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Capítulo 64: Running Tirada Manzai Gag.

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Capítulo 64: Running Tirada Manzai Gag.

Graças à forte presença de descendentes de japoneses no município, não era raro ver restaurantes de kaitensushi e yakiniku. Alguns até combinavam tacacá com gyudon ou lamen. Pasteleiros competiam com “takoyakeiros” nas praças, e vendedores de tayaki também ofereciam dindin.

Havia apresentações de música com koto, aquela tal cítara japonesa. Tocadores de shamisen dividiam semáforos com palhaços e violeiros ambulantes. Na estrada que interligava o município à capital, havia um templo xintoísta que frequentemente organizava bingos com uma igreja pentecostal.

Visto que japoneses visitavam os parentes espalhados pela cidade, tudo tinha sinalização em katakana ou kanji. Se quisessem se sentir o mais perto de casa, havia a maior concentração de nipônicos dali: o bairro Tokaya, cujo nome fora riscado em uma pedra gigante em sua entrada. Tokaya era um trocadilho com “tocaia”.

Quem visitasse aquele bairro, veria pontinhos cor-de-rosa pelas ruas e telhados. Não eram pétalas de cerejeira, pois elas não cresciam naturalmente na região. Para contornar e trazer um efeito similar, os moradores antigos plantaram jambeiros por todos os lados. Crianças que não moravam ali, como as do bairro Jardim Pirajá ou do Urabirana, davam risada quando liam a placa “Parque Janbeiro”.

Tokaya também era o berço de figuras notáveis. Rina Kotawa, por exemplo, era uma compositora e artista de rua bem conhecida, e estava no auge dos seus 29 anos — ela frequentemente aparecia no rádio para dizer que não estava fumando maconha na pracinha de skate, ou incitando a libertinagem à juventude.

— Eles já são transviados por eles mesmos, porra! — ela dizia.

Porém, a pessoa mais importante de Tokaya, e da cidade como um todo, era Maria de Freitas Fujimura. Durante o governo de Sarney, Fujimura organizou diversos movimentos de agricultura familiar, na intenção de alimentar os moradores mais carentes. Além disso, tornou-se imortal pela Academia Guaracarense de Letras, por seus trabalhos de poesia e crônica.

Ela fundou um concurso de poesia ainda nos anos noventa, que acontece até o presente momento, deixou um governador sem palavras durante uma campanha, criou o programa de rádio Ona-Cunhã, dedicado ao mundo feminino, tinha uma estátua que ficava…

Na entrada da Escola Maria de Freitas Fujimura, obviamente. Flashes nervosos golpeavam sua face de bronze, e o atacante era um garoto particularmente animado.

— Que. Negócio. Foda!

Sim, era diferente de tudo que ele já tinha visto.

— Uniformes de marinheira!

A epítome da genialidade humana. Se o big bang formou o universo, o meteoro matou os dinos e o Jimi Hendrix largou o exército, foi para Elizabeth Lee acordar um dia, nos anos 20, e decidir revolucionar a moda das terras solnascentistas…

E moldar o imaginário otaku.

Se ele não tivesse auto-controle o bastante, já teria levantado algumas saias, igual o Yusuke Urameshi.

“Queria minha Keiko!”

Saias azuis e lenços vermelhos marchavam diante dele, imersas em todo tipo de conversa e ansiedades típicas de um novo ano letivo. Infelizmente, aos garotos era relegado a típica camisa branca e calça fina preta, com o nome da escola impresso no peito.

Para o seu consolo, todo estudante novo recebia, no primeiro dia de aula, a tão sonhada — por otakus, novamente — camisa preta de mangas longas, com aqueles botões dourados. Ele queria muito tirar uma foto e fazer inveja pros amigos de Manaus.

Sim, ele estava sentindo que ia ser xingado até sua última geração, e isso era combustível suficiente para incendiar o grupo.

— Deixa eu adivinhar… você é novo em Guaracara, né?

Uma voz estranhamente grave soou de trás dele. Virando-se, deu de cara com o rosto gráfico de Maria Fujimura. Ele levantou a cabeça.

“Esse cara é um poste?!”

Era um…

— Otakisse é uma doença? Caramba, vocês se impressionam com tudo…

— JAPONÊS?!

— Temos um Sherlock Holmes aqui — brincou o rapaz. — Não, melhor, temos um Edogawa…

— Rampo!

— É… certo, você com certeza tá nível diferente. Perdão — O poste fez uma reverência forçada. — “Otaku” não é o bastante pra você. Bem-vindo à Fujimura-gakkou, Weeb-sama!

Eles trocaram soquinhos no ombro.

— Primeira vez em Guaracara?

— Aham. Manaura de berço — disse o garoto, alongando o pescoço. Olhar para cima por muito tempo doía o pescoço. — Tô morando com o meu irmão.

— Ele é daqui? — Poste sorriu. — Deixa eu pensar… bem… não, você não se parece com ninguém que eu conheça. Ele é do Urabirana?

— Não, não! Ele vai casar com uma mulher daqui do Tokaya, mesmo!

— SÉRIO?!

O Poste-kun ficou particularmente surpreso.

— Quem, quem? Me fala!

— A Cecília Setogaya, pô!

— A CECÍ?!

Pos-chan agarrou a cabeça, claramente chocado. Ele encarou o baixinho como se o visse pela primeira vez — e realmente era, de qualquer forma.

— Tipo, a Cecília?

— Aham.

— Cecília Setogaya?

— Aham.

— Filha de Carlos Humberto Medeiros Setogaya? — Ao ouvir outro “aham”, um sorriso trêmulo rasgou seu rosto pálido.

— Ela é famosa?

O Streetlight-kun riu.

— Que foi? Vai me dizer que ela é filha do prefeito ou algo assim?

— One…

— “Um”?

— Chan.

Ele engoliu em seco.

— Minha onee-chan.

— QUÊ?!

— O certo seria “eh?”! — corrigiu Réverberè-san.

Juntos, um “Eh?!” cortou o ar com a força de um kamehameha — sim, sim, escapuliu.

— Não, sério, você tem que tá de zoeira comigo. O seu irmão, só pra confirmar… é o Nuno-san?

— Eu chamo ele de “cabeção”, mas tudo bem. Sim.

— O Nuno Yugo Dias?

— Ele mesmo.

— Você deve ser o Nathan.

Straßenlampe-senpai esfregou a mão no rosto.

— O Nathan Yago Dias.

— “O filho do diabo, raiz de todo mal, amálgama de tudo que é vil…”

— “Dos homens de bem, és ruína sutil…”

— “Maldito sejas, Nathan Yago Dias.” — Farola-chan terminou, incrédulo. — Nuno-san me mostrou esse poema. Quem foi o idiota que escreveu isso?

— Meus amigos. Meus amigos otakus, é claro.

— Claro — riu Latarnia-sama. — Tinha que ser.

Vendo que estavam fazendo uma cena, ao sentirem olhares esquisitos e risinhos ao redor deles, os dois começaram a andar rumo ao pátio da escola.

— Eu sou irmão da Cecília.

— Yoroshiku onegaishi….

— Eu não vou fazer essa porra, cara! — Ele quase caiu. — Gaitou Setogaya. Pode me chamar de Gaitou, tu já é da família…

— Espera. É sério?

— O quê?

— “Gaitou”?

— É o meu nome.

Silêncio constrangedor.

— O quê que tem?

— Nada. — Eles voltaram a andar. — Nada não, “Gaitou-san”.