Capítulo 56: Um D e um R.
Capítulo 56: Um D e um R.
Eles estavam de mal um com o outro. Mas, quando não estavam?
— Você tá fazendo careta — disse ele, apoiando a bochecha na mão. — Eu fiz alguma coisa.
— Fez.
— Eu sei, estou afirmando.
— E é exatamente isso que tá me deixando puta — disse ela, levantando da cadeira. A cadeira, girando, bateu na mesa e recuou para trás. A garota ficou no meio da sala. — Por que você simplesmente não diz logo?
— Posso dizer “dizer o quê”?
— Você acabou de dizer.
— Sim, só não diretamente.
— Você DISSE diretamente — murmurou ela, rangendo os dentes. — Só pôs entre parênteses, como se isso não fosse me deixar mais irritada do que já estou.
— Eu sei. E também sei que você sabe que eu quero dizer algo. Mas, você… — Ele coçou a nuca e, pegando o mouse, desligou o computador. — Bem, você se perguntou o porquê de eu não dizer?
— Por que eu teria de me perguntar, se você poderia simplesmente me FALAR? — Ela queria apertar a cara dele, mas se conteve, numa rara demonstração de auto-controle. — Você consegue, Lucas. Você consegue falar.
— Claro. Se não eu…
— Estaria falando libras? É isso que você ia dizer? Ah, não, espera, “se não estaria desenhando pra você”?
— Monique, eu…
— Você o quê? Anda. Termina de falar. “Ah, eu terminaria, se você deixasse”?
— Exatamente. Olha, Monique,a questão é que… — Ela não ia deixar ele em paz, não até ele dizer de uma vez por todas. — Tem coisas que a gente pode dizer, e tem outras que não pode.
— Tá, e o que isso tem a ver com você?
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Vai me dizer que isso é algo que não pode me dizer?
— Quando você coloca assim…
— Parece clichê? O que mais pareceria, Lucas? Hein?
— É porque você vai ficar irritada, se eu disser — confessou ele, e a frase saiu como um suspiro cansado.
— Lucas.
Ele virou para a porta.
— Lucas, olha pra mim. Olha. Pra. Mim — Ela pegou o rosto dele, virando para encará-la. — O que eu pareço pra você, Lucas?
— Bonita?
— …Lucas.
— Cansada?
— Também, mas não é disso que eu tô falando.
— Irri… tada? — falou, quase num fio de voz. Ele ergueu as mãos, se rendendo.
— Sim, Lucas. Eu já tô puta contigo tem alguns minutos, já! — Ela o soltou, voltando para a cadeira gamer dela. — Não importa o que você me disser, eu já tô puta.
— Tá… vamo lá.
Ele se ajeitou na cadeira. Não esperava que aquele momento ia chegar. Não porque ele realmente não tinha previsto, coisa que ele fez em diversos cenários mentais. Por que, então? Bem, ele não imaginava que ela fosse fazer disso uma discussão.
Ultimamente, ela nem tem se importado muito…
— Monique, bem… sobre tudo isso — ele retraiu o braço, e girou o dedo indicador. — É sobre tudo isso aqui.
— Certo. O quarto? A gente pode pintar as paredes de outra cor, mudar as prateleiras… só deixa meus ursinhos.
— Não é disso que eu tô falando.
Ele deu uma pegada de ar.
— Quer dizer, tem relação com isso, mas não é exatamente sobre… ah, cacete. Isso é mais difícil do que parece — resmungou ele. — Veja. Você é tipo o sol, sabe?
— Eu sei. Obrigada.
— Você aquece os meus dias, ilumina o meu caminho. Está em todo canto, seja nos lugares ou nos confins da minha mente…
Isso era uma confissão ou algo assim?
— Mas, bem, a luz é sua.
— Hã?
— Ao mesmo tempo em que é confortável e seguro, a luz é toda sua. Ela parte de você. Do que você pensa e tal — falou ele. Não queria ser tão abstrato, mas o que poderia fazer? — E, assim como o sol, tem coisas que você não ilumina. Coisas, sombras…
Ele a olhou no fundo dos olhos.
— E essas sombras, elas… são coisas que eu tento esconder.
— Que tipo de… coisas? — A voz dela tinha uma nota de medo.
— Coisas… coisas que eu penso, sabe? — Ele passou a mão no rosto, sentindo a palma pinicar na barba mal-feita. — Coisas que eu gostaria de não pensar, mas que estão sempre aí, assim como você.
— O que você quer dizer com isso, Lucas?
— Olha, a gente tá com esse projeto, né…
Ele deu uma olhada no monitor dela, onde um documento estava aberto no Google Docs.
— Eu nem sei mais que projeto é esse.
— É o quadragésimo oitavo. Eu contei — disse ela, tentando sorrir.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Ele se odiava por ser tão confuso.
— A gente já tentou escrever um bocado de livro.
— Sim, e teve uns que eu queria continuar, mas perdi a vontade… — murmurou ela, olhando para algum ponto indefinido.
— As nossas histórias nunca tem fim. Não porque temos ideias infinitas.
— Porque a gente tem.
— Porque a gente tem, mas o ponto é que não é por isso — Ele pegou as mãos dela. — É porque a gente nunca passa de cinco capítulos.
Aquilo sempre causava dor nela.
— A gente refaz, descarta e escreve roteiros atrás de roteiros. Depois de feito, lemos os capítulos que fizemos e os descartamos logo em seguida, porque já não tem mais a ver com o que temos agora.
— É sempre assim…
— Pois é. Mas você já parou pra pensar no motivo?
— É porque a gente sempre tem ideias novas — riu ela, cabisbaixa. — Mas uma hora a gente…
— Não é “a gente”, Monique.
Ela franziu o cenho.
— Ou você nunca reparou nisso?
— O que você…
— Não sou eu, Monique. Não sou eu.
— Entendi. Ah, sim. Claro, claro. Agora tudo faz sentido — Ela soltou as mãos dele e se levantou. — O problema sou eu. Lógico, tinha que ser.
— Não é bem assim, Moni…
— E É O QUÊ, ENTÃO?!
Ela berrou. O ar fugiu dos pulmões, e agora ela respirava com dificuldade. Aquele cara… ele já estava dando nos nervos.
— Sério, Lucas? Depois de tudo isso, você ainda quer dar um jeito de contornar?! — Ela começou a andar em círculos pelo quarto. — Eu não sou uma criança, Lucas! Você não precisa colocar plástico bolha nas coisas que diz!
— Monique…
— Se o problema sou eu, então pronto! Eu paro, tá bom?!
— Monique…
— Enquanto você não me disser, eu nunca vou…
— MONIQUE!
Ele também já estava cansado.
— Dá pra você me ouvir?!
— Tá… — Ela voltou a sentar, cruzando as pernas. — Fala. Sou toda ouvidos.
— O que eu quero dizer, Monique, é que você sempre muda ideia no meio de outra. Toda. Santa. Vez. Tudo começa assim: você começa um roteiro, para no meio dele, escreve um capítulo, vê alguma coisa na internet e depois pensa “ah, dava pra pôr no livro!”, e nisso a história vira algo completamente diferente do que começou.
As mãos dele tremiam.
— Enquanto isso, eu já tô com o esboço dos protagonistas, design fundamentado nas características que você definiu no roteiro, com simbolismo e tudo… — Ele respirou fundo. — Aí você chega, olha pra minha tela, e diz que teremos de fazer tudo de novo, porque “pensei em algo melhor”.
A cena se repetiu na mente dele.
— Nunca um “eu gostei desse personagem”, ou “puxa, a fivela do cinto dele tem o desenho do dragão que o pai dele tinha”, ou “o cabelo dele lembra bastante o do Kenshin Himura”. Sempre “esquece isso, vamos fazer outra coisa”!
— Des… culpa.
— E o diabo é que eu gosto muito dessa habilidade que você tem — admitiu ele, derrotado.
— Ah, sério?
— Muito, muito sério. Não é qualquer um que tira ideias a partir do nada, e consegue criar um arranha-céu em cima disso.
— Isso é…
— Genial. Isso é genial, Monique. — Ele sentiu o peito doer. — É tão genial que, se for ver de outro ângulo, quem está errado sou eu, porque não consigo te acompanhar. Afinal, eu sou só o cara do desenho.
— Não, você… — ela começou, mas a voz saiu cortada.
— É difícil estar no mesmo nível que você.
Ela, que sentia os olhos marejarem, ergueu a cabeça.
— Sério. Eu amo te ouvir falando sobre isso. Sério. Gosto da felicidade, da empolgação na sua voz e nos seus olhos. E, bem, para ser justo… — Ele entrelaçou as próprias mãos. — Se alguém aqui tem culpa, esse alguém sou eu.
— Co… Como assim? — agora ela estava confusa.
— Porque se eu tivesse dito antes, bem antes, nada disso teria acontecido. Se eu não tivesse tanto medo, eu poderia te dizer que não podemos sair abandonando ideias só porque a nova parece mais legal.
Os olhos dele pediam desculpas.
— Essa falta de comunicação não é exatamente culpa sua.
— Você… Você só não quer que eu me sinta mal.
— Não! — desesperou-se ele, a pegando pelos ombros. — Eu realmente sinto isso o que tô te falando. É tudo verdade.
— Eu sei.
Eles ficaram se encarando. Ele estava engolindo saliva, enquanto ela lutava contra a ardência dos olhos.
— Você… é meio idiota, né?
— Sou — concordou ele.
— Muito idiota.
Ele apenas assentiu.
— Um bobão.
— O maior deles.
— O master bobão.
— O mega master bobão — Lucas riu. O sorriso foi trêmulo.
— O ômega mega ultra blaster power bobão.
Ela o abraçou.
— E é por isso que eu…
O final da frase morreu contra o tecido da camisa dele. Ele olhou para o topo da cabeça dela, sentindo o peito bater mais rápido. Nervoso, perguntou:
— Que você o quê?
— Nada.
Eles ficaram assim por um tempo.
— Lucas?
— Sim.
— Estamos bem?
Eles ouviram o ruído padrão da CPU preencher o silêncio deles, mas por pouco tempo.
— …Estamos?
— Estamos, sim — disse ele, por fim, e a abraçou.
— Que bom.
“No fim, eu sou um grande covarde…” Pensou Lucas.
Mas sorriu contra os cabelos dela.
“Um covarde feliz, eu acho.”