Jogo a Dois (2)
Jogo a Dois (2)
Diante daquelas palavras duvidosas e questionáveis, a pobre Xiu Ying, que limpava os olhos, fitou o céu, desnorteada com o que ouvia.
“O Soberano é um pouco diferente do que eu imaginava que seriam os seres divinos…”
Refletiu com certa curiosidade no olhar.
“Pensei que estariam distantes dos desejos comuns dos mortais, já que todos que seguem o cultivo são assim… mas…”
Seus olhos piscaram brevemente, enquanto um sorriso suave surgia em seus lábios.
“Eu meio que não desgosto disso. Por que será?”
Limpando as lágrimas e respirando fundo para se acalmar, finalmente conseguiu cessar o choro.
“Ele disse que me acha bonita quando sorrio… Nunca imaginei ouvir tal coisa depois de centenas de anos.”
Xiu Ying, sem perceber, enrolou lentamente uma mecha de seu belo cabelo entre os dedos de uma das mãos.
“Então, como seria isso…? Eu devo sorrir mais?”
“E sobre as coisas que falou?”
Ela se perdeu em pensamentos, tentando compreender tudo aquilo.
“Esse ser divino realmente considerou fazer de mim uma de suas mulheres?”
Ela, que estava ajoelhada, inclinou o corpo para trás, esticando as pernas e se deitou inconscientemente.
Sempre fazia isso em sua caverna de meditação quando entrava em reflexão sobre determinados assuntos complexos.
“Nunca me imaginei em tal situação… Por que sinto meu coração esquentar por dentro?”
Estava curiosa sobre aquela sensação em seu peito, mas meio que gostava daquilo. Era algo estranho, mas não era ruim.
“Seria assim que aquelas mortais distantes deste caminho de cultivo se sentem quando encontram um possível parceiro?”
A realidade para os cultivadores era distinta da dos mortais comuns. Tais relações carnais ou envolvimentos emocionais íntimos eram considerados um atraso para essa longa e desgastante jornada.
Muitas seitas tratavam esse tipo de envolvimento entre homem e mulher como um tabu.
Isso só era diferente para os cultivadores de vertentes não ortodoxas que utilizavam o cultivo duplo. Uma prática dependente de um ou mais companheiros do mesmo reino, muito malvista por conta da devassidão daqueles que a seguiam.
Fora isso, a diferença de talento acabava estagnando muitos deles antes que pudessem alcançar um nível realmente digno de nota.
Mas não era um homem qualquer que falava com Xiu Ying, para que ela sentisse repulsa ou até mesmo se sentisse ofendida com aquela proposta.
Não, esse era um deus que habitava no Reino Divino.
Para alguém como ela, que sempre desejou alcançar o topo do cultivo, o divino era algo inimaginável, e sabia que aquela era uma grande oportunidade em sua vida.
Afinal, alcançar tal patamar por si só? Acreditava ser impossível com o seu talento. Ainda que tivesse sido tratada como um gênio, ela sabia bem que não era tudo isso, nem chegava perto.
Mas havia algo. Sim, no fundo, ansiava por ter alguém perto o bastante com quem não precisasse ser forte o tempo todo, alguém que a aceitasse apenas como Xiu Ying.
Diante desses desejos que passava a descobrir em si mesma pela primeira vez, estava disposta a quebrar as regras ou viver aquele tabu sem pensar tanto quanto no passado.
Não importava mais o que os outros achavam, nem o que diriam. Nada disso fazia mais sentido.
“Mas… parece que eu ser uma mortal é um problema…”, pensou Xiu Ying, um pouco decepcionada.
Kael nem sequer imaginava o impacto que suas palavras, ditas de forma tão descarada e sem-vergonha, haviam causado naquela pobre Mestra da Seita, que já o havia colocado como sua rocha de sustentação por toda a vida.
Ele estava acendendo dentro dela um fogo mortal que deveria ter sido apagado há muito tempo, após seus longos anos de cultivo.
