Ponto de Vista (1)
Ponto de Vista (1)
Após uma divertida conversa com a linda cultivadora Xiu Ying, agora uma de suas subordinadas e futura rota romântica, Kael se sentiu mais relaxado.
De início, pensou que teria dificuldade em interagir com aquela Seita. Mas as coisas eram bem diferentes.
Como um amante da vida fácil, mesmo que essa nunca tivesse sido a sua realidade, além de grande crítico de clichês, na verdade torcia para que todos se submetessem sem contratempos, como acontecia nas webnovels sem profundidade.
Por agora, este era seu sonho de consumo e provavelmente já o havia conquistado.
O coração da Mestra da Seita já era inegavelmente dele e, para não ser uma ilusão momentânea e passageira, deveria fortalecer aos poucos aquela relação até transformá-la em um amor genuíno.
Assim como sua mãe o aconselhou quando tinha seus treze anos, mas também levando em conta as palavras do seu pai sobre não viver de enrolação.
O resto seria um passeio no parque.
“Não pensei que eu fosse tão talentoso em cortejar mulheres mais velhas, afinal, é minha primeira vez…”
Refletiu com a mão fora da caixa sob o queixo.
“Não, isso deve ser porque elas dedicaram suas vidas ao cultivo por muitos anos, assim como nos romances.”
Balançou a cabeça, convencido de que havia entendido tudo.
“Diante disso, acabam sendo diferentes das garotas da Terra, onde a maioria é composta por gangues de raposas astutas.”
Suspirou em total compreensão.
“Sim, apesar de meu charme ter oitenta por cento do mérito, eu devo ser humilde e reconhecer isso.”
Seu cenho se estreitou.
“Da soberba procede a queda. Tenho sorte de ser um homem de integridade inquestionável.”
Na perspectiva de Kael, fosse Xiu Ying ou Bai Suxian, ambas pareciam carregar corações de donzelas que jamais haviam sido tocados, o que lhe era cativante, pois gostava desse tipo de desafio amoroso.
Em seu tempo livre, jogava alguns jogos onde se tinha de conquistar várias garotas por caminhos distintos.
Era um verdadeiro perito inato nas rotas românticas.
Pelo menos, ele acreditava nisso veementemente. Bem, o importante é ser feliz.
Aos seus olhos, as duas garotas possuíam aquela ingenuidade cativante, mesclada a uma sutil frieza.
Ainda que não tivesse plena certeza quanto à Divina Imortal Bai. Todavia, sobre a Mestra da Seita, isso era um fato que considerava incontestável.
“Bom, deixando isso de lado, é melhor acelerar as coisas.”
Sim, finalmente o sujeito notou isso.
Descendo a mão até próximo ao pico da montanha, ele disse a Xiu Ying que reunisse todos os feridos, independentemente da gravidade do ferimento, da idade ou de há quanto tempo possuíam a lesão.
Os olhos da garota brilharam como belas joias ao ouvir aquilo.
Ela não questionou nem perguntou o que pretendia fazer. Após aquela boa conversa, conseguia mais ou menos entender que tipo de pessoa era aquela divindade.
“Ele é bem diferente de qualquer coisa que imaginei durante esses dez anos após o sonho…”
Refletiu ela, enrolando inconscientemente uma mecha de seu belo cabelo no dedo indicador.
“Todos temem a repetição da Era Perdida… até eu mesma era assim, mas, depois de conhecê-lo, não me importo mais com isso.”
Um sorriso cativante repousava em seu rosto.
“Agora, seja eu ou a própria Seita, pertenceremos a ele.”
Ela suspirou.
“Espero que tudo ocorra bem. Eu me pergunto se ele ficaria irritado se houvesse oposição?”
Seu cenho se estreitou por um momento antes de relaxar.
“Como Mestra desta Seita, devo lidar com isso da melhor forma possível. Não há tempo a perder.”
Com isso em mente, saiu em passos lentos e, no meio do caminho, lançava olhares furtivos àquela mão dourada, revelando uma sutil relutância em se distanciar.
“Espero que possamos conversar mais vezes…”
Pensou com anseio.
“Nunca me senti tão bem como hoje. Por um momento, até esqueci de tudo…”
Em poucos segundos, Xiu Ying desapareceu da montanha e já estava no Palácio Interno abaixo, onde os discípulos e anciões reuniam os feridos.
Com sua chegada, todos a encararam sem disfarçar por alguns segundos.
Alguns estavam assustados, outros curiosos, pois a Mestra da Seita havia passado mais de uma hora sobre a palma gigantesca que pairava nos céus da Seita.
Contudo, o que chamava a atenção de todos, principalmente dos anciões mais próximos, era a expressão em seu rosto.
Um leve sorriso ainda era visível em seus lábios, enquanto toda aquela frieza e tensão naturais em seu olhar haviam se suavizado bastante.
Sem se importar com os muitos olhares, sua voz cortou o silêncio com firmeza:
— O Soberano que nos estendeu as mãos passará a comandar nossos destinos, como todos já estão cientes…
Ela fitou lentamente cada um dos que estavam diante dela, fossem os que estavam sobre macas improvisadas ou de pé, velhos ou jovens.
— Reúnam todos aqui neste salão — continuou com seriedade. — Sejam os que tiverem ferimentos externos ou internos, de muitos anos atrás ou recentes…
Cessou brevemente suas palavras, fixando os olhos em um certo ancião interno, antes de continuar.
