LNCrawler

Capítulo 52: Inferno 365-1.

O Museu De Quadro-Contos — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 52: Inferno 365-1.

Eles estavam de pé diante dos muros da academia.

A Academia de Vehrna era a instituição mais influente do mundo. Estando em uma ilha isolada no centro do planeta, era tanto uma escola quanto uma cidade-estado. Sim, isso mesmo. Uma Escola-Cidade-Estado.

E aqueles três, bem como o lugar onde iriam, não eram nenhum pouco comuns.

Laio di Zela era um garoto animado.

— Caramba, gente. Esse pessoal tá dormindo?! BORA, MEU POVO! — Berrou para o portão, pulando como se fizesse polichinelos.

— Ei, eles podem ficar irritados se fizermos barulho…

Bombo Rin, coçando o pescoço, puxava a barra da camisa de Laio.

— Eles são muito rígidos…

— Hah! Dúvido que nos ouçam daqui.

Um pouco afastada, Sari Laida cruzava os braços e olhava para cima. Fosse para a esquerda, fosse para a direita, não haviam postos de guarda, nem o som de passos. Deviam ter algum tipo de vigilância remota, mágica, talvez. Alguém ia aparecer alguma hora.

Afinal, eles eram…

— Estrelas do Amanhã.

Aqueles que, ao nascerem, fizeram estrelas distantes brilharem como luas.

— Não vão deixar a esperança do mundo esperando, né?

— Sei não — falou Laio, correndo de um lado para o outro. — Não tô ouvindo nada. Nem gente conversando, nem “ei, vamos lá” dali de dentro. Será que tão ocupados? Esqueceram da gente?

— Eles devem estar preparando alguma coisa…

— Tipo um tapete vermelho?!

— É o mínimo que espero.

— A comida deve ser maravilhosa!

— Você só pensa em comer?!

Rin riu baixinho. Fitou os dois, estudando seus rostos. Era meio doido, pois haviam acabado de se conhecer. Até então, eram estranhos.

— Parece que a gente se conhece a tanto tempo — murmurou Sari, com as mãos na cintura. — Mas, vem cá, vai ter gente importante aí dentro, né?

— Acho que sim — falou Rin.

— Então a gente tá ferrado.

— Ué, por quê? — disse Laio, confuso.

— A gente tá mal vestido! — irritada, puxou a própria camisa. — Não temos culpa de sermos pobres, mas eles… e se encrencarem por sermos…

Magros demais. Bombo Rin, por exemplo, era um menino pequeno, rosto miúdo e olhos grandes. Assim como os outros dois, era quase uma varetinha. Era tão cabeludo quanto Laio e esguio como Sari.

— Puxa vida…

— Mas você é bonita — disse Rin, encarando a muralha, esperando ver uma lança ou varinha.

— Pois é! — gritou Laio, cruzando os braços. — Ferrado é a gente! O Rin aqui parece um ratinho, com essas orelhonas! Eu? Eu pareço um cachorro!

E, bem, o jeito como ele não parava quieto, falava alto e não parava de lembrá-los de sua fome, realmente o faziam lembrar um.

— É isso, Rin! A Sari vai na frente!

— Que ideia genial! — concordou o menino, batendo o punho na palma da mão. — Se ela for a líder, quem sabe temos chance!

— É isso, então, Sari! Ou melhor, chefa Sari!

— Chefa Sari!

Ela meneou a cabeça, meio feliz com os elogios.

De repente, os grandes portões diante deles começaram a ranger. Deslizaram para dentro, permitindo a visão de uma longa passarela, ladeada por um jardim de flores, e dois homens altos. Não eram quem esperavam ver.

Os homens vestiam túnicas longas, que se arrastavam pelo chão como vestidos. Eram bem, bem velhos. O da esquerda talvez fosse o mais jovem, pois ainda tinha uma mecha negra entre as albinas.

Foi esse quem falou primeiro.

— Estrelas da manhã! Esperanças de Maine!

Seu rosto era meio oval, e os ossos eram bem marcados. “Cara chupada”, diria Laio, se pudesse. Seus olhos eram duros, e até a luz que residia neles era firme.