Enquanto a garota se perdia em pensamentos, Kael, na verdade, tinha deixado o Merthiolate de lado e pegado seu celular, agora gravando-a com a outra mão.
Estava realmente admirado com a forma como aquela linda mulher já estava agindo como uma recém-casada em sua noite de núpcias, deitando-se tão confortavelmente em sua mão.
“Aaah… que tristeza profunda e amarga em minha alma.”
Sua face se distorceu em profundo pesar.
“Isso é injusto”, pensava ele, indignado. “Meu pobre coração se sente solitário e insiste em querer amar essas beldades… são tantas, mas Xiu Ying é especial…”
Deixou escapar um suspiro pesaroso.
“Não, Kael, você deve focar em se curar primeiro. Resista a essa deliciosa tentação e não caia nessas brincadeiras gostosas por agora.”
Seu olhar se estreitou em puro foco.
“Você deve ser mais forte que isso!”
Disse a si mesmo em pensamento, tentando se convencer.
“Bem, mas é certo que dar uma olhadinha não vai arrancar um pedaço de ninguém.”
Focando no rosto dela, percebeu aquela sutil decepção em seus belos olhos cor de violeta.
“Hum… veja isso.”
“Então, meu charme é realmente tão cativante para as cultivadoras… Porém, devo tomar cuidado.”
Refletiu profundamente.
“Há muitas belezas por aí; não posso roubar o coração de todas, ou os homens desse mundo ficarão chupando o dedo…”
“Sim, devo ser mais modesto.”
Sua voz reverberou a seguir, na tentativa de consolar a linda garota já perdidamente apaixonada que estava em sua mão.
Pelo menos em sua cabeça as coisas se desenrolavam dessa forma.
— É, minha pequena Xiu Ying… Se eu tivesse aceitado você há alguns milhões de anos, porém, era um período muito turbulento e este Inestimável estava ocupadíssimo…
— Que pena!
Fez uma pausa dramática de cinco segundos.
— Quando a procurei, infelizmente já haviam se passado todos os seus dias de vida.
Um breve silêncio. Observou se a garota não estaria prestes a chorar novamente por conta da dureza de suas palavras.
Ficou aliviado ao perceber que não era o caso, então continuou.
— É um fato — disse ele. — Você estaria agora comigo, mas há uma questão: este Soberano sabe que sua alma esteve vivendo uma boa vida em algum dos inúmeros mundos durante esse período, por isso estive tranquilo.
— Eu poderia tê-la ressuscitado, mas não é certo interromper o ciclo natural.
— Mas aqui estou agora para resolver as coisas.
Kael suspirou pesadamente.
— Ainda assim, por agora, é realmente difícil para mim aceitá-la. Porém, haverá outras chances.
— Não fique triste, confie em mim, pois ainda vou lhe dar uma oportunidade!
Xiu Ying, que, ao notar o próprio desleixo ao se deitar na mão do Soberano, havia se levantado levemente corada, não teve tempo de se recuperar e já estava ouvindo tantas coisas complexas e diretas demais para raciocinar plenamente sobre elas.
Encarou o vazio azul acima, de onde o braço dourado se estendia, com a boca levemente aberta, quase sem palavras diante de tudo o que havia escutado.
— Hahaha!
Ela riu em seguida, mas logo tapou a boca, notando mais um erro seu por descuido.
Já estava prestes a se prostrar e pedir perdão por mais essa indelicadeza, mas a voz de Kael surgiu bem na hora.
— Sua risada é tão boa de ouvir… Como eu disse, este Magnífico nunca está errado!
— Sim, minha garota é mais linda com um sorriso no rosto!
Cessou a fala brevemente, apreciando aquele olhar intenso e curioso.
— Sorria mais, minha pequena, ainda que seja só para mim. Na verdade, eu até prefiro assim.
— Sim, verdade, não faça isso para outros homens, apenas para mim!
