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Jogo a Dois (1)

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Jogo a Dois (1)

Repousando na palma de um certo Soberano, Xiu Ying levantou o rosto para encarar o céu, enquanto, sem que percebesse, lágrimas escorriam de seus olhos.

Caíam incessantemente sobre aquela imensa palma.

Ela levou uma das mãos ao rosto e o tocou brevemente, confusa, antes de observar seus dedos molhados.

“Isso… Por que, do nada, eu estou…? Isso nunca aconteceu.”

Ela não conseguia se controlar, mesmo tentando manter a postura habitual de Mestra da Seita diante de seu povo.

Xiu Ying sempre foi firme. Nunca expôs a própria aflição diante de ninguém, mas agora era como se finalmente tivesse encontrado sua rocha de sustentação, um lugar onde sua alma pudesse repousar em paz.

Toda aquela estrutura em seu interior desabou e, como uma menina que finalmente encontrou refúgio, chorou como nunca antes.

Em meio a isso, seus joelhos se dobraram enquanto encarava o enorme braço dourado que subia para além do azul do céu.

— Obrigada…

Seus lábios se moveram, quase inaudíveis, e sua voz falhou brevemente.

— Meu Senhor… sou grata! — Sua fala saía com dificuldade.

Por meio das lágrimas, sentia como se todo aquele peso, a culpa e a amargura em sua alma, sim, tudo aquilo, fossem aos poucos lavados para fora.

E nem compreendia bem o porquê daquela fragilidade que ainda não conhecia em si mesma, pelo menos não diante dos olhos de outras pessoas.

Kael observava com curiosidade, tentando entender aquela cena.

Sentiu-se sortudo por ser um homem cheio de integridade e preparo antecipado, que havia feito o necessário para evitar contratempos.

As configurações de áudio da caixa estavam ligadas, com o foco apenas na garota sobre sua mão, desconsiderando todos os demais sons do ambiente.

Apesar de sua voz não passar de murmúrios em meio a constantes soluços, Kael ouviu tudo plenamente.

Mas, notando que ela ainda tinha algo a falar, aguardou em silêncio.

Xiu Ying mordeu levemente os lábios, respirou fundo e, em seguida, deixou o ar escapar lentamente.

Finalmente conseguiu continuar.

— Por me salvar, por nos salvar… Eu sempre serei grata… sempre serei leal! — declarou ela com um olhar determinado.

Kael ficou impressionado diante de tudo aquilo. Era tão profundo e emocionante que o pegou de surpresa.

Ele engoliu em seco, ainda tentando compreender aquele mistério.

A bela mulher chorava e, pela expressão em seu rosto, parecia que suas lágrimas não cessariam tão cedo.

Seu cenho se franziu antes de ele suspirar pesadamente.

Teve que admitir: aquilo foi um grande golpe contra seu coração masculino.

“Será que ela está tentando me conquistar com essas lágrimas…? Seria esse seu plano para fortalecer nossa relação inicial entre patrão e subordinada?”

Recordou-se de uma série em que a novata usava apelo emocional para se aproximar do chefe.

Funcionou e, no fim, depois de lidar com uma fura-olho, a mulher se casou com o CEO. Mas foi aí que a série ficou interessante, pois ele pertencia a uma família mafiosa disfarçada, cheia de tretas.

“O cara foi sequestrado, e a dramática teve que assumir tudo. Diante disso, seu caráter foi forjado em guerras, pólvora e sangue, na luta incessante para salvar seu amado.”

“Sim, uma verdadeira Maria Bonita ao resgate do seu Lampião.”

Refletiu ele, desconfiado.

“Se for exatamente isso que Xiu Ying pretende alcançar…”

“Hum… admito que ela está de parabéns pela performance, pois está conseguindo.”

Sorriu, passando a língua entre os lábios.

“Bem, vamos seguir o fluxo para onde ela está me guiando, pois estou gostando do desfecho.”

Após um breve silêncio, finalmente resolveu respondê-la.

— Não chore, minha pequena — disse com certa sutileza. — Você é muito mais linda sorrindo.

Por um curto momento, não sabia o que deveria falar a seguir. Não era seu forte consolar os outros, muito menos uma bela mulher.

Sua mente se voltou para sua interpretação de Soberano.

Compreendeu que não fazia sentido ficar tão rígido na atuação. O patamar desse papel lhe permitia agir sem precisar se limitar ao comum. Era só deixar fluir, que tudo seria filtrado por seu status incomparável e inexistente.

Um suspiro pesado ecoou vindo dos céus.

— Se não fosse por você ainda ser uma mortal — continuou — este Soberano cogitaria fazer de você agora mesmo uma das minhas mulheres para consolá-la pessoalmente em meus braços…

Pausa dramática de três segundos.

— Mas quem sabe em outra oportunidade. Sim, de fato. Então, não fique triste. Esse Digníssimo, no futuro, vai encontrar uma solução que não a machuque.

— Acredite!

Kael disse essas palavras com firmeza e pomposidade, sem dar muita importância ao que estava dizendo. Afinal, na concepção dele, um Soberano que governava o Reino Divino certamente não poderia ter apenas uma mulher.

Isso seria praticamente uma perda de prestígio.

Fora esse fato indiscutível, já estava decidido a conquistar aquela Mestra da Seita e, como ela também queria conquistá-lo, poderia jogar esse jogo a dois.

Se alguém curioso o bastante perguntasse o motivo dessa sua decisão tão objetiva, Kael diria que era simplesmente porque sim e que o curioso cuidasse da própria vida.

Afinal, não se discute o caráter e a integridade de um homem nobre como ele.

Todavia, era inegável que um verdadeiro afeto por aquela garota estava crescendo dentro de seu imenso coração.

Simplesmente, um sem-vergonha.