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A Tristeza do Narrador

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A Tristeza do Narrador

Enquanto Yechen se preparava para enfrentar o Soberano dos Nove Céus e destruir seus inexistentes elos de ligação, aquele sujeito irreverente, por outro lado, sorria ao se preparar para sua próxima performance, na qual teria que interagir com seu novo empreendimento.

Sim, ele ia tomar posse da Seita Dao Infinito, como se tivesse um facão em mãos e um sonho por terras alheias.

Um ladrão decente, de fato.

Aqueles olhos curiosos e insaciáveis observavam o interior da caixa, e ele até aproveitou para dar uma olhada melhor na seita.

Apesar de estar muito destruída, ainda mantinha sua antiga grandeza. Era uma vasta propriedade, estendendo-se por várias centenas de quilômetros.

Em seu interior, viviam entre vinte e trinta mil discípulos, dos quais, além de feridos, muitos pareciam magros e desnutridos.

Aquilo feriu profundamente o coração de Kael. Ele suspirou com grande pesar.

“Meus pobres subordinados…”

Cerrou os punhos.

“Não se preocupem, pois este Soberano lhes dará um novo futuro…”, refletiu, decidido.

Em seguida, pegou seu Merthiolate, que já estava sobre a bancada.

Estava pronto para entrar em seu personagem.

Todavia, uma pessoa chamou sua atenção. Pelo que escutou dos anciões, seu nome era Xiu Ying, a Mestra da Seita.

“Que incrível…” Suas pupilas se contraíram. “Por que, nesse mundo, as cultivadoras são tão sobrenaturais? Será que cultivar também vai me deixar mais bonito?”

Aquela Mestra da Seita fez o coração masculino de Kael estremecer levemente.

Seus longos cabelos brancos, aqueles olhos de cor violeta, aquelas curvas… sim, coisa de outro mundo.

Para tirar suas dúvidas, ampliou a imagem que mostrava alguns dos discípulos masculinos.

Apesar de haver alguns quase tão bonitos quanto ele — pelo menos em sua opinião —, muitos eram apenas comuns, enquanto outros eram bem feios.

Por algum motivo, quase cem por cento das mulheres pareciam ter uma beleza entre seis e dez pontos.

Aquilo, por si só, já era surpreendente e aqueceu ainda mais seu coração quando notou que elas não usavam maquiagem.

Prestando atenção nos anciões — tanto nos seis que estavam com a Mestra da Seita quanto nos outros que se moviam pela propriedade ajudando os discípulos —, notou que, apesar das barbas grandes e brancas esconderem boa parte de seus rostos, os homens mais velhos pareciam ter uma aparência acima da média.

Já as mulheres entre os mais velhos… nem se tinha o que falar.

Eram um colírio para os olhos, realmente coroas enxutas. Ele mesmo não tinha preconceito com a idade das mulheres.

Havia um ditado que Kael assinava embaixo: é na panela velha que se faz comida boa!

Um homem de cultura.

“Eu entendi tudo… com certeza não são produtos Ivone que minha mãe usava para se embelezar para o meu pai…”

Estreitou os olhos.

“Acho que essa boniteza tem a ver tanto com o talento quanto com as técnicas de cultivo, assim como nos romances… Será a tal da energia Yin?”

Ele balançou a cabeça, sentindo que finalmente havia compreendido aquele mistério profundo.

“Pensando bem, depois devo tirar algumas fotos para fazer uma pesquisa mais minuciosa…”

Refletiu, resistindo à vontade de pegar o celular, que havia colocado para carregar.

“Bem, deixe isso de lado. Preciso me apresentar à seita e ver o que consigo de bom.”

“Hoje, com certeza, iniciarei minha jornada de cultivo e saberei se poderei ser curado do câncer.”

O ar escapou levemente de seus lábios enquanto seu olhar se tornava sério.

“Amanhã devo encontrar minha tia Ashley e, até lá, devo pensar em uma história de fundo para lidar com o couro de Feng Li.”

Havia se passado quatro horas desde que começou a interagir com o mundo em miniatura naquele dia.

Assistiu ao seu mascote ser espancado até ficar meio morto, roubou a mestra do protagonista, ou melhor, salvou-a sem segundas intenções aparentes, pois era magnânimo.

Além disso, jogou o mesmo protagonista preguiçoso para trabalhar, salvando assim uma pobre alma da vida de vagabundagem.

Diante de tudo aquilo, Kael sentia que estava na hora de focar no que realmente importava.

Agora, com sua atenção novamente voltada para o interior da caixa, foi logo falar com seu dragão e com a Divina Imortal Bai.

Com sua mente, mudou as configurações da caixa para que apenas os dois pudessem ouvir sua voz naquele momento.

— Feng Li e minha irmã Bai — disse ele —, este Soberano passará a interagir com este mundo por meio da Seita Dao Infinito. Portanto, farei de vocês membros dela.

Sua voz surgiu aos ouvidos dos dois, fazendo-os fitar os céus.

— Este humilde servo… mascote só existe para obedecer — respondeu Feng Li, curvando-se com as mãos unidas em forma de concha.

Já Bai Suxian manteve-se em silêncio por um breve momento, mas logo concordou, em troca de poder conversar com ele em particular quando Kael tivesse tempo.

Apesar de ele temer o motivo daquela conversa misteriosa, como já estava trilhando aquela vida de ator itinerante como Soberano dos Nove Céus, decidiu manter o papel enquanto tudo continuasse indo bem.