Escutando tudo aquilo, a antes fria e distante Xiu Ying corou, deixando seu rosto, que era branco como a neve, completamente vermelho.
— Meu Soberano… — murmurou ela, sem jeito, mordendo levemente os lábios. — Se você disser isso… eu não saberei como agir na sua presença.
Apesar de seu sussurro ser baixo, nada escapava dos ouvidos do atento Kael por causa das configurações da caixa.
“Hehe. Essa tigresa tem um charme descomunal, completamente natural e espontâneo…”
Suspirou aliviado.
“Ainda bem que neste mundo provavelmente não tem Internet, ou ela estaria corrompida, gravando vídeos em plataformas suspeitas e extorquindo os menos afortunados com um sorriso falso no rosto!”
Por alguns segundos, refletiu sobre uma maneira de parecer mais íntimo dela sem parecer forçado. Foi então que se lembrou da sutileza das nomenclaturas chinesas.
Esse mundo parecia seguir o mesmo padrão das webnovels. Apesar de ser um mistério, não deu a mínima para o porquê disso.
Na sua opinião, não valia a pena quebrar a cabeça à toa, mas sim focar no resultado e no caminho mais fácil.
“Xiu deve ser o nome da família… Ying é o nome próprio dela. Pelo que me lembro, é assim que funciona.”
Colocou a mão que repousava fora da caixa sob o queixo, pensativo.
“Para ser mais atencioso com uma possível candidata romântica, devo derrubar qualquer barreira.”
“Sim, certa vez meu pai me disse que um homem deve ser ousado e deixar de enrolação.”
Estava prestes a continuar seu flerte, ou melhor, sua performance. Naquele momento, porém, palavras de sabedoria de sua grandiosa mãe ressoaram em sua mente, alertando-o.
Ela o ensinou a não se iludir com paixões momentâneas, pois, quanto mais rápido começam, mais rápido terminam.
Segundo ela, o segredo era construir uma relação aos poucos, degrau a degrau, até que aquilo de fato desse um fruto doce e saboroso.
Só então se poderia plantar a semente nesse fruto.
Ainda que não tivesse entendido muito bem essa parte da semente no fruto, não importava.
Seu olhar se estreitou.
Eram palavras complexas, mas ele compreendeu a essência.
O ponto forte entre ele e essa Mestra da Seita tinha sido salvá-la e salvar seu povo de uma grande aflição.
Sendo assim, aquilo havia nascido de uma ação de ajuda social completamente sem segundas intenções de sua parte.
“Sim, eu não tenho experiência. Tanto a mãe quanto o pai estão certos. Um passo de cada vez, construindo a relação aos poucos para que seja duradoura.”
Puxou o ar lentamente, acalmando a euforia de seu coração amoroso.
“Pai também falou que conquistar uma mulher é saber abraçar seu lado emocional… Entendo.”
Com tanta sabedoria desbalanceada e de alto nível em sua mente, decidiu colocá-la em prática junto à sua própria, para assim ser produtivo a longo prazo.
Sua voz surgiu.
— Não pense demais, minha querida Ying…
Interrompeu as palavras ao observar o rosto dela ficar um pouco mais rosado.
“Hehe. Este é o poder da cultura dos nomes. Quanto poder de ataque em algo tão simples!”
Sem mais demora, continuou.
— Quando estivermos sozinhos, minha Ying pode ser essa doce garota que está sendo agora…
— Este Inestimável alcançou o pico, afinal, por ter um coração completamente magnânimo!
Deixou escapar uma risada, fazendo Xiu Ying olhar para o céu com curiosidade, além da timidez.
Para ela, aquele era um deus estranhamente agradável de se ter por perto.
Havia conseguido rir diante dele sem sentir medo e até se deitado em sua grandiosa mão sem ser repreendida, como imaginou que seria.
Também havia aquelas palavras tão sutis e diretas, com um constante calor presente nelas.
