Capítulo 54: Inferno 365-3.
Capítulo 54: Inferno 365-3.
Ninguém havia lhe dito que o inferno era o próprio corpo.
Quando você passa noites acordado por, mesmo cansado, não conseguir dormir, os piores pensamentos surgem na sua cabeça. Você pensa que merece o que está passando, que tudo é um castigo.
Era assim que Rin se sentia.
Uma semana se passou desde que o treinamento começou. Era segunda-feira e, segundo o seu mestre, finalmente poderia ver seus amigos. Eles estavam impossibilitados de sair de seus campos de treinamento, assim como ele.
Mesmo que não fosse admitir, Rin pensava que seu treinamento seria algo heróico, digno dos livros. Acreditava que ia desbloquear um talento natural para a magia de cura, e que logo estaria livre para explorar a academia.
Ele não podia estar mais enganado.
No primeiro dia, enquanto curava seu mestre, percebeu que era mais difícil do que imaginava. Era como se a magia se dispersasse de suas mãos, ao saírem do corpo. Era algo totalmente diferente de efetuar a cura em si mesmo.
— É porque o corpo é a fonte da sua magia — disse o mestre. — É fácil curar a si mesmo. Você sente cada mísera parte de si mesmo, ao manifestar mana. Alia-se isso à dor, e pronto, eis o ponto a ser curado.
Ele dizia isso deitado de barriga para baixo, o que quebrava qualquer tipo de seriedade que a aula deveria ter.
— Outra pessoa? Difícil, Muito difícil. Você não consegue sentir o que ela estar sentindo, então não pode intervir para dar o que ela precisa. É por isso que a sua magia está se dispersando.
Rin encarou as mãos.
— Existe um jeito, porém, de contornar esse problema.
— Qual?
O mestre pegou uma pedrinha diante de seus olhos, a pôs entre dois dedos e a fez brilhar.
— Caramba.
— Se você conseguir fazer isso com o meu corpo, conseguirá me curar com sucesso.
— O quê?!
Cobrir uma pessoa com mana? Isso era loucura em diversos idiomas!
— Mas mestre, isso é impossível. Ninguém tem tanta mana assim! Eu vou morrer antes disso…
— Então você ainda está longe de ser um curandeiro.
— Eles são capazes disso?! — berrou o menino, espantado.
O mestre assentiu.
— Mas como isso é possível?!
— Recolhendo sua mana de volta, oras.
Ele disse aquilo como se não fosse nada.
— Manipular a mana livremente é uma das habilidades mais básicas de um curandeiro. Se você não é capaz disso…
Ele entendeu.
— Vejo que você franziu o cenho. Isso significa que você quer tentar.
— Sim, mestre.
— Comece com as pedras. Preencha quantas conseguir. Varie de tamanho, velocidade de transferência, ou até cubra pedras simultaneamente. Isso vai te dar a base necessária.
— Sim, senhor! — gritou o menino, que logo começou a catar pedras do chão.
— Só consiga o mais rápido possível… — murmurou o mestre.
Ele deitou o rosto na grama.
— Minhas costas estão me matando.
E, bem, continuaram matando, já que o garoto passou o restante da semana catando pedrinhas e as enchendo com magia. Seus desmaios eram frequentes, e em todos teve de se virar, pois o mestre parecia incapacitado de sair de onde estava.
O pior de tudo eram as noites, pois era quando o corpo produzia mana. Quanto mais mana se gasta no dia, mais mana se produz à noite, o que significa que a exaustão mágica pode causar, além de vertigem, insônia.
Foram dias de cão, para dizer o mínimo.
— — —
As chamas de Sari fediam a mofo.
— Então, mocinhas — uma voz suave, mas não por doçura, veio de trás delas. — Vejo que estão se enturmando.
— Eu? Com ela?! — berraram Sari e Liara, uma para a outra. — Impossível!
— Uma vadia burra dessas?! — Liara virou a cara bruscamente, fechando os olhos. — Nunca!
— Uma virjona arrogante e sabichona?! — Sari cuspiu no chão. — Jamais!
— Ser casta é virtude!
— Falta de macho!
— Você é que abre as pernas para qualquer um!
— E você? Se abrisse as suas em praça pública, nem o mais judiado dos feios viria te comer!
Até a professora ergueu as sobrancelhas, o sorriso ameaçando aparecer.
— Sem palavras?
— V-v-vulgar!
— Feia!
— Vagabunda!
— Já chega, vocês duas! — A professora fez um esforço desgraçado para não rir, tanto que os lábios tremiam. — Já entendi que são boas amigas. Também é perceptível que suas aptidões residem em áreas opostas uma da outra…
A professora, com seu rosto pálido, olheiras fundas e sangue no canto dos lábios, tinha uma aparência mais defunta que um defunto. Ela pôs as mãos na cintura, pensando seriamente sobre a questão das meninas.
E deu um soquinho na palma de uma mão.
— É isso.
— O que, professora? — perguntou Liara, ajeitando os óculos.
— Você é boa com livros, enquanto Sari é boa com pessoas. Seu esforço, Liara, a obriga a se afastar do convívio social.
— Muito obrigada, professora.
— Não foi um elogio… — sussurrou a mulher, tossindo sangue. — E você, Sari, é tão entrosada com as pessoas que as consegue convencer de qualquer coisa.
— Se a senhora está dizendo…
— Exatamente. No entanto, vocês estão presas pelo mesmo papel imposto socialmente.
Estamos? Elas se perguntaram.
— Ambas são boas em costurar…
Liara olhou para o lenço que usava no pescoço, enquanto Sari segurava a pelúcia que pendurava em sua bolsa.
— Ambas sabem cozinhar…
— Como a senhora sabe disso?
— Eu comi o almoço de vocês.
— A senhora o…
— E, bem, outras e outras coisas esperadas de uma mulher, socialmente falando.
O que ela queria dizer com isso?
— Eu compliquei de forma desnecessária a minha explicação, mas o ponto é que nenhuma de vocês tem o costume de praticar esportes.
— Pra quê? Ficar suado é coisa de homem! Eu, hein! — desdenhou Sari, cruzando os braços.
— Não acredito que vou dizer isso, mas eu concordo, professora. Suar não é algo próprio de uma dama! — disse Liara.
A professora sorriu pequeno.
— Opa — a ratinha da biblioteca entendeu.
— Exatamente.
— “Exatamente” o quê?! — Sari fingiu estar calma, mas o tom agudo entregou.
A professora deu as costas para elas, fazendo movimento de “sigam-me” com com as mãos.
— Não me diga que…
— Acho que é isso mesmo… — falou Liara, temendo o pior.
Elas teriam de se exercitar.
— — —
Quanto ao Laio…
— GAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Um jato d’água surgiu do chão, golpeando o seu queixo com força o suficiente para arremessá-lo no ar. Quando ele caiu, estava inconsciente.
— Ele é corajoso! — disse a mestra, a mulher musculosa de sobretudo. — Como um herói deve ser!
— Ele é muito é burro!
A garota que falou isso estava a alguns metros de distância, com a varinha erguida para o alto.
— Quem é que tenta avançar assim… contra um mago?!
— Um herói!
— Francamente…
“Eu vou odiar esse lugar”, pensou a garota.