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Capítulo 12: Lara Nora, parte 1.

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Capítulo 12: Lara Nora, parte 1.

Miti Li guardava a saída da cidade.

Ele, de braços cruzados, recepcionava os viajantes, os valentes rostos que cruzavam o deserto. Ele quem apertava a mão dos mercantes, que vinham em grandes caravanas, todos para enriquecer na cidade atrás dele.

Miti Li admirava todos os que cruzavam aquele lugar, indo ou voltando. O deserto era muita coisa, mas nunca um caminho fácil. Quem voltava, morria.

Sem exceção.

Mesmo se voltasse, não seria a mesma pessoa. Nunca seria. Não teria como ser. O deserto mudava as pessoas. Mudava de tal forma que, sem que elas notassem, virariam outras pessoas. Irreconhecíveis.

Miti Li perdeu a conta de quantos casamentos ruíram. Quantos namoros! Quantas mulheres ficaram solteiras? Quantos homens viraram bêbados? O deserto destruía relações. Cortava amizades, desfazia votos de amor.

Cidade de Ehr. A cidade de Miti Li. Ele a conhecia como se fosse a palma de sua mão. Sabia o nome de todos os bares, todos os peixeiros, açougueiros, padeiros, costureiras… inclusive, sabia o nome de todos os guardas que vagavam acima de sua cabeça, sob a muralha que cercava Ehr.

Nada era estranho. Nada escapava do comum. Tudo era previsível aos olhos de Miti Li, que via tudo e a todos. Mas, não se engane. Ele gostava disso. Se tinha uma coisa que ele amava, era o que conhecia.

O melhor. O guerreiro mais habilidoso. O herói sob as areias da esquecida e outrora rica Navah. Ele, como o homem mais forte de Ehr, passou por muita coisa. Matou homens. Derrotou monstros. Subiu patentes e fez seu nome com suor e sangue.

Ele era o ápice. O topo de Ehr.

Enquanto ele fosse o símbolo de segurança, o pilar que erguia a cidade, os cidadãos podiam viver tranquilos. Podiam amar. Podiam comer em paz. Enquanto eles acreditassem em Miti Li, ele também teria fé.

Fé em si mesmo.

— Alô, Miti! — saudou um velho, montado em seu camelo.

— Vai à Bacu, Rasah?

— Pra Lasoh, Miti! Aloi! — E Miti também gritou “Aloi!” quando Rasah passou por ele.

Logo em seguida, um homem vinha montado em um lagarto gigante da espécie der-drazil. Era um comerciante em ascensão.

— Vê se não gasta tudo no bordel, Shupik!

— Aloi, Miti! — berrou Shupik, animado.

Era inútil pedir. E o terceiro a sair, como o guardião esperava, era Yusoh. Ele vinha a pé, levando consigo apenas a roupa do corpo e um cajado. Ele parou ao lado de Miti. Parecia animado.

— Iola, Miti! Como vai?

— Iola, Yusoh. Vou bem… é a segunda vez que vai à  Rasah, não é? — perguntou Miti, escondendo a curiosidade.

— Infelizmente.

— O que aconteceu? A mulher sumiu?

O homem riu, como se preferisse que sim.

— Nada! Ela quer que eu fique. Já disse que meu lugar é aqui, em Ehr, mas ela não me ouve! — E fitou as areias, lamentando o calor que virá. — Mas eu a amo…

— Sei… Não seria o caso de ela vir para cá, então?

— Não, não… ela quer viver perto dos pais, e eles são pedras. Rochas de Rasah. Não saem nem a passeio, os velhos.

— Entendo. Alguns são feitos para ficar… — E, rindo, agarrou um vulto que tentou passar por baixo de Yusoh. — Outros não deveriam sair…

— Puxa, mas é Lara Nora?! — espantou-se o homem de cajado.

Era uma garota pequena, de pele queimada e rosto fino. Vestia um manto negro velho. Tão velho que parecia cinza. Ela tinha olhos azuis afiados e cabelos vermelhos como sangue. Parecia um cachorro. Miti Li a segurava como se ela fosse um filhotinho.

— Me largue, seu velho! — gritava a menina. — Me larga! Me solte de uma vez!

— É a quarta vez, não é não, Miti?

— Quinta vez, Yusoh. E somente hoje — respondeu o guardião, sorrindo. — Ela tem muita energia.