Ela não negava que gostava de ouvi-las, ainda que boa parte fosse confusa.
Ouvira sobre uma versão sua de milhões de anos atrás que já havia sido observada por ele.
As palavras dele davam a entender que já se interessava por ela desde aquele tempo longínquo, do qual talvez nunca se recordasse.
Afinal, se havia perecido em meio àquela vida que desconhecia, este era um novo ciclo, e ela e aquela outra versão eram pessoas distintas, ainda que de almas semelhantes.
Contudo, deduziu um possível mistério.
O sonho profético com esse mesmo deus que falava com ela havia salvado sua Seita, e tudo havia se cumprido.
Perguntava-se se havia alguma possibilidade de aquela revelação ter sido obra dele, pois até cogitou o misterioso Dao do Destino como uma possível explicação, mas, para alguém de seu nível de cultivo, aquilo realmente não fazia sentido.
Ou se, por acaso, tudo havia sido seu plano para reencontrá-la. Ainda que tivesse essas dúvidas, pois não se considerava tão especial quanto ele dava a entender, sentiu que era melhor deixar como estava.
Caso fosse para ela saber, sentia que aquele Soberano lhe diria sem problemas, mas, se não havia dito, era melhor assim.
Ela não desgostava disso. O que estava experimentando já era bom o suficiente.
“Será que não estou imaginando coisas ou interpretando errado as suas palavras?”, pensou ela. “Ele é tão grande e parece tão distante e, ao mesmo tempo, tão perto.”
“Eu sou apenas comum demais para ele…”
Ela balançou a cabeça, deixando aqueles pensamentos de lado por enquanto, e passou a mergulhar mais naquelas palavras tão descontraídas, confusas e prazerosas de ouvir, deixando-se envolver por elas.
Os dois conversavam e, ocasionalmente, era possível ouvir as doces risadas de Xiu Ying.
Mas nem ela nem Kael, que estava completamente focado em sua investida objetiva — ou melhor, em sua conversa inocente —, notaram que, num canto escondido por trás de uma rocha, um par de olhos encarava a situação completamente perplexo.
Era a Vice-Mestra da Seita, a Primeira Anciã Cang Lan, que, apesar do medo, decidiu subir a montanha para ver a situação de sua boa amiga.
Porém, naquele momento, não sabia o que dizer.
Olhava para cima e só ouvia grandes estrondos semelhantes a trovões; outras vezes, soavam como o barulho de cachoeiras.
Todavia, o que a deixava abismada eram as risadas sutis e os comentários tão femininos que vinham de sua amiga.
“Xiu Ying está rindo tão alegremente? Ela está conversando com aquela temível divindade com uma liberdade que nunca presenciei…”
Respirou fundo, como se não conseguisse acreditar.
“Por que parece tão feliz? Nunca a vi assim, nem quando o antigo Mestre da Seita estava vivo.”
Cang Lan simplesmente não compreendia o que estava acontecendo, mas ouvia aquelas risadas e a voz tão animada, às vezes até tímida, de sua boa amiga.
Sem notar, esboçou um belo sorriso.
Ela se virou para sair de lá.
Uma lágrima cristalina escorreu por seu rosto enquanto se afastava em passos lentos, ainda olhando de relance para aquela imponente mão que segurava Xiu Ying.
“Eu não sei o que esse ser grandioso está lhe falando, mas esse tom em sua voz ao respondê-lo e essas risadas…”
Por um momento, recordou-se do passado das duas quando jovens. Havia sido uma juventude marcada pela dureza das obrigações e cobranças.
Uma juventude que havia escapado das duas.
“Espero ouvir isso de você mais vezes… Que você possa ser feliz, minha querida amiga.”
Suspirando, decidiu sair do local.
— Agora não devo mais interromper — murmurou Cang Lan, ao saltar do pico da montanha. — Com certeza essa poderosa divindade me notou, mas teve misericórdia de mim por consideração a Xiu Ying.