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Um Contraste de Honestidade

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Um Contraste de Honestidade

Kael nem sequer parecia perceber a comoção que havia causado abaixo. Para ele, os membros da seita eram minúsculos demais para serem notados sem que ampliasse a imagem da caixa.

E, naquele momento, seu foco era a bela mulher de cabelos brancos e olhos de cor violeta.

Com sua mente, mudou as configurações da caixa para que apenas ela ouvisse sua voz.

Só então resolveu falar.

Antes, porém, tentou suavizar o tom da própria voz, tomando cuidado para não assustá-la.

— Minha pequena Xiu Ying — disse ele —, este Soberano decidiu escolher você e sua seita para fazer parte de meus futuros planos.

Fez uma breve pausa para tornar o momento o mais solene possível, mas não contava que a garota o encararia com um olhar tão penetrante e responderia logo em seguida.

— Meu Soberano…

A voz dela falhou brevemente antes de continuar com firmeza.

— Eu, Xiu Ying, e toda a Seita Dao Infinito estamos dispostos a pertencer a Vossa Grandeza, ainda que o mundo se vire contra nós!

Seus olhos demonstravam seriedade.

— Por isso, em nome do Grande Dao, já me entreguei para ser sua, tanto eu quanto minha Seita…

Por um momento, cessou a fala. Respirou fundo.

— Só peço que, em sua misericórdia, caso alguns dos discípulos ou anciões desejem partir, Vossa Grandeza permita que eles deixem a Seita…

Ela fez esse pedido, embora sentisse que era um absurdo depois de receber tamanha dádiva. Porém, como líder, ainda tinha o dever de cuidar e respeitar a escolha dos demais, ainda que não coincidisse com a dela.

Kael pareceu surpreso com a fala dela. Já esperava uma demonstração de submissão depois de sua grandiosa performance ao matar aqueles mosquitos roxos, mas, ainda assim, sentiu que aquela entrega e devoção tinham sido rápidas demais.

Por alguns segundos, desconfiou, mas balançou a cabeça, discordando da ideia de ser uma possível trama contra ele.

Os olhos da garota eram muito sinceros e fizeram seus pensamentos correrem por um momento. Recordou-se do velhinho na feira dos ladrões disfarçados. Naquele lugar sem escrúpulos, aquele ancião era a única pessoa decente.

Trocou a caixa por sua foto mais estimada, porém, ainda assim, a devolveu em sua casa.

Kael não se irritou com o fato de, mais tarde, aquele senhor ter entrado lá sem que sequer notasse. Se a caixa-artefato era tão misteriosa e continha um mundo em miniatura, aquele velho parecia ser ainda mais misterioso.

O que um jovem comum e bonito com o pé na cova poderia fazer para se defender daquele senhor se ele desejasse lhe fazer mal? Sua bela aparência não o salvaria.

Todavia, não era o caso, pois era um velhinho admirável, quase tão decente quanto ele.

Voltando seus olhos para a bela Mestra da Seita, que era, de fato, o que importava naquele momento, o sujeito esboçou um sorriso sugestivo.

O que era preocupante.

“Hehe. Se entregou para ser minha? Ela é tão ousada e direta…”

Seu olhar demonstrou uma peculiar tristeza.

“Que pena que é tão minúscula ou eu poderia levar isso muito a sério… mas será que não posso?”

Kael suspirou, decepcionado com sua situação.

Tantas cultivadoras bonitas à sua volta. Era um sonho clichê que não poderia viver por conta das dificuldades.

Era aterrador saber que, mesmo sendo apenas um solteirão com um pé na cova, nem sequer podia aproveitar um pouco daquela sorte genuína.

Sua mente trabalhou rapidamente em busca de soluções para esse terrível problema e se recordou da pele de Feng Li, que, ao sair daquele mundo em miniatura, cresceu misteriosamente até ficar semelhante ao couro de uma anaconda gigante.

Sentiu que, provavelmente, com pessoas ou animais como seu mascote, poderia acontecer algo semelhante.

Ainda assim, tinha medo de acabar morrendo apenas por causa de sua inocente curiosidade sem segundas intenções.

Pensou até em um possível cenário aterrorizante em que seu fofo dragão se esquecesse do bom coração do próprio mestre ao sair para a Terra e, após crescer até ficar do tamanho de um grande prédio, se rebelasse por causa da diferença entre os dois, devorando-o por instinto.

Era uma situação triste e perigosíssima para um homem de princípios pacifistas como ele.

Já as belezuras do cultivo provavelmente poderiam esmagá-lo facilmente se saíssem dali.

Ainda que não fosse um grande mal morrer nas mãos de tais belezas, acreditava, sem dúvida alguma, que seria muito melhor tê-las em seus braços, tomadas por uma verdadeira e inegável paixão.

Todo esse seu raciocínio duvidoso nasceu após deduzir, por experiência própria, que só parecia poderoso para os habitantes daquele mundo por conta da absurda diferença de tamanho entre eles.

“Não, deve haver uma maneira. Como posso ser impedido de usufruir de uma vida tão boa? Isso é terrível!”

Seu olhar demonstrou determinação inabalável.

“Sim, eu devo lutar pelos meus direitos como proprietário desse mundo de oportunidades.”

O ar escapou lentamente entre seus lábios.

“Depois terei uma conversa séria com a caixa-artefato para resolver esse contratempo.”

Ele teve a sensação de ouvir um bufado. Parecia ter vindo de sua grande amiga, a caixa-artefato, mas decidiu deixar isso de lado por enquanto.