A menina chutava, socava o ar, se debatia como podia. Até morderia a mão de Miti, se ele não estivesse segurando pelas costas. Era uma menina de rosto bonito, apesar da rebeldia escondê-lo.

— Seus pais estão na feira? — perguntou Yusoh, fazendo cafuné na menina.

— Sim. Comprando peixe… — Ela, emburrada, desistiu. — Estão demorando muito.

— Tempo suficiente para fugir! Hehehe… muito bem. Preciso ir — Deu um soquinho no braço enorme de Miti Li. — Aloi!

— Aloi! — disseram o homem e a menina, ao mesmo tempo.

“Espero que fique bem…”, pensou Lara.

Vendo o homem e o seu cajado partir rumo ao vento, o guardião e a fujona trocaram olhares. Ele, sorridente, a levaria de volta aos seus pais. Ela levaria bronca, quando chegassem. Ele queria saber o motivo de ela querer fugir tanto. Teria peixe no almoço, algo que todo eriano adorava comer…

Mas, não. Não era isso. Não era o peixe de que ela precisava. Não era de Ehr que ela esperava algo.

Era dele.

“Do deserto…”

Era das areias e do que elas escondiam. Do mundo que se escondia depois delas. Era disso que Lara precisava.

— Ehr é pequena demais para você — murmurou Miti Li, com ternura. — Espere. Logo poderá sair. Não tenha pressa.

Mas ela queria agora!

— Não vai demorar…

“Mas eu quero agora!”

E sua quinta tentativa, ao que pareceu, foi inútil. O desânimo bateu… e ela chorou.

— — —

O tio, um baleião metido numa túnica roxa, parecia tão roxo quanto suas vestes.

—- Menina idota! — gritou, sua voz reboando pelos corredores da casa. — Por que quer tanto sair daqui? Parece até que você sofre, aqui! Você nos odeia? Quer nos humilhar, ver passar vergonha, é isso?! Se sim… — E deu um murro na mesa, que saltou uns centímetros. — Se sim, está conseguindo! As pessoas acham que batemos em você! Que a deixamos passar fome! Nós passamos dias e dias, em cada esquina, desfazendo mal-entendidos… tudo por sua causa!

E ela fechou os olhos. A garota, longe de estar acuada, segurava a mão do grandalhão do Miti Li, que estava de olhos fechados. Ela aumentou o aperto.

— Você quer sair daqui? ÓTIMO! Eu também quero que você saia! Estou farto, Lara Nora. FARTO! Farto de lidar com as suas frescuras! Se você quer tanto assim a sua liberdade, essa liberdade que você acha que tem, que merece, então vá! VÁ! Eu não vou te impedir!

— Amor, não diga isso… — pediu a tia, massageando os ombros dele. — É uma fase difícil…

— Fase difícil? DIFÍCIL?! — Seu cuspe caía no rosto da menina, mesmo ela estando longe dele. — Difícil é sustentar uma casa! Difícil é trabalhar! DIFÍCIL?! Difícil é manter uma imagem nessa droga dessa cidade! ISSO é difícil!

— Amor, se acalme, você não…

— NÃO ME DIGA O QUE FAZER! — E ela saltou para trás, horrorizada. — Estou farto, Lerúnia! Farto dessa menina! — Ele se virou para ela de novo, os olhos saltados. — O que está esperando?! VÁ EMBORA!

Lara Nora sorry. Onze anos. Ela esperou por onze anos… e agora chegou. A hora de ser livre. De ser feliz! Ela finalmente poderia sair daquela casa, daquela cidade quente como o inferno! O seu tio a queria fora? Pois bem, ele terá!

Ela deu as costas e, sem dizer nada, soltou a mão de Miti Li e correu para a entrada. A tia, que nada pôde fazer, caiu de joelhos e chorou.

Um suspiro escapou do guardião.

— Até outro dia, Daslei… — E saiu.

O tio Daslei, ainda ofegante, sentiu a garganta secar. Havia pigarro, e mesmo assim sua voz não falhou. Conseguira. A expulsara de casa. Finalmente estava livre daquela menina ingrata, filha daquele Nora imbecil!

— Foi para melhor, Lerúnia — disse ele, mais calmo.

Ela, no entanto, só fez estremecer. Voltou a chorar.

“Foi melhor assim…”