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Capítulo 55: Crônica Idiota.

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Capítulo 55: Crônica Idiota.

As pessoas tem bocas, gargantas e músculos faciais que nem sei quais são. Junto do cérebro, os usam para falar. Que belo jeito de iniciar um texto, hein?

Bom.., os dedos, hoje em dia, quase não seguram lápis e canetas. Vou dizer que escrever é “digitar”. Digitar é uma forma de se expressar.

Se a fala é uma expressão, então digitar é falar. Na internet, as pessoas falam bastante. Até as que já morreram não calam a boca.

Lemmy disse que homens mortos não contam histórias, mas falava bastante o Albert Einstein. Todo dia vejo uma frase nova dele. Tantas tão otimistas, motivacionais, que olho para uma foto dele e penso…

— Não é possível que um velho caquético desse pensava assim.

E provavelmente não pensava. Baseado em quê eu digo isso? Nada. Puro achismo. O quê? As pessoas ouvem bastante os gurus das próprias mentes, então por que não darei ouvidos ao meu Gandhi?

Fernando Pessoa também é outro. É mais fácil respostar uma frase dele (verso, na verdade) do que ler seus poemas.

O cara vivia numa depressão crônica, e tudo que as pessoas conseguem puxar dele é um pouco de melancolia. Um shot de tristeza e só. Legal.

Uma frase que vi recentemente foi a de Henry Miller. “A monogamia é como estar obrigado a comer batatas todos os dias.”

Nada contra os não-monogâmicos. Cada um faz o que quiser na vida, e nem preciso sustentar o livre-arbítrio para dizer isso.

Também concordo que estar com a mesma pessoa para sempre, se você não gosta dela, é uma ideia terrível. Já passei por isso, sei como é.

Agora, também não estou com os moralistas. Não vou dizer que o certo é casar e acabou, sabe?

Na verdade, por mim, toda essa gente devia mais é sumir, desaparecer. Nada disso é importante.

Discutir sobre isso não vai mudar em nada, assim como qualquer outro tópico ou assunto levantado, seja na internet ou na vida real. As pessoas só mudam se forem forçadas a isso. Ninguém escolhe mudar.

Se você acha que escolhe, pronto. A força maior da vida te forçou a acreditar que teve algum poder de escolha. Tcharam!

Afinal, que grande liberdade é essa, né? Ter três opções, e achar que liberdade é decidir qual delas é menos pior. A liberdade atrelada à decisão.

É idiota. Mas o que mais não é idiota, no fim das contas? Mas não serei simplista, não aqui.

Existem muitas formas de ser idiota. Tem como ser idiota raso e idiota profundo. Estava falando de Henry Miller. Sendo ele um escritor, devia ser um idiota profundo.

Mais que um idiota, ele era O idiota. Afinal, escrever idiotices e ser reconhecido por elas é o cúmulo da idiotice. Ou seja, ele era muito bom em ser idiota. Ele era bom no que fazia.

Eu também sou idiota, mas não desse jeito. Eu amo batatas. E, se você gosta mesmo de batatas, há muitas formas prepará-las, de comê-las…

Será que ele gostava mesmo de batatas?

Ou será que ele não gostava de uma específica? Tem gente que não gosta de purê de batata. De batata doce cozida, por exemplo.

Bem, eu gosto de todo tipo de batata. Frita, palha, doce, purê, se for batata, batata mesmo, tô comendo.

De qualquer forma, soredemo i , acho que cada um entende as coisas da sua própria maneira, no tempo em que estão. Como assim?

Raul Seixas diria que cada um de nós é um microcosmo, um universo, o que pressupõe que estamos em constante expansão. Nossas leis são variáveis e, como tal, variam com o tempo.

Uma hora se é triste, outra é feliz. Um dia é de cão, outro é de rei. Você pode estar se lamentando agora, mas sempre dá pra melhorar.

Ou piorar, dependendo da sua sorte. Até a sua fé pode enfraquecer, se der fé. Perdão o trocadilho.

O que quero dizer é que, como todos somos únicos, específicos, individuais e todo aquele papo sobre sujeito subjetivo, não existe verdade absoluta coletiva nenhuma.

Nem individual.

Nem você é você o tempo todo.

Imagine que existem versões novas de você todos os dias. Dependendo do dia, até o que você mais gosta pode não ser tão legal assim.

Se bem que alguém poderia dizer que isso só vale para mim. Aí todo o meu argumento cairia por terra. Fazer o que, né? Shikata ga nai, né?

Mas isso também reforçaria o que estou dizendo. Todo esse meu texto é a verdade que carrego no meu coração. No meu cérebro, na verdade, mas o coração é mais poético.

Gostaria de dizer que essa verdade é uma verdade absoluta enquanto transitória, mas acho que seria demais. Seria? Não sei. Estou complicando o que deveria ser simples.

Mas quando não estamos fazendo isso, né? O ponto da coisa deve ser para se divertir. Para saber que existimos. Para que os outros confirmem que estamos aqui.

Isso volta para o início da conversa. Nós adoramos falar. Gostamos de conversar. Seja por um pretexto, para defender uma ideia ou passar o tempo, adoramos a comunicação.

É a prova máxima de que estamos vivos. Até os mortos estão vivos, se as palavras deles ainda conversam conosco. Textos são conversas preservadas, conservadas.

Estaria o Henry Miller errado? Na verdade, será que esse realmente é o ponto? Será que ele disse isso que atribuíram a ele? Ou ainda, o que será que ele estava sentindo ao dizer isso?

E mais, será que importa?

Tudo é fútil quando nada importa. O sentido de discutir sobre o que disse um punhado de terra, do que um dia foram ossos, que um dia formaram um corpo que, ainda mais velho, foi um homem…

É passar o tempo, é agarrar um ideal e guerrear por ele, é debochar. É tudo isso, é atribuir sentido a algo que convida a essa tarefa.

Ele era só um homem. Falando mal ou bem, na sessão de comentários do post do History Channel, em que foi postada a foto dele com essa frase como legenda…

Ele se encontra vivo.