Capítulo 63: Frustração.
Capítulo 63: Frustração.
Adolescentes andavam em grupos de um lado para o outro, como cardumes de sardinha bípedes e barulhentos. Nas mesas, adultos bebiam cerveja, vinho ou ajeitavam as cartelas do bingo. Crianças corriam por todos os cantos, algumas chorando, outras gritando umas com as outras e rindo.
A cantora parecia não saber a letra de quase nenhuma música de seu repertório, e talvez por isso improvisar versos, e apressar o refrão, fosse um roteiro que ela repetia canção após canção.
Três ou quatro velhacos de calça jeans, jaqueta e botas de couro, com aqueles ridículos chapéus de cowboy, desfilavam entre as famílias como protagonistas de filmes de bang-bang italiano. Ao invés de armas, carteiras forradas de onças dormiam nos bolsos.
Ao notar as forcas de ouro descansando nos pescoços, algumas moças indiscretamente apressaram o passo para chegar perto. Uma até se enrolou no braço de um, que olhou para ela com satisfação, um sorriso brincando nos lábios.
Em um canto, uma mesa estava cheia de homens de cara avermelhada, todos com latinhas nas mãos. Todos, sem exceção, tinham abdômens proeminentes, saltados sob as camisas. Suas mulheres nem se importavam; estavam mais a fim de botar o papo em dia com as amigas.
Com uma cara de profundo tédio, completamente estirado numa cadeira de plástico, um jovem encarava o céu. Bandeiras multicoloridas balançavam acima dele. Suspirando, puxou o celular e o ligou diante do rosto.
Dez e meia da noite.
“Três horas. Três horas da manhã. Ah, cara, que merda…” Amaldiçoou ele, em pensamento.
Ele rolou os olhos para o homem de cabelos semi-grisalhos ao lado dele.
— Não, sério, vocês tinham que ver — disse o homem, a atenção voltada para as outras pessoas na mesa. — Ano passado tinha bem mais gente. O que será que aconteceu?
— Pois é, né? Esse ano parece meio murcho.
— Né? Esse arraial já foi melhor. Se fosse que nem o ano passado, duvido que essa gurizada ia conseguir correr por aí. Estaria pinhado de mesas, não teria espaço nem para sair da cadeira.
— Verdade, Seu Bento.
O coroa era o pai do jovem. Era o principal culpado para ele estar ali, ao invés de estar no terceiro sono em sua adorada cama, no seu amado quarto. Se olhares matassem, o velho teria um buraco na cabeça.
Sempre eram aqueles papos de “sair da zona de conforto”. “tu precisa sair, se não vai morrer virgem”, “espairecer a mente”, um mais enfadonho que o outro. Ele não precisava sair. Não, claro que não, ele só precisava da própria cama.
Transar seria muito bom. Ele estaria mentindo se dissesse que não queria dar umazinha com uma garota. Mas ele estava solteiro por opção…
Opção delas, na verdade.
“Que derrota…”
Ele ergueu o celular uma segunda vez. A conversa mais recente no zap era com Amanda, cujo apelido foi salvo como “Mandinha” com um coração do lado. Se alguém visse o nome do contato, olhasse para o rosto do garoto e de volta para o contato, ergueria as sobrancelhas.
Ela era bonita. Tão, mas tão bonita, que ninguém teria pensado que ele tinha alguma chance com ela. Talvez ele fosse o best dela. Ninguém investiria mais que dez segundos para pensar nisso. Na verdade, o subconsciente já teria rodado isso em segundo plano.
Porém, as coisas que ele pensava…
Ele jamais admitiria em voz alta que, para todos os efeitos, a única coisa que queria com ela era aquilo. Mas era difícil. Fingir que você não quer algo que quer, e muito, exige uma quantidade cavalar de esforço.
Se ele tivesse um penteado melhor, fosse um pouco mais magro, alto, abastado… se ele apenas reencarnasse, tudo se resolveria. Mas ele não poderia fazer isso, obviamente. Droga, eram tantas variáveis para um único fim!
Era só uma ficada! Talvez duas, talvez três, amizade colorida. Enfim, desejos mesquinhos. O pior de tudo era que ele não se sentia culpado. Ele nem se esforçava para se autoconvencer. Ele sabia o que queria. Ah, e como sabia!
Ele se sentia um otário, e não era por ser um aficionado por mangás, animes, light novels, visual novels, webnovels e… bem, ser um maldito otaku. Não, não era por isso. Quer dizer, era por isso também, mas não só.
Ele riu de si mesmo.
“Eu esperava mais de mim.”
Por mais que ele tentasse, era difícil não prestar atenção no que Amanda conversava com ele. Não que ela fosse carismática ou super interessante. Ela era bonita. Se você perguntasse o porquê dele gostar dela, ele diria que era por isso.
Nem era algo que podia ser chamado de talento, já que ela nasceu bonita. Ele sabia disso porque, por incrível que pareça, a conhecia desde o jardim de infância. Eles nunca foram muito próximos, mas ela sempre soube da existência dele…
Mesmo que fosse na periferia do campo de visão dela, obviamente.
Ele não conseguia ignorar o fato de que Amanda o disse que ele não era como os outros homens. Que ele era tão legal, tão ouvinte, tão… “alguém que sempre tem o que dizer”, “alguém com quem eu posso contar”.
“Pro inferno com isso!” Pensou ele, frustrado. “De que isso vale, afinal?”
Ele se sentia um idiota. Mesmo que fosse absurdo, ele imaginava como seria se eles não fossem só amigos. Se ele tivesse alguma chance, se o sol alinhasse com a lua, junto com todos os planetas do sistema, o inferno congelasse e o céu virasse uma rave…
Se muitos Se’s, ela estaria ali, ao lado dele, dando sorrisos educados para o pai dele e as outras pessoas na mesa, cochichando no ouvido dele o quanto esse arraial era um saco. Ele teria rido de verdade, e chegaria mais perto com a cadeira.
Ele balançou a cabeça.
“Como se isso fosse acontecer…”
Ele balançou a cabeça, pendurando no rosto um sorriso que não alcançava os olhos. Ele franziu um pouco o cenho, sentindo uma dor fantasma.
— Por que isso me irrita? — murmurou, olhando para um canto qualquer.
— As crianças? É, elas fazem um estardalhaço — disse o pai dele, entendendo outra coisa. — Nem posso dizer que tu fazia o mesmo…
— Pe… pera, por quê?
— Tu sempre foste assim… — o pai sorriu, divertindo-se com algo que somente ele via.
— “Assim”…?
— É. Assim.
Ele não elaborou mais nada.