LNCrawler

O Rugido do Incomensurável

O Mundo Na Caixa — illusia.com.br · All chapters

O Rugido do Incomensurável

No mundo em miniatura, Feng Li abriu sua enorme boca. Uma intensa escuridão surgiu ao seu redor, tendo-o como centro, enquanto uma esfera de energia se condensava em sua boca, crescendo até ultrapassar cem metros de diâmetro.

Todo o espaço em um raio de dez quilômetros ao redor da esfera distorceu-se, desfazendo-se em pedaços no instante seguinte.

Em meio ao vazio escuro, Feng Li disparou seu ataque.

O que antes era uma esfera estendeu-se rapidamente, transformando-se em uma imensa rajada de energia completamente negra.

Diante desse ataque, o homem, que parecia um pequeno peixe em meio àquele turbilhão, ergueu a espada que tinha em mãos.

Um intenso brilho dourado surgiu ao seu redor.

Com um único movimento vertical da espada, de cima a baixo, um flash dourado partiu o pilar negro de energia que o alvejava e rasgou todo o espaço à sua frente.

O golpe dividiu o ataque de Feng Li de uma ponta à outra e, em seguida, atingiu-o.

Um rugido de dor ensurdecedor reverberou pelos céus.

Aquele enorme Dragão Negro foi lançado contra as profundezas do oceano. O impacto de seu gigantesco corpo ergueu uma onda devastadora, que engoliu milhares de pequenas ilhas em um raio de até dois mil quilômetros.

Por um momento, o silêncio tomou conta do ambiente.

Kael estreitou os olhos.

“Não é possível que Feng Li tenha morrido, certo?”

Ele planejava interferir apenas se a situação se tornasse realmente crítica para seu mascote.

Com o pensamento fixo em seu dragão, a imagem no fundo da caixa mudou diante de Kael.

Nas profundezas do oceano, um dragão completamente negro olhava para cima com seriedade.

Em seu corpo havia um enorme corte que se estendia do pescoço até próximo da cauda.

Mesmo assim, Kael suspirou aliviado.

“Não parece ser um corte profundo.”

Pensou ele, percebendo que, na armadura de escamas de Feng Li, aquilo parecia mais um longo arranhão.

Para as proporções de seu corpo de dragão, essa era a impressão, embora o corte tivesse mais de dez centímetros de profundidade.

Após alguns minutos, Feng Li disparou das profundezas do oceano de volta à superfície.

Ele exibia um olhar amargo diante da presença daquele homem, a vários quilômetros de distância.

“Se o Soberano estivesse aqui, esse pequeno inseto abaixaria rapidamente a cabeça…”

Refletiu ele, frustrado.

“Não há como suprir uma diferença de três reinos de cultivo apenas com minha resistência como Besta Imortal…”

— Reverendo Radiante, seu verme covarde! — rugiu Feng Li, fazendo surgir um vórtice completamente negro ao seu redor.

Mas, diante disso, seu adversário apenas sorriu com desdém.

Desapareceu de onde estava e, no instante seguinte, surgiu diante do dragão, atingindo-o.

Uma onda de choque propagou-se, afastando por alguns instantes as nuvens negras em espiral que cobriam os céus.

O imenso corpo do Dragão Imortal disparou pelos céus como um meteoro.

O Reverendo Radiante desaparecia e reaparecia continuamente. Cada vez que Feng Li era lançado pelos céus, uma espada dourada já o aguardava no ponto de impacto seguinte.

Em poucos instantes, mais de dez golpes consecutivos transformaram o enorme dragão em uma gigantesca bola, arremessada de um lado para o outro sobre o oceano.

Rugidos de dor ensurdecedores ecoavam pelos céus.

Assistindo a toda a cena, Kael percebeu que aquilo era trágico e se levantou rapidamente.

Após alguns passos, saiu do quarto.

Descendo o que restava da escada, seguiu até a cozinha.

Sem demora, pegou um pouco de milho e o colocou na pipoqueira.

Alguns minutos depois, retornou ao quarto com uma vasilha de pipoca e uma latinha de Coca-Cola Zero.

Observando o interior da Caixa, suspirou aliviado.