Se houvesse algum contratempo, improvisaria até fazer sentido para a cabecinha dela ou até ela se cansar de tentar entender.

Ninguém vence um homem paciente. Este era um dos seus lemas de vida.

Sim, de uma vida curta.

De qualquer forma, depois que a Divina Imortal fez aquele juramento em nome do Grande Dao, sentia que Bai Suxian estava fadada a ser submissa a ele, sem poder se tornar sua inimiga durante toda a sua vida.

Aquele Grande Dao era misterioso, mas, como Kael era um ávido conhecedor de romances diversos, havia concluído que deveria ser alguma Consciência Divina que mantinha tudo em ordem, ou um ser extremamente poderoso que criou todo o universo do cultivo… ou talvez algo semelhante às leis da física de seu mundo, apesar de não ter certeza.

Sinceramente, não ligava muito para o que quer que fosse. Se aquilo lhe fosse útil para manter aquela linda e perigosa deusa loira de olhos azuis mansa com ele, já era bom o suficiente.

Terminando sua conversa com os dois, voltou sua atenção para a imponente montanha no centro da Seita Dao Infinito.

Naquele lugar, havia uma bela cultivadora de longos cabelos brancos lisos e sedosos, encarando o céu com um olhar cheio de expectativa.

“Está na hora de este Soberano conhecer minha bela Xiu Ying, hehe.”

No alto do Monte da Iluminação, chamado assim desde que o fundador da seita, Laozu, ascendeu ao Reino do Verdadeiro Imortal, Xiu Ying aguardava em silêncio.

Como atual Mestra da Seita e discípula de seu antigo fundador, esperava pacientemente pela manifestação da divindade que havia salvado a seita de seu destino de ruína.

De repente, um brilho dourado rompeu o azul do céu, e uma mão imensa desceu em sua direção.

Ela engoliu em seco, assustada, mas respirou fundo, prostrou-se de joelhos e encostou a testa no chão da encosta da montanha em reverência.

— Esta pequena Xiu Ying saúda a grande divindade que teve compaixão de nós, meros mortais!

Sua voz soou alta e firme.

Ela não ousou demonstrar o medo em suas palavras, para não desagradar o deus que os havia salvado.

Kael ampliou a imagem e assistiu à cena com admiração.

Ao recordar sua primeira interação com seu mascote, não pôde deixar de balançar a cabeça em decepção.

“Tch! Veja isso…”

“Que vergonha, Feng Li”, refletiu. “Essa linda cultivadora nem sequer deixa a voz tremer ao se apresentar diante desse Digníssimo, enquanto aquele projeto de dragão já parecia disposto a entregar o próprio couro de serpente naquele mesmo dia…”

Seu olhar tornou-se solene por pena de seu mascote. Sentia que talvez ele tivesse sofrido bullying das outras serpentes valentonas quando jovem e, por isso, desenvolvido uma personalidade tão frágil e retraída.

Suspirou em compreensão.

“Confesso que Feng Li é humilde e comportado, mas sinto que falta uma verdadeira ferocidade em seu caráter… Realmente não se fazem dragões como antigamente… O coitado foi abalado muito jovem.”

“O que eu devo fazer por ele?”

Tornou a apoiar o queixo na mão, pensativo sobre como deveria ensinar seu mascote para que não ficasse estragado e mimado.

Kael não tinha experiência nessa área de cuidado com animais. Todavia, era muito sério a respeito disso.

Para ele, seu dragão deveria ser um exemplo de imponência e dignidade draconiana para não envergonhá-lo futuramente.

O problema era que sentia dificuldade em guiá-lo pelo caminho correto, e os traumas do coitado eram uma grande barreira.

De repente, seus olhos brilharam.

“É isso… Feng Li precisa de uma esposa feroz… Assim, sua personalidade será corrigida.”

Essa era uma ideia brilhante, pelo menos para ele.

Mas, antes de colocar esse grande projeto casamenteiro em prática, Kael percebeu que havia algo ainda mais importante para se resolver.

Finalmente entendeu o que havia levado seu dragão a escolher se tornar uma lagartixa preta com asas. Foi o complexo de inferioridade gerado por anos sofrendo bullying.

Todavia, antes de arrumar uma esposa para seu mascote, era necessário trazê-lo de volta ao seu caminho natural.

O problema era que não sabia como faria isso, porém decidiu deixar essa missão anotada em seu bloco de notas, pois era importantíssima.

Enquanto se perdia em pensamentos inúteis, que considerava grandiosos a respeito de um certo coitado, a bela Xiu Ying, por outro lado, era forçada a aguardar ansiosamente pela resposta daquele sujeito inconsistente, ainda prostrada no chão frio e duro.

Notando seu erro, Kael rapidamente se recompôs e, sem respondê-la diretamente, baixou sua mão até ficar a dezenas de metros acima da montanha.

Ser narrador desse sujeito…

Naquele ponto, a Seita Dao Infinito já estava em completo silêncio, encarando aquela mão colossal que, anteriormente, havia movido uma arma divina, exterminando milhares de demônios e reduzindo-os a mera fumaça.

Todos, desde o discípulo mais comum até os seis grandes anciões, suavam frio.

Nem mesmo os discípulos feridos ousavam fazer o mínimo barulho.

O medo de que aquela mão esmagasse sua seita e toda a cordilheira de montanhas ao redor os dominava.