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Capítulo 65: Sobre nada…

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Capítulo 65: Sobre nada…

— Você vai me apresentar a escola?

— Sim. Eu não tenho nada pra fazer — Gaitou pensou um pouco. — Na verdade, ninguém aqui vai ter o que fazer… até às uma da tarde.

— Ué?

— Aconteceu algumas coisas, e o conselho estudantil está numa reunião extraordinária com a direção e os professores — Ele coçou a nuca. — Eu faço parte do Comitê Disciplinar.

— Você é tipo um inspetor, algo assim? Um policial escolar?

— É um jeito estranho de definir, mas é tipo isso — concordou Gaitou, apontando para um certo grupinho no pátio. — Eu deveria, por exemplo, dar uma advertência pr’aqueles caras ali.

Os olhos de Nathan rolaram pelo pátio do colégio. Era bem amplo e estranhamente vazio, com chão concretado por toda extensão dele. Diferentes grupos se amontoavam em rodinhas, como ecossistemas próprios.

O que Gaitou apontou, aparentemente, era um que fumava sem pudor, jogando bitucas no chão e pisando em seguida.

— Pela sua cara, você está achando o máximo — resmungou o inspetor.

— Claro! Nunca vi delinquentes de verdade!

— Espera, sério?

— É, cara. Caso você não se lembre, nós vivemos no Brasil. Delinquentes “clássicos” só existem em escolas particulares. O que eu vi foram os zé-droguinhas, sabe? Alguns até faziam parte de algum movimento — falou Nathan, sentindo calafrios repentinos.

— Movimento social?

— Não… você nunca ouviu falar? — O garoto novo ergueu as sobrancelhas.

— É que eu nunca vi isso aqui em Guaracara, pelo menos.

“Essa cidade é o paraíso na Terra, pelo visto.”

— Presumo que tenha a ver com crime.

— Exato. São quadrilhas, organizações criminosas. Elas estão por todo o Brasil. É mais fácil o PC… digo, aqueles caras chegarem numa aldeia indígena, do que uma igreja evangélica aleatória.

— Cacete, eles são mais chatos que evangélicos?

— Waaaay more , bicho.

Gaitou estava genuinamente pensativo. Ele nunca viu criminosos barra pesada…

— Que foi?

— Aqui tem a família Shirakawa…

— Shirakawa? — repetiu Nathan. Era um sobrenome japonês comum, pelo menos no brasil. Ele esperava algo como Suzuki, Sato ou Tanaka.

— Eles são… — Ele se aproximou do ouvido do garoto. — São uma yakuza.

— NOSSA, SÉRIO?! Cara, que daora! Eles andam com katanas por aí?

— Só em cerimônias… — murmurou Gaitou, franzindo o cenho. — Tô tentando não achar que o seu conhecimento de mundo é completamente baseado em animes, cara.

— Não tente, você vai acabar ficando triste.

— Não se orgulhe disso, é estranho.

— É exótico, bicho. Outsider, tá ligado? Sou o estranho no ninho, o estrangeiro.

— Camus odiaria sair da sua boca — Gaitou balançou a cabeça.

Eles continuaram andando. Haviam garotas bronzeadas com celulares de capinha colorida, e uma delas tinha uma pelúcia da Hello Kitty nos braços; um garoto jogava God of War num PSP, e um outro rapaz solava numa stratocaster desplugada.

Nathan piscou diversas vezes.

— O cúmulo da esquizofrenia, né? — brincou o Streetlight Inspector.

— Nah. São adolescentes — Nathan suspirou, num lapso de cansaço.

— Odeio eles.

— Que diferentão você, hein? — riu o novato.

— Não me entenda errado, eu também me odeio.

— “I! Hate! Everything about you!”

— EU NÃO SOU EMO!

Nathan quase tropeçou, engasgando com o riso.

— Mas essa música é boa… — Gaitou coçou a bochecha.

— Ela é épica e triste. Boa pra fazer o tédio ficar tragável — disse Nathan, esticando os braços e os estralando no processo. — Cara, mas vocês parecem presos em 2010, hein?