— Sim, até mesmo que sejam feridas em suas almas.
Aquele em questão a encarou com a boca levemente aberta. Seu corpo tremeu e, com um sorriso no rosto, assentiu com a cabeça.
Ele já havia sido um dos grandes anciões da Seita, porém, por conta de seu ferimento, havia decidido abdicar da posição.
Yong Hao parecia ter recobrado um novo brilho de esperança ao deduzir o motivo das palavras da Mestra da Seita.
Xiu Ying quase não conteve a alegria ao observar isso. Ela se sentiu realizada, ainda que não fosse uma obra sua.
Ao finalizar suas palavras, mandou uma transmissão mental para os seis grandes anciões, pois faria uma reunião objetiva sobre sua decisão para o futuro da Seita.
Mas, quando estava prestes a partir, uma jovem de longos cabelos castanhos e olhos verdes surgiu diante dela.
Após fazer uma saudação, estava pronta para falar, mas parecia ter dificuldade em articular suas palavras diante dela.
Xiu Ying deixou o ar sair lentamente.
— Jin Mei — disse ela —, sou sua mestra há tantos anos e você ainda tem dificuldade de falar comigo?
A garota respirou fundo, mordendo os lábios.
Atrás dela estavam outros discípulos considerados os mais geniais da Seita Interna, os que ainda permaneciam vivos.
— Mestra… — falou Jin Mei. — Está realmente tudo bem nos entregarmos assim nas mãos de uma divindade aleatória da qual nada sabemos?
Ouvindo sua pergunta, Xiu Ying sorriu, surpreendendo a todos. Mas, antes que pudesse responder, a vice-mestra Cang Lan tomou a palavra:
— De fato…
Sua voz cortou o silêncio.
— Provavelmente seremos inimigos de todo o Mundo Imortal e rejeitados em todos os lugares…
Caminhou até próximo aos discípulos e os encarou um a um antes de continuar.
— Seremos caçados para sermos mortos, certo? — disse ela. — Mas tudo já não era dessa maneira antes?
Os discípulos se entreolharam. Esse era um fato que não podiam negar.
Provavelmente, se não fosse aquela terrível divindade, em mais alguns dias a Seita Dao Infinito seria onde repousaria o que restasse de seus cadáveres.
Sem saber o que responder, encararam Jin Mei, que baixou a cabeça, apertando levemente a borda de suas vestes de seda branca.
Com a fala de Cang Lan, os murmúrios que haviam começado entre eles por conta das palavras da Mestra da Seita cessaram por aquele momento.
Era realmente como ela havia dito. Essa foi a realidade da Seita durante três séculos, e todos sabiam disso muito bem.
O porquê de terem sido isolados e até mesmo abandonados por seus antigos aliados para morrer ainda era um grande mistério para todos.
— Jin Mei… — a voz de Xiu Ying surgiu suavemente.
Ela deu alguns passos, ficando frente a frente com a discípula. Sua mão tocou o ombro dela, e a garota levantou o rosto, surpresa, dando de encontro com um par de olhos violetas que a observavam com carinho.
— Eu sei do seu medo. Afinal, seu clã, outrora proeminente e conhecido, lutou bravamente na guerra de dez mil anos atrás e pereceu.
A Mestra não mediu palavras ao respondê-la, fazendo a discípula apertar a borda de sua roupa ainda mais forte.
— Respeitarei sua escolha, seja ficar ou ir embora.
Elevou um pouco a mão e fez um leve cafuné na cabeça da garota, que tinha a mesma altura que ela.
— Aquele Soberano também não vai impedi-la, pequena Mei, e nem eu irei.
Sua fala foi seca.
— Você sabe bem o que é melhor para si mesma. Já não é mais aquela jovem menina. Mas meu desejo como Mestra é que faça a melhor escolha.
Vendo as lágrimas se formarem nos olhos de sua discípula, ela deixou escapar um suspiro.
Tocou levemente o rosto dela e a encarou profundamente nos olhos, como se recordasse daquela pequena garotinha que se agarrava à sua perna, seguindo-a por todos os lados.
Sua voz soou suave.
— Por que não o observa um pouco? Ainda que seja um ser Divino, ele é bem diferente do que eu imaginava — respondeu Xiu Ying. — De uma maneira que me faz pensar que também o seguiria, mesmo que nossa Seita ainda estivesse em seu auge.
Terminando o que tinha a dizer, não perdeu mais tempo e foi dar início à reunião com os grandes anciões.
Apenas Jin Mei, rodeada por cinco discípulos, permaneceu de cabeça baixa, mordendo os lábios com uma expressão levemente distorcida, como se sentisse traída.
— Por quê, Mestra…?
Sua voz era quase inaudível, em murmúrios retraídos.
— Você parece tão diferente após um único encontro com esse ser terrível… Será que ele já controla a sua mente?
Seus lábios balbuciaram aquelas palavras, mas sua Mestra já havia desaparecido do local.
Os demais discípulos e anciões se apressaram para cumprir as ordens dadas anteriormente pela Mestra da Seita.
Até aqueles cinco, percebendo que ela precisava de um tempo para pensar, resolveram lhe dar algum espaço.
Cada qual seguiu para cumprir suas obrigações após se despedir.
Parada naquele lugar, apenas ela permaneceu, além dos demais doentes sobre as macas.
Era possível ver gotas cristalinas caindo entre seus pés.