“Bem, não vamos pensar muito sobre isso. Tenho um pressentimento de que minha vida amorosa logo será abençoada.”

Colocando a mão que estava do lado de fora no queixo, encarou solenemente a garota abaixo.

“Sinto isso no fundo de minha alma…”

Pareceu refletir profundamente sobre uma certeza moralmente questionável.

“Sim, é um fato inegável”, pensou ele, convicto. “Não existe neste Brasil uma única alma viva mais honesta do que eu! É normal que eu seja abençoado.”

Ele fitou a garota com curiosidade.

“O olhar dela é sincero o bastante e, além disso, fiz seus grandes inimigos virarem fogos de artifício… É natural que seja assim.”

Sua expressão, carregada pela suspeita de uma possível trama, suavizou-se.

“Diante desses fatos, faz muito sentido essa submissão a mim. Sim, seria estranho se não fosse dessa maneira.”

Após finalmente encontrar uma resposta para as próprias suspeitas, deixou de lado aquela desconfiança.

Tentou soar gentil ao falar com a garota, por isso mexeu nas configurações da caixa para suavizar sua voz sem perder a imponência necessária para a performance.

Um grande cavalheiro, transbordante de honestidade, esse cara, segundo ele mesmo, é claro.

Sem mais demora, a voz de Kael ecoou, semelhante ao som de muitas águas, diferente do habitual estrondo de trovão.

— Levante-se, minha querida Xiu Ying. Suba na palma do seu Soberano. Deixe-me vê-la de perto.

Ao ouvir essas palavras, ela ergueu o rosto e, após respirar fundo, levantou-se.

Em seguida, flutuou até pousar na imensa palma dourada daquele que a havia salvado.

Xiu Ying sentia uma forte supressão apenas por entrar em contato com aquela mão, mas não parecia haver nela qualquer intenção de lhe fazer mal.

Após ter jurado em nome do Grande Dao, sentia seu destino completamente ligado ao desse deus.

Agora, aquele ser era seu mestre, seu dono por toda a eternidade, e ela estava disposta a servi-lo.

Não era tolice para ela, mas sim gratidão.

Tantos anos de opressão sem poder revidar, tantas mortes de discípulos e anciões.

Dos duzentos anciões, juntando os da seita externa e interna, só restavam vinte e cinco ao todo.

Já os discípulos… Do antigo milhão, restavam pouco mais de vinte mil sobreviventes.

A pressão que ela carregava era algo que poucos entenderiam.

Durante trezentos anos, aqueles que se diziam aliados haviam virado as costas para ela e sua Seita.

Os quatro impérios do Continente Imortal não foram uma surpresa, afinal, não tinham obrigação alguma de ajudá-los.

Porém, duas dentre as grandes Seitas eram como unha e carne com sua Seita Dao Infinito e, mesmo após a morte de seu mestre, continuaram apoiando-os com o que podiam.

Todavia, por algum motivo que ainda desconhecia, decidiram ignorá-los e deixá-los à própria sorte, simplesmente assim, condenados a morrer nas mãos dos demônios…

Aquele ser havia feito diferente de todos eles e isso era mais que o suficiente para ela.

Sim, ela sabia que eram simples e fracos aos seus olhos. Nem sequer tinham como retribuir tamanha bondade.

Por quatrocentos anos, Xiu Ying teve de assistir a centenas de milhares de seus queridos discípulos morrerem, um após o outro.

Todos acreditavam nela; haviam confiado suas vidas aos seus cuidados.

Em seu coração, ela já não sabia quanto mais deveria suportar até que finalmente pudesse descansar, pudesse respirar longe daquele sofrimento constante e ter um pouco de paz.

Esse tinha sido seu maior anseio ao longo de mais de três séculos de pressão constante.

Ser fraco naquele mundo era um terrível pecado.

Mesmo sendo a Mestra da Seita, seu cultivo estava apenas no Reino das Sete Transformações, e ela nada podia fazer além de tentar oferecer alguma esperança àqueles que ainda permaneciam ao seu redor, ainda que ela mesma já não tivesse esperança alguma.

Mas agora era diferente. Um novo começo. Ela acreditava nisso do fundo de seu ser.

Xiu Ying havia se sentido por muito tempo completamente sobrecarregada. Completamente exausta.

Todas as noites, sua alma gemia em agonia, e suas lágrimas já haviam formado até uma pequena poça em sua caverna de meditação.

Sua vida havia se tornado apenas isso: uma existência completamente solitária, incapaz de suportar os olhares daqueles ao seu redor.

Se não fosse pela matriz de defesa e pela matriz de ataque que seu mestre havia deixado, capazes de resistir às investidas de um Imortal Dourado de nível inicial e até mesmo feri-lo gravemente por certo preço, eles não teriam durado nem um ano.

Todavia, os recursos de sua Seita foram sendo esgotados para manter aquelas duas matrizes.

Após duzentos anos, tiveram de abrir mão de uma delas para continuarem vivos.

Restou-lhes escolher apenas a matriz de defesa, mas até ela havia chegado recentemente ao seu limite.

Se não fosse pelo sonho que teve dez anos atrás, no qual aquela divindade salvava sua Seita, talvez já tivesse entrado em colapso e sofrido um desvio de Ki, podendo até mesmo morrer.

Quem experimentava o desespero sabia o valor de uma mão amiga. Para Xiu Ying, ainda que o preço fosse tudo, sentia que não seria o suficiente para retribuir.

Contudo, ainda assim, sabia que nem todos estariam tão dispostos quanto ela e, por isso, como líder, mesmo com pouca força, deveria se posicionar e dar o exemplo.