— A gente percebeu muito rápido que o Tik-Tok é chato pra cacete. Todos preferem o facebook — falou Latarnia Discipline, como se fosse óbvio. — É pura dopamina, e você fica parando olhando pra um espelho que, ao perder a luz, fica negro. Você percebe que passou mais de três horas olhando pra si mesmo.

— É, mas…

— Eu sei, jogar videogame ou assistir filmes também deságua nisso, mas PELO MENOS estamos nos divertindo de verdade.

— O restante do mundo devia passar um tempo aqui — observou Nathan.

— Sabe, é meio estranho, né?

— O quẽ?

— Você — disse Gaitou, escolhendo as palavras. — Foi a primeira coisa que pensei ao ver. No entanto, você… você consegue acompanhar meu raciocínio, e eu quem estou lutando pra te entender. A gente parece estar num bate-bola interminável.

— Eu gosto de garotas.

— VAI SE FODER, IDIOTA!

— Mas eu entendi o que você quis dizer. Sinto a mesma coisa — admitiu Nathan, enquanto finalmente entravam no prédio da escola. — É como se eu tivesse encontrado um amigo do discord, só que na vida real. Isso é muito louco.

— Ei, vocês precisam deixar o texto respirar — disse uma voz cansada, que não era de nenhum dos dois. — Tem muito diálogo. Algumas narrações seriam bem-vindas.

Os dois estancaram no meio do corredor, olhando para os lados.

— Vocês não vão me achar. Não adianta girar a cabeça feito galinhas.

— Você é quem? O Príncipe do Nada, por acaso? — indagou Nathan.

— Eu não preciso de espelhos para falar. Quer dizer… eu nem consigo sair daqui.

— Ei, Gaitou — chamou o Novato, engolindo em seco. — Você tá ouvindo isso, né?

— Ele tá, mas tá fingindo que não existo.

— Ótimo, essa é a coisa mais convincente que uma voz etérea poderia dizer…

— Você não parece tão abalado. Ei, Setogaya, quem é esse esquisito?

Silêncio. Setogaya, numa atuação digna de novela das sete, pegou o  celular e começou a digitar aleatoriamente no app da calculadora, fingindo estar mandando mensagem para alguém.

— Ele não tem coração — choramingou a voz.

— E então, você é o quê? É a tela do sistema que vai me dizer que eu sou um aventureiro, ou algo assim? Não, melhor, eu vou ganhar um megazord?! ZORDON!

— Você devia estar mais preocupado em ser capaz de me ouvir, cara.

— Ué, mas o Gaitou te ouve, né? Ele acabou de me olhar de esguelha, num claro sinal de “cale-se, idiota!”.

— É, mas todo mundo decidiu me ignorar. Eu faço piada, mas isso genuinamente me deixa triste.

— Falando nisso, você tá estendendo o diálogo. Deixa a narração vir primeiro.

A voz se calou por um momento. Gaitou liberou o ar dos pulmões, voltando a andar. Nathan o acompanhou, com um sorriso trêmulo no rosto. Algumas garotas olharam para Nathan, com súplicas gritantes nas pupilas.

— Qual é o seu nome? — perguntou ele.

— Aragaki. Agaraki Zenbugatsu.

— “Todos os meses”. Seu nome devia ser Koyomi?

— É, mas a minha mãe pensou que seria muito óbvio.

— Ela é solteira?

— Ela está muito bem casada.

Os dois riram.

— Cara, você é bem legal.

— Você também. Adorei que você falou primeiro o sobrenome, depois o nome completo. É igualzinho ele.

— Eu também gosto do Koyomi.

— Mas, tipo, a sua existência é muito interessante. Você é tipo… Ah, o Gaitou vai fingir que eu não existo, enquanto eu estiver falando com você — Ele coçou a testa. Nathan não era exatamente proficiente em falar coisas realmente inteligentes fora de seminários. — Eu não sei qual é o autor, mas ele diz algo como “a existência do eu” só existir na presença do outro. Você praticamente só existe pra mim porque eu tô falando com você.

Uma pausa.

— E isso acontece com todo mundo. Todo mundo só existe pra todo mundo porque todