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Capítulo 62: Apenas a Verdade.

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Capítulo 62: Apenas a Verdade.

Não há nada grandioso acontecendo.

Pra falar a verdade, eu estou aqui, parado, no meio da sala. Está quente como uma sauna. Pensei no inferno, mas apaguei e disse que era uma sauna, e agora estou confessando isso.

Certo. É segunda-feira, e eu sinto que estou descendo a ladeira. Nunca estive em uma montanha-russa, mas creio que a sensação de descer os trilhos em alta velocidade, rumo ao chão, deve ser parecida.

Você poderia dizer que estou exagerando. E eu estou, claro. Textos que não exageram são bem chatos — exceto acadêmicos. Textos acadêmicos deviam ser objetivos, diretos e bem práticos. Todos eles.

Vai por mim, você não vai querer estar numa situação como a que estou. É por não serem tão óbvios com a exposição de seu conteúdo que eu, um mero universitário suburbano, mal pude dormir noite passada.

Eu gostaria de ver estruturas simples, como passo-a-passos ou um slide. É horrível ter de ler um texto e torcer pra encontrar o que eu quero.

Claro, isso é querer demais. Nada é tão fácil assim. Quem dera se fosse, mas eu queria. Sim, eu queria. Porque eu queria ficar de boa, sabe?

Tudo que eu queria era ligar meu comprador, destravar a tela inicial, abrir o Google, deixando uma aba para reproduzir músicas e outra para ler uma webnovel. Se a vida pudesse se resumir a isso, eu seria feliz. Muito, muito feliz.

Não digo isso apenas porque ler é divertido, ou porque pretendo adquirir conhecimento com a leitura. Puxa, se todos os textos fossem para aprender… eu odiaria ler, confesso.

Ora, você deve estar achando que eu sou preguiçoso. Que não gosto de pensar, ou que não gosto de sair da caixinha, expandir meus horizontes e toda essa baboseira. Se você está pensando isso, sinto lhe informar, mas você está enganado.

Bem, eu realmente sinto preguiça, devo admitir. É desanimador fazer qualquer coisa que não seja do meu interesse. Isso é mesquinho da minha parte, mas quem mais não é assim? Eu não devo ser o único.

Minha preguiça se dá porque tudo é desinteressante. Não, melhor. Ela existe porque o meu interesse é muito, muito mais empolgante do que qualquer coisa que existe fora dele.

Perto do meu interesse, dos meus gostos, hobbies ou qualquer outro nome pelo qual você conheça “aquilo que faz a vida ter graça”, tudo perde o brilho. Sou como um viciado em drogas ou jogos de azar: não vivo sem ele.

A diferença é que eu não estou me matando ao alimentar meu vício. Bem, ao menos eu acho que não estou. Agora que escrevi essa frase, percebi que “ao menos” aparece na maioria dos meus textos. Sou muito previsível.

Não é que eu não tenha interesse nas pessoas, nos jogos e tudo que o mundo tem a oferecer. O problema, meu caro amigo, é que eu estou preso. Preso do lado de fora do paraíso.

Minha prisão não tem grades, nem é de ferro ou de pedra. Não, minha prisão também não tem um carcereiro único. Minha pena é perpétua enquanto eu viver.

Meu carcereiro é múltiplo. São as pessoas ao meu redor. Elas me prendem. O que alguém chamaria de elo, eu digo “corrente”. Estou cercado, esmagado por essa pressão.

As pessoas me fazem pensar e dizer coisas horríveis. As pessoas fazem, pensam e dizem coisas horríveis. São do tipo que, se um copo de água de esgoto não me matou quando o bebi, vão me oferecer futuramente. Recorrentemente.

Mas, veja bem, nem por isso são pessoas más. Não, elas são apenas pessoas. Only people. Elas são o que são, e errado sou eu por querer algo que não seja isso.

Elas passam por cima de mim. São como rolos compressores. Suas línguas, seus olhos, suas mentes e espíritos me esparramam no chão, como se eu fosse massa de pizza.

E me dividem. E me fatiam, e devoram partes de mim, levando-as embora. Eu pareço mais vazio a cada dia que passa, e logo mais não serei nada.

Eu tenho medo de me perder. Medo de deixar de ser seja lá o que sou. Tenho medo de que elas, em algum momento, consigam me derrotar.

O cosmo parece girar em torno disso. Desse conflito. Desse constante temor pelo que pode ou não acontecer. Enfrento infernos toda semana, lido com provações e tentações todos os dias.

O pão que como no café da manhã? Sou eu quem amassa junto do diabo, que me oferece como um agrado de mal gosto. Queria variar o cardápio, mas isso está fora do meu alcance.

Por isso, quando lembro que terei de passar por mais uma provação, sinto que finalmente vou quebrar. Que finalmente estarei livre, quando a vencer. Mas tudo, tudo não passa de uma ilusão.

Uma ilusão que eu insisto em manter.

Eu não sei de muita coisa. Na verdade, quanto mais sei, mais percebo que não sei de nada. Mas, com o nada que tenho, sei que nunca houve, não existe e nunca haverá um momento em que estarei em paz. Nunca.

Minha vida parece se sustentar em uma corrente de eventos que fazem parte de um evento maior, finalizando no mesmo lugar que todo mundo. Aquela coisa com M, sabe?

É engraçado. Quem está em paz, quer uma vida cheia. Uma vida com emoções, com coisas a fazer e objetivos a conquistar. Essas pessoas praticam bungee jump, saltam de paraquedas, escalam o Everest ou atravessam distância entre dois prédios, metros acima do chão, andando sobre uma fina linha de aço.

Queria que a minha vida fosse tão fácil assim. Fácil a ponto de minha única preocupação ser procurar algo emocionante para fazer no dia seguinte. Queria poder sentir tédio.

Nossa, sentir tédio deve ser bom. Feliz aquele que sente tédio, pois rico é de paz e ignorância em igual medida.

Penso umas coisas bem pessimistas, não é? Bem, não acho que posso escapar disso. Veja, minha vida é tão, mas tão incrivelmente cruel comigo, que minha única felicidade é ouvir rock n roll e ler histórias escritas na internet.

Ah, isso é tão deprimente…