“Parece que não perdi muita coisa.”

Feng Li estava com várias escamas amassadas, além do enorme corte que ia do pescoço até a cauda.

Mas ainda parecia muito vivo, embora estivesse em uma situação miserável para um dragão tão orgulhoso.

Agora parecia que os dois estavam conversando.

— Ainda bem que não perdi o clímax da cena — Kael murmurou, animado.

— Parece que ainda tem muita coisa para acontecer.

Levou uma mão cheia de pipoca à boca, com um olhar sério.

“Mas… esse cara é realmente poderoso.” Refletiu ele enquanto mastigava lentamente. “É incrível que, sendo tão minúsculo comparado ao imponente Feng Li, consiga bater tanto nele.”

Kael precisou ampliar bastante a imagem para enxergar aquele cultivador.

Era um homem bonito, de cabelos compridos, vestindo uma roupa dourada de seda, ao que parecia.

Também carregava uma espada completamente dourada.

Sinceramente, aos olhos de Kael, aquele sujeito tinha muito mau gosto para se vestir.

Pelo que havia ouvido da conversa dos dois, o homem que enfrentava seu mascote era um tal de Reverendo Radiante.

“Que nome clichê… ele atua em alguma paróquia por acaso?”

No mundo em miniatura, Feng Li sentia-se pressionado.

A figura diante dele parecia não ouvir suas palavras. Mais uma vez, sua voz ecoou como um trovão em meio àquele caos.

— Seu inseto Radiante! Já falei que me tornei subordinado do Soberano dos Nove Céus… um ser do mundo superior!

Ele bufou.

— Você acha que só por ser um Imortal Dourado pode fazer o que quiser? Diante do Soberano, você não é nada!

O Reverendo Radiante riu.

— Besta tola. Você acha que pode enganar este Reverendo? Venha, entregue-se agora.

Seus lábios arquearam-se em um sorriso perverso.

— Deixei você vivo exatamente esperando que se tornasse um Dragão Imortal.

— Agora você é um tesouro inestimável para nossa raça humana.

— Com o seu sangue, muitos alcançaram o Reino do Núcleo Dourado no cultivo externo sem esforço. Até mesmo um cultivador da Alma Nascente teria dificuldade para ferir um deles.

O Reverendo zombou descaradamente.

— Sua pele, seus ossos, sua carne e até mesmo sua alma… entregue tudo obedientemente.

Feng Li estava furioso.

“Humano desprezível… então essa era sua intenção desde mil anos atrás…”

Fora da Caixa, Kael balançou a cabeça diante da aflição de seu mascote.

Assistiu, admirado, àquele homem brilhante acertá-lo incessantemente. Chegava a dar pena do coitado.

Era como assistir a uma partida de vôlei, exceto pelo fato de que Feng Li era a bola.

Por um momento, pensou no que deveria fazer. Seu dragão estava levando uma surra sem precedentes.

“Certo, está na hora de voltar ao personagem…”

No segundo seguinte, uma voz semelhante a inúmeros trovões rompeu o vórtice de nuvens acima de Feng Li e do Reverendo.

— Este Soberano se pergunta… será que perdeu seu prestígio no mundo mortal?

Sua risada ecoou.

— Agora qualquer inseto pode morder o mascote deste Incomensurável?

Diante daquela voz estrondosa, o Reverendo Radiante tremeu da cabeça aos pés.

Ele podia sentir.

Aquilo não era um ser que um Imortal Dourado pudesse alcançar.

“Esse dragão desgraçado estava falando a verdade…? Então o que Ming Chu disse é real… Droga!”

Sem demora, o Reverendo curvou-se em pleno ar.

— Este júnior… cumprimenta a Divindade Superior!

Sua voz saiu quase falhando, mas não houve resposta.

Kael não tinha pressa para responder. Era assim que os verdadeiramente poderosos agiam.

Somente depois de deixar o Reverendo curvado por quase um minuto, sentiu que era o momento.

Antes de tudo, decidiu consolar seu pequeno dragão, ou ele ficaria terrivelmente abalado pela surra que havia levado.

