelmente cirúrgica sobre as intenções daquele tumor malicioso.

Isso lhe gerava uma sensação estranha de realização e frustração ao mesmo tempo.

Afinal, aquilo era, de fato, o velho clichê da mestra que, após refazer seu corpo, futuramente seria usada como elixir sexual pelo próprio discípulo quando ele caísse misteriosamente em uma situação de vida ou morte.

Depois, ela se tornaria apenas mais uma no harém do protagonista. Alguém que o autor acabaria esquecendo e nem se preocuparia em desenvolver como personagem. Diante disso, sem muita escolha, o leitor simplesmente aceitava, ainda que com raiva, e seguia em frente.

Era uma situação bastante frequente no gigantesco universo das webnovels.

Todavia, não era como se Kael não invejasse esses protagonistas que conseguiam poder, riqueza e belas mulheres com tanta facilidade.

Na verdade, era justamente por invejar tudo isso, em seu íntimo, que havia passado a detestar esses romances previsíveis.

Afinal, quem não desejaria ser podre de rico enquanto tinha uma mulher perdidamente apaixonada por ele em cada braço?

Kael era alguém que admitia querer isso sem nem sequer corar.

Um sem-vergonha, de fato.

Por um momento, esse mesmo Kael de pensamentos duvidosos permaneceu apenas observando aquela bela mulher chorar silenciosamente enquanto encarava o próprio discípulo com frieza.

“Eu acho que deveria estar feliz, já que cheguei ao resultado desejado e consegui livrá-la dele”, pensou ele. “Mas vê-la chorar de forma tão quieta e solitária meio que parte meu coração…”

Ele balançou a cabeça, esboçando um sutil sorriso descontraído.

“Estou pensando demais. Ela é apenas bonita, deve ser por isso que me incomoda. Nós, homens, somos fracos diante de mulheres com certo nível de beleza.”

Suspirou silenciosamente.

“Certa vez, meu falecido pai me disse para tomar muito cuidado, pois certas mulheres eram perigosas exatamente por serem bonitas.”

Kael recordou aquelas palavras de sabedoria que guardou em seu íntimo.

Mais uma vez, balançou a cabeça. Dessa vez em compreensão, deixando aquela melancolia repentina se esvair.

Mas deduziu que não precisava se preocupar tanto com isso, pois era solteiro. Para seu pai, aquilo era perigoso por conta de sua mãe.

Jogando aqueles pensamentos para longe, decidiu quebrar o silêncio e terminar logo com aquilo.

— Então, irmã Bai — disse ele —, acredita neste Soberano agora?

Ela não respondeu diretamente. Seu olhar tornou-se cortante ao se voltar para o discípulo.

Finalmente, suas lágrimas cessaram, e ela pareceu recuperar a compostura.

— A relação entre nós acabou! — disse secamente. — Eu, Bai Suxian, Divina Imortal da Pureza Radiante, juro pelo Grande Dao que, a partir de hoje, não tenho nenhuma relação amigável com Yechen, um cachorro que morde a mão de quem o alimenta!

— Pensei que você fosse alguma coisa… — ela completou. — Mas, de fato… Haha… não passa de um lixo querendo ter o que está além de seu alcance!

Assim que suas palavras terminaram, duas enormes correntes translúcidas surgiram do nada, estendendo-se do vazio em direção aos dois.

Uma se enrolou ao redor de Yechen; a outra, ao redor de Bai Suxian.

O Dao que regia tudo era testemunha daquele juramento, e a consequência de quebrá-lo era a morte eterna.

Nem mesmo aqueles que haviam alcançado a divindade teriam coragem de confrontar a autoridade do Grande Dao.

Apesar de tudo aquilo ter acontecido de forma tão chamativa, Kael não viu nenhuma das correntes gigantes.

Até se perguntava por que o cara Yechen estava fazendo tanto drama por nada. Começava a ter algumas dúvidas sobre a sanidade do sujeito.

Diante disso, apenas deduziu que aquele juramento em nome do Grande Dao devia ser algo muito importante.

Acreditava que fosse semelhante a estar sob custódia da Polícia Federal, mas com direito ao corredor da morte caso tirasse a tornozeleira eletrônica.

Pelo menos era assim que imaginava o desfecho.

“Provavelmente é algo que cause a morte de quem o quebre, certo? Será que é realmente confiável?”, perguntou-se. “Não vi nenhum efeito especial acontecer para confirmar minhas boas suposições.”

Enquanto refletia sobre aquilo, lembrou-se de que seu mascote havia feito um juramento semelhante pouco tempo atrás.

A lembrança fez o coração de Kael esquentar um pouco. Seu pequeno Feng Li era muito filial, e isso o deixava feliz por tê-lo resgatado daquele mundo perigoso cheio de caras brilhantes.

Fitando seu mascote, sua voz ecoou sem rodeios.

— Pegue o anel de armazenamento dele, Feng Li.

Sem demora, seu dragão em forma humanoide surgiu diante do Reverendo Radiante.

Yechen, por outro lado, após usar aquela técnica mística, estava fraco e debilitado demais para resistir.

Mordendo os lábios e percebendo que não tinha muita escolha, entregou o anel na mão de Feng Li enquanto rangia os dentes, completamente puto.

Porém, não acabou simplesmente aí, como imaginava.

Kael ordenou que seu mascote o revistasse minuciosamente, afirmando que sujeitos ardilosos, devoradores de mães casadas, mestras e possivelmente até a própria família eram muito desonestos e não tinham qualquer escrúpulo moral.

Feng Li guardou internamente aquela sabedoria de seu Soberano a respeito desse tipo de verme.

Mesmo diante da resistência do Reverendo, após revistá-lo cuidadosamente, encontrou mais dois anéis.

Um estava escondido em sua roupa íntima e o outro…

Lembrando-se do alerta de seu mestre para ser ainda mais cuidadoso durante a busca, o dragão acabou encontrando o último anel em certo orifício fedido.

E, obviamente, seu mestre ordenou veementemente que não se esquecesse de limpá-lo muito bem, eliminando qualquer vestígio de impureza fecal.

Feng Li seguiu todas as orientações sem reclamar. Pelo contrário, estava gostando da sensação de humilhar tão minuciosamente aquele sujeito detestável.

Enquanto isso, Kael mantinha um sorriso forçado no rosto, assistindo ao desenrolar da situação com certa estranheza no olhar.

Ele apenas havia sugerido que seu mascote fosse dedicado no trabalho de busca e apreensão. Não imaginava que o dragão em forma humana colocaria o Reverendo naquela posição indescritível e meteria a mão ali de forma tão intensa e violenta, fazendo aquele pobre diabo arregalar os olhos.

E o mais assustador era que ele realmente havia encontrado alguma coisa escondida naquela profundidade estreita.

“Droga… Só de pensar que o cara colocou um anel no próprio brioco… Que loucura de sagacidade!”

Para Kael, aquilo por si só demonstrava a garra daquele sujeito, ainda que de uma forma meio duvidosa. Mas não tinha preconceitos a respeito dos gostos pessoais da outra parte.

Sentindo-se terrivelmente humilhado, Yechen jurou se vingar tanto do suposto Soberano quanto de sua antiga mestra, chamando-a de traidora imunda, vadia, mula sem cérebro e muitos outros adjetivos ofensivos que não vale a pena narrar.

Chegou até a dizer que ela o havia traído por querer abrir as pernas para o Soberano dos Nove Céus, movida por pura ganância.

Diante disso, Bai Suxian apenas assistiu a tudo aquilo em silêncio.

Suas emoções já pareciam ter se acalmado, mas seu olhar ainda demonstrava decepção, tristeza e certo nojo.

Agora, finalmente enxergava o discípulo por trás da máscara.

“Como fui tão tola por acreditar em você, Yechen… Que coração podre você tem!”

Naquele momento, lambendo sutilmente os lábios, Feng Li perguntou se poderia matar o Reverendo de uma vez por todas. Suas mãos já estavam coçando para fazer aquilo.

Kael, porém, permaneceu em silêncio por alguns instantes, pensando a respeito.

“Os protagonistas sempre têm muita sorte por causa do roteiro nos romances… Não sei se aqui é a mesma coisa, mas provavelmente seja assim”, refletiu.

“Digamos que ele morra, mas a alma dele caia em algum mundo dos mortos e depois volte todo-poderoso… Sim, isso é muito possível.”

Pensava naquilo com certa convicção.

“Também pode acontecer de, próximo da morte, ele despertar alguma linhagem mística ou sistema de trapaça, certo?”

Diante dos próprios pensamentos, Kael começou a sentir que aquele sujeito era mais perigoso morto do que vivo.

E, vivo, talvez fosse até mais proveitoso a longo prazo.

“Se eu deixá-lo vivo, vai continuar tendo seus encontros de sorte e reunindo tesouros… Não posso simplesmente encontrá-lo e pegar tudo dele depois?”

Seus olhos o encararam brevemente com um brilho sutil.

“Sendo assim, por que não tornar ele meu caçador de tesouros de plantão? Assim, pegarei suas oportunidades e terei uma vida mais fácil.”

Ele não pretendia ser bondoso com aquele Yechen, mas também não curtia muito a ideia de matá-lo.

Primeiro, porque isso poderia ser perigoso a longo prazo. Afinal, por mais que atuasse como Soberano, ainda era, na verdade, apenas um jovem comum com pouco tempo de vida restante.

Mesmo que a outra parte fosse minúscula a ponto de Kael sentir que matá-la seria semelhante a esmagar uma formiguinha, e o próprio indivíduo provavelmente merecesse morrer inúmeras vezes, aquilo ainda deixaria um gosto amargo em sua boca.

Além disso, pela sua experiência como leitor, matar possíveis protagonistas resultava em um terrível azar.

O miserável sempre sobrevivia.

Mesmo morto, acabava voltando de algum jeito, então não havia por que tentar a sorte.

Deixá-lo vivo, juntando tesouros para que Kael pudesse roubá-los — ou melhor, confiscá-los como forma de pagamento do seguro de vida do sujeito por prazo indeterminado —, parecia a melhor escolha.

Essa era sua filosofia: deixe ir enquanto verde e colha quando maduro.

Simplesmente um descarado.

Então, já decidido sobre o que faria, sua voz ecoou novamente naquele pequeno mundo.

— Por consideração a esta antiga conhecida minha — disse ele —, que já foi mestra deste traste irreverente, este Digníssimo será magnânimo por hoje.

Sua mão se moveu em direção a Yechen, que já tinha dificuldade para se manter voando sobre o oceano por conta da supressão exercida por aquela gigantesca mão dourada.

— Suporte este peteleco, pequeno verme!

Um estrondo ecoou, e o espaço rachou quando Kael moveu levemente o dedo com a intenção de acertá-lo.

Yechen arregalou os olhos, mas já era tarde.

Com o impacto aterrorizante, seu corpo saiu voando, ultrapassando a velocidade da luz e deixando para trás apenas uma névoa de sangue.

Kael ampliou a imagem e o observou cortar o céu como um rastro de fogo em direção ao norte, incapaz de parar.

Assistiu àquilo por alguns segundos e, após confirmar que o cara ainda estava vivo, mesmo quase morto, sentiu-se mais relaxado.

Então, seus olhos se voltaram para Bai Suxian, que carregava no rosto uma expressão de desamparo e derrota.

Essa era uma pessoa com quem Kael precisava tomar cuidado, ou seu disfarce poderia ser revelado.

Perguntava-se o que faria a partir dali.

Seu desejo inicial era apenas dar uma lição em quem havia batido em seu mascote. Porém, depois de entender o desenrolar da situação, fez o possível para evitar aquele maldito clichê xianxia do cultivo duplo com a mestra divina.

No fim, acabou descobrindo que o protagonista era, de fato, do mesmo tipo daqueles de que se lembrava: um narcisista egocêntrico.

Então, meio que sem perceber, acabou salvando aquela pobre alma de um destino pior que a morte.