— Bem-vindos!

Os dois deram passos para trás, abrindo o caminho.

— Por favor, sintam-se em casa!

Ergueram as mãos, indicando que entrassem. Os garotos assim fizeram, andando com certo nervosismo. As mãos de Sari suavam. As de Rin tremiam ansiedade, enquanto as de Laio… de animação.

O jardim, repartido pela passarela, era largo e se estendia pelo horizonte. Haviam rosas, tulipas, orquídeas, lírios do vale. O que mais chamava atenção, no entanto, foi a muralha interna. Aquilo nem podia ser chamado de “muralha”.

— Que linda! — espantou-se Sari.

Era uma parede composta de infinitas flores, flores que alternavam branco e lilás profundo, e sopravam um perfume calmante.

— Nunca vi nada parecido…

— São clematites.

Os olhos deles, inclusive dos velhos, que vinham atrás deles, se voltaram para Rin.

— Mamãe as adorava…

— Então você ficará bem — disse o de cabelos totalmente brancos, pondo as mãos em seus ombros.

E seguiram o caminho.

Enquanto Sari estava maravilhada e Laio queria saber da comida, Rin estava pensando. Por que a instituição mais poderosa do mundo tinha um jardim tão longo? Ele, mesmo sendo camponês, tinha certo conhecimento.

Ele sempre invadia a biblioteca do monastério de sua vila, e lá passava a maior parte do tempo, antes de ser convocado. Sabia um quê de filosofia, então se perguntou se as flores faziam parte da que a academia possuía.

No meio do caminho, o mais velho passou adiante e ergueu a mão diante do peito. Ele murmurou algo e, do nada, uma chave brotou em sua mão. O velho girou a chave no ar, como se houvesse uma porta…

E, de repente…

— Nossa!

Como uma gota de água manchando o papel, uma construção imensa surgiu diante deles. Era totalmente feita de mármore, erguida por colunas altas e enroladas em trepadeiras. Ao passarem pelas colunas, havia uma porta no meio do vazio branco.

O velho mais novo girou a maçaneta…

Um corredor se erigia na escuridão, enquanto discos de chamas azuis se abriam em suas laterais.

— Entrem no primeiro portal à esquerda.

Eles o fizeram…

E sentiram, em algum lugar no coração, uma espécie de ânimo com terror. Ao mesmo tempo que era excitante, era motivo de medo. Aquilo definitivamente era um outro mundo. O mundo que eles só ouviram em lendas, e cantigas de roda.

A jornada estava começando…

— — —

Na Academia de Vehrna, escondida entre estantes de livros, uma menina de óculos gigantes estava sentada no chão. Ela rabiscava alguma coisa no papel. Seus olhos não piscavam, e suas mãos, nervosas, não quietavam a caneta.

Lhe disseram que ela só sabia ler. Que nunca seria melhor que Jaila, que era inspirada pela própria Deusa da Arte. “É mesmo?” Pensou a garota. “Veremos, então!”

Era do feitio humano desafiar os deuses. Narão negou ser morto por Weus, Bilivo enganou Redas, o deus da morte, e está vivo em algum lugar. Por que ela, Liara, não desafiaria Itra, a tal Deusa das Esculturas, das Pinturas, do Desenho, das Prosas e dos Versos?

Descansou sua lança-tinteiro e leu o que fez.

Não sei o que fazer

Com meu coração,

Quer sair do peito,

Rejeita a razão

Quer ver um rosto

O mesmo, o mesmo

Que viu ainda pouco

No clarão da manhã!

Dizem que é louco,

Desvairado

Pelo povo,

Vaiado

Porque,

Mesmo em tempos

Como esse

Se encontra

Apaixonado!

Ela sorriu. Não era perfeito. Era ridiculamente simples, até. Mas era humano, terrivelmente humano. Fez aquilo com as próprias mãos, com imaginação sua. Não precisava de Itra. Jaila comeria poeira!

Estava feliz, e ia mostrar aquilo para…

— Mas… — E abaixou a cabeça, o sorriso perdendo a força.

Quem? Para quem iria mostrar? Ela não tinha amigos…