Sua falecida mãe costumava dizer que cachorros precisavam de atenção, ou acabavam ficando deprimidos e agressivos.

Seu mascote era um dragão, mas Kael não via muita diferença quando se tratava de emoções.

— Meu pequeno Feng Li, você não baixou a cabeça diante de ninguém além de mim… isso é bom. Este Soberano não é mesquinho com aqueles que lhe são leais.

Sua voz cortou o silêncio.

— Estive assistindo e, apesar de você ter sido espancado como um cão abandonado, manteve a garra necessária de um dragão… isso é louvável.

Ao ouvir essas palavras, Feng Li sorriu, animado, mas, no instante seguinte, sentiu-se envergonhado. Não sabia dizer se aquilo era um elogio ou uma ofensa.

— Este servo… quero dizer, mascote, deve ser leal apenas à Sua Excelência dos Nove Céus — declarou, tentando demonstrar sua inegável lealdade, ainda que com certo pesar.

Embora estivesse feliz por seu mestre estar ali, sentia-se um pouco injustiçado por ele ter aparecido somente agora.

Além disso, ouvia sons de algo sendo mastigado, fazendo suas sobrancelhas de dragão se estreitarem.

“Não é possível que o Soberano estivesse comendo enquanto assistia à minha miséria, certo?”

Observando o olhar desconfiado de seu mascote, Kael agiu rapidamente.

— Não pense em coisas que você não entende, meu pequeno mascote… Saiba que nada passa despercebido por este Soberano!

Feng Li tremeu, mas assentiu em silêncio.

Ele precisava tomar cuidado. Seu mestre realmente parecia ser capaz de ler sua mente.

Enquanto os dois conversavam, o Reverendo Radiante levantou o rosto, irritado por estar sendo completamente ignorado.

“Mesmo que você seja um ser do mundo superior, como se atreve a me tratar dessa forma? Eu sou um dos maiores gênios que este mundo já viu.”

Apesar de esse ser seu pensamento, não se atreveu a dizer uma única palavra em voz alta.

Contudo, Kael o encarava de fora do mundo em miniatura.

“Esse cara é ousado… Parece estar pensando besteira.”

Ele riu, animado.

“Eu estava querendo um motivo para acertá-lo sem parecer que estou favorecendo Feng Li… e ele realmente levantou a cabeça com essa expressão tão descarada.”

— Vejo que o mosquito Radiante pensa muito de si mesmo — disse Kael. — Mas, diante de mim, você não é diferente de um verme a ser esmagado.

Ao terminar de falar, pousou a mão sobre a Caixa.

Uma sutil supressão se espalhou pelo ambiente, tornando-o pesado, como se a gravidade tivesse aumentado ao extremo.

A expressão do Reverendo escureceu de pavor.

Em contraste, Feng Li sorria de orelha a orelha.

— Ei, verme Radiante — zombou ele. — Tenha cuidado com seus pensamentos. Meu Soberano pode estar ouvindo, sabe?

Kael suspirou profundamente, fazendo uma ventania aterradora varrer o Mar da Perdição abaixo.

Até Feng Li precisou se esforçar muito para permanecer no lugar.

Apenas o Reverendo Radiante continuava no mesmo lugar, ainda que com dificuldade.

— Este Incomensurável não pretende intimidar um júnior, mas… não posso deixar passar tal ofensa.

A voz de Kael era como uma torrente de incontáveis cachoeiras.

O Reverendo Radiante suava sem parar, tomado pelo medo.

— Este Soberano lhe dará apenas um peteleco. Faça o possível para sobreviver.

Fez uma breve pausa dramática.

— Se sair vivo, informe ao seu mundo que este Excelentíssimo anda entediado… e manterá os olhos voltados para os inúmeros mundos mortais.

Uma enorme mão dourada cobriu dezenas de milhares de quilômetros do céu acima do oceano.

“Entediado… será que foi esse o motivo do massacre da Era Perdida? Foi algo que nunca foi explicado. Parece que o Mundo Imortal será pintado de sangue mais uma vez… Isso está diferente…” refletiu o Reverendo, com um olhar confuso.

Todavia, permaneceu em silêncio. Não conseguia compreender o que estava acontecendo; apenas sua mente disparava sem controle.

Mas uma coisa era certa para ele: diante daquela imensa mão, não podia fazer nada além de fugir.

Um gigantesco dedo posicionou-se a poucos quilômetros dele, fazendo-o engolir em seco.

“Será este o meu fim? Ainda assim… é melhor morrer nas mãos de um ser divino. Serei lembrado como um herói… Hehe, provavelmente seria o que a ralé pensaria.”

Fora da Caixa, Kael tomou o último gole de Coca-Cola Zero enquanto movia casualmente a mão esquerda dentro da Caixa.

Estava fazendo o possível para não usar muita força, ou acabaria explodindo o pequeno Reverendo Radiante.

De repente, sentiu vontade de arrotar, mas não podia tirar a mão da Caixa naquele momento, ou perderia todo o prestígio.

“Tive uma ideia.”

Seus olhos voltaram-se para o minúsculo Reverendo abaixo.

Sua voz soou cortante.

— Para que você nunca mais pense em tocar no mascote deste Soberano, vou lhe mostrar o rugido de um dos meus inúmeros bichinhos.

Diante daquelas palavras, Feng Li foi o primeiro a levantar a cabeça, com os olhos arregalados.

“Então eu não sou o único? Como vou competir com bestas ancestrais?”

— GRUAAAAA…!!

Sem qualquer aviso, Kael arrotou enquanto abaixava parcialmente o rosto sobre a caixa.

Um som de magnitude impossível de medir reverberou por todo o mundo.

As nuvens foram dispersadas.

O espaço, que havia acabado de se regenerar, despedaçou-se novamente.

Sob a pressão daquele arroto, o mar recuou milhares de quilômetros, revelando corais e fendas que permaneciam ocultos nas profundezas.

Tanto o Reverendo quanto Feng Li foram lançados como meteoros que acabavam de entrar na atmosfera.

Seus corpos atravessaram os corais e afundaram vários quilômetros nas profundezas do solo.

Kael ficou perplexo diante do caos que seu arroto havia causado.

“Será que matei Feng Li?”

Ele engoliu em seco.

“Eu não planejava causar tanto alarde. Tinha planos de manter um perfil baixo para não alertar um ser do nível do artefato…”

Suspirou desanimado.

“Bem, o que está feito, está feito! De qualquer forma, tive sorte de isso acontecer em um grande oceano, longe de qualquer sinal de civilização.”

Kael balançou levemente a cabeça em compreensão. Porém, ele não fazia ideia de que aquilo era apenas uma pequena parte do desastre.

Em inúmeras regiões do Mundo Imortal, até mesmo no distante Continente Demoníaco, um rugido de magnitude aterrorizante ecoou, assustando todos os habitantes e alertando os grandes nomes que governavam nas sombras.

— A Era Perdida se inicia mais uma vez… hehe, que interessante! — declarou Doom Sadao, o único Imperador do Continente Demoníaco, lambendo os lábios.

Já nas fronteiras entre o Continente Imortal e o Continente Demoníaco, uma seita que lutava incansavelmente para sobreviver fez um minuto de silêncio.

No pico de uma imponente montanha, uma bela mulher de longos cabelos brancos contemplava o Mar da Perdição, que se estendia por centenas de milhões de quilômetros.

Em seu olhar era visível o profundo cansaço e a aflição que carregava.

Era Xiu Ying, a atual líder da antiga Seita Dao Infinito, uma mulher que parecia carregar sozinha o peso de milhares de anos de história.

— Será que a longa história da nossa seita terminará comigo…?

Seus lábios balbuciaram baixinho.

Contudo, o rugido daquela besta ancestral indescritível percorreu todo o vasto Mundo Imortal.

Norte, sul, leste e oeste.

Os quatro grandes impérios e as grandes seitas tremeram.

Uma reunião de emergência entre todos os impérios do Continente Imortal, bem como todas as grandes e médias seitas, foi marcada para aquela mesma semana.

Foi apenas a segunda grande reunião da história do Continente Imortal. A primeira ocorrera há dez mil anos, em uma era há muito perdida no tempo.