LNCrawler

Peças Soltas

O Mundo Na Caixa — illusia.com.br · All chapters

Peças Soltas

Observando aquela bela mulher meio morta e meio viva, os neurônios de Kael trabalharam a mil por cento.

Essa Bai Suxian conhecia um tal Soberano dos Nove Céus que, por coincidência, possuía o mesmo título que ele escolheu por puro capricho, apenas porque precisava de um nome fodão.

“Bem… isso é inegável.”

Ele coçou a cabeça, imerso em pensamentos profundos.

“Devo admitir que esse cara tem bom gosto. Esse título é imponente e dominador, mas ainda me frustra ser o mesmo que o meu. Parece que o plagiei na cara dura…”

Deixou escapar um suspiro de frustração.

“Não importa mais. Agora é tarde demais para eu mudar de título.”

Seu cenho se estreitou.

Aquele sujeito chamado Kael não era o tipo de pessoa que brincava em serviço. Chegava a ser admirável.

Seu orgulho não lhe permitia fazer de qualquer jeito algo tão grandioso.

“Se meu destino é seguir essa carreira de atuação itinerante”, refletiu seriamente, “minha performance deve ser impecável e irrepreensível.”

O título que a Divina Imortal expôs tinha uma distinção evidente daquele que ele inventou enquanto falava sobre seu reino fictício de poder absoluto para seu adorável mascote.

Foi justamente isso que desencadeou aquela pequena e gostosa confusão, pois, no fundo, Kael havia adorado a imponência daquela nomenclatura.

Lembrava-se de que foi Feng Li quem inicialmente passou a chamá-lo de Soberano dos Nove Céus.

E, por gostar de como o nome soava grandioso, simplesmente aceitou em silêncio como se já fosse seu.

Enquanto ele ainda estava imerso em seus pensamentos, a Divina Imortal Bai sondou a imensa mão que repousava sobre o mundo em miniatura.

Seus olhos, que eram como ágatas azuis perfeitamente polidas, brilhavam em meio à dúvida ainda presente em seu rosto.

“Ele realmente deve ter alcançado o topo do cultivo divino que ninguém jamais alcançou depois dos quatro Senhores Soberanos.”

Ela se recordava bem daquele lendário patamar.

Entre os Nove Mundos Divinos, contava-se a história do início de todas as coisas, de um período em que os deuses Daônicos e os deuses Caóticos existentes podiam ser contados nos dedos de uma única mão.

Tanto o Grande Dao quanto o Grande Caos ainda estavam estabelecendo seus respectivos domínios divinos.

Pelo que se sabia, esses dois Supremos, manifestações dos princípios do Dao e do Caos, criaram, cada qual, dois servos diretos.

O reino de poder dessas quatro existências estava pouco abaixo daquele de seus próprios criadores. Por isso, foram nomeados Senhores Soberanos Daônicos e Senhores Soberanos Caóticos.

Ainda que fossem mais fracos que seus mestres, podiam ignorar boa parte das leis do Grande Dao e do Grande Caos. No entanto, existia uma amarra profundamente enraizada em suas próprias existências que os impedia de se rebelarem.

E foi a partir desses quatro que se originaram os Seis Mundos Divinos Caóticos, chamados atualmente de Divinos Demoníacos, e os Nove Mundos Divinos, chamados anteriormente de Daônicos.

Foi também nesse período que surgiram as existências que viriam a ser conhecidas como deuses.

Posteriormente, junto a essas existências recém-nascidas, eles criaram os inúmeros mundos que compõem o gigantesco Cosmo Eterno.

Tudo isso ocorreu em uma época inimaginavelmente distante, dezenas de milhares de trilhões de séculos atrás.

As pupilas de Bai Suxian se contraíram. Ela não tinha real certeza sobre aquela pessoa.

“Pensar que ele pode simplesmente ignorar as leis do Grande Dao”, refletiu ela, “fazendo o que quisesse neste mundo dos mortais…”

Seus olhos encaravam a mão dourada e, em alguns momentos, desviavam-se em direção ao que havia além dos céus, de onde aquele braço colossal se estendia.

“Isso, por si só, é difícil de entender e aceitar.”

Ela mordeu levemente os lábios.

“Eu observei sua existência naqueles anos por tempo suficiente, e ele não parecia nada demais…”, refletiu a Divina Imortal. “De onde surgiu tal capacidade atual?”

Seu olhar se voltou para o dragão em forma humanoide, a poucos metros dali.

Na verdade, havia sido Bai Suxian quem convenceu Yechen a deixá-lo vivo quando ainda era uma serpente no Reino das Sete Transformações.

A linhagem dracônica escondida no sangue daquela serpente criaria uma camada de proteção sobre seu ex-discípulo, ajudando-o a suportar a Tribulação Celestial quando avançasse para o Reino do Verdadeiro Imortal.

Como a técnica Destino Radiante, com a qual cultivava, pertencia ao mais alto nível Daônico Divino, a pressão sobre cada avanço era centenas de vezes maior do que a de qualquer técnica comum.

Como uma boa mestra, ela já havia pensado em uma maneira de garantir o avanço de Yechen sem sérios contratempos.

Aquela linhagem, ainda que quase insignificante em quantidade, poderia ser usada como meio de defesa em momentos como esse.

Mas, como se fosse uma brincadeira do Destino que talvez apenas em seu auge pudesse ter vislumbrado, aquela serpente acabou por tornar-se o mascote de seu antigo conhecido antes mesmo de alcançar o despertar da linhagem.

Ainda assim, havia uma estranheza que a incomodava: ele não era nenhum apóstolo que pudesse servir de elo entre um ser divino e aquele Mundo Imortal.

Esse era um dos motivos que a fazia refletir sobre a verdadeira capacidade do seu conhecido. Todavia, ainda era difícil esconder sua surpresa ao recordar o passado e constatar o quanto ele parecia diferente agora.

Quanto mais ela pensava sobre aquilo, mais um sorriso amargo se esboçava em seu rosto.

“E eu que te chamei de pirralho covarde por fugir da guerra…”

Ela deixou escapar uma risada seca.

“No fim, caí junto a outras centenas de milhões de divindades, enquanto você, que fugiu, se fortaleceu e agora governa tudo… Será que essa é mesmo toda a verdade?”

Balançou lentamente a cabeça.

“Mas será que não? Se sim, foi como você disse…”

“São os sobreviventes que escrevem a história e seu desfecho a seu bel-prazer.”

Pensava naquilo com certa dor em seu próprio orgulho.

“Enquanto eu, mesmo após perder tudo, ainda estava sendo enganada por quem tratei com carinho, como um filho… você, por outro lado…”

Bai Suxian cerrou os punhos.

“Parece que meu erro foi me tornar cega e confiar demais em minha visão”, pensava. “Quando o Dao do Destino era como meus próprios olhos, a Divina Imortal da Pureza Radiante era chamada de A Inigualável, mas agora…”

Suspirou lentamente. Então, decidida, sua voz soou suave, porém audível o suficiente:

— O que você pretende fazer, Kamiel? — perguntou. — Vai escravizar minha alma divina e usá-la para forjar um artefato místico?

Sua voz cessou brevemente.

— Ou será, Kamiel, que talvez planeje me devorar para obter toda a minha compreensão do Dao do Destino?

Ao ouvir suas palavras, Kael encarou a pequena alma dentro da caixa com certa perplexidade.

“Quem diabos é Kamiel?”

Ele colocou uma mão contra o próprio peito, sentindo as batidas aceleradas do coração enquanto respirava fundo para se acalmar.

“Porra… Vai assustar o cão, mulher! Quase tive um troço achando que tinha chamado o meu verdadeiro nome.”

Seu cenho se franziu.

“Bem, não importa. É bom que tenha me dado novas informações, ou eu poderia perder minha fachada por falta de profundidade.”

“Vamos apenas manter o personagem de forma decente.”

Esboçou um sorriso brincalhão.

“De toda forma, ela é bem pessimista, hein? Já pensando no pior… Ou será que, de fato, estou certo e ela sempre esteve atuando?”

“Isso é começo de depressão ou apenas uma talentosa performance?”

Seu olhar se tornou penetrante.

“Mas eu particularmente gosto desse mistério sutil, cheio de peças soltas. Vamos apenas seguir o fluxo, como sempre.”

Já decidido sobre seus próximos passos, Kael tornou a responder:

— Oh, minha querida Bai, faz tempo que não ouço alguém me chamar por esse nome… — Colocou levemente uma mão no queixo, fazendo pose. — Mas não pense demais. Sou bem magnânimo.

Kael fez uma breve pausa dramática para recarregar seu prestígio e então continuou:

— Que tal isso?

— Submeta-se a mim — disse ele. — Jure pelo Grande Dao que nunca será minha inimiga nem tentará forjar algum plano contra mim ou contra tudo o que me pertence, independentemente dos motivos…

Sua voz cessou brevemente.

— O que acha, pequena Bai?

Kael a encarou em silêncio ao finalizar suas palavras.

Ele mentiria se dissesse que não tinha medo de que aquela mulher absurdamente bonita, de longos cabelos loiros e olhos azuis, fugisse da caixa e chegasse ao seu quarto de alguma forma.

Ainda que não considerasse tão ruim morrer pelas mãos de uma beleza mortal como Bai Suxian, ele preferia tê-la em seus braços, cheia de paixão verdadeira.

Um safado confuso.

Tinha aquele sutil medo escondido por trás de um sorriso, expresso em pensamentos compreensíveis e questionáveis, porque não sabia se, em seu auge, a Divina Imortal superaria a força da caixa-artefato ou se, mesmo agora, sendo apenas uma alma divina, teria alguma grande carta escondida.

Era alguém que gostava de jogar no fácil. Ainda que a vida não fosse uma simples dança, ele dançava descaradamente em busca de facilidade.

Por isso, usando aquelas informações incompletas, decidiu confiar em seu instinto de leitor rasga-toba de autor, considerando todos os possíveis cenários de obras Xianxia ou Xuanhuan.

Era melhor criar alguma maneira de impedir que Bai Suxian pudesse se virar contra ele.

Naquele mesmo momento, enquanto Kael refletia sobre as verdades em que apenas ele acreditava, Feng Li piscou algumas vezes ao ouvir a conversa dos dois.

Imediatamente, retirou o que parecia ser um pergaminho de seu anel de armazenamento pessoal.

O nome do livro que escrevia era: Crônicas do Supremo Deus dos Nove Céus.

Nota de Feng Li: Hoje foi um dia de descobertas extraordinárias, devo admitir. Primeiro, o divino medicamento Merthiolate Cicatricure — como detalhado anteriormente para todos os futuros leitores destas Crônicas divinas —, que me curou por completo e me fez tatear um pouco o Dao da Regeneração.

Além dessa boa notícia, meu Soberano encontrou uma antiga conhecida pertencente a um dos Nove Mundos superiores: uma deusa caída da Era Perdida. O título dela: Divina Imortal da Pureza Radiante. Bem, imponente e gracioso, digno de alguém de grande status, mas muito atrás do título do meu grandioso Mestre.

Pelo que entendi, a Era Perdida não foi algo isolado apenas ao nosso Mundo Imortal. Talvez tenha, de fato, havido uma grande guerra entre os inúmeros mundos e os grandes Mundos Divinos onde os deuses habitam e, claro, o meu Mestre inevitavelmente foi o vencedor final.

Nota especial: Descobri o nome de meu inestimável Soberano, mas não me atrevo a escrevê-lo aqui, ou vou condenar todos os leitores futuros.

Digo isso por conhecer certo mistério do qual não tenho certeza. Os nomes dos Divinos são associados ao Dao que dominam, de acordo com os conhecimentos que desvendei durante meus sete mil anos de vida.

Eu, Feng Li, até corro o risco iminente de acabar morrendo ao escrevê-lo, considerando o que sei sobre sua origem.

Não quero arriscar.

Nota de satisfação: Uma felicidade é que o Reverendo Radiante, aquele verme maldito merecedor de tudo o que não presta e muito mais, que tem sido uma peste durante minha pobre vida de serpente, foi completamente esmagado e até teve seus planos malignos frustrados por meu Soberano.

Isso ocorreu depois de usar a técnica mística Fuga de Sangue Divino, fazendo-o perder dois grandes reinos de seu cultivo. Para mim, isso é uma deliciosa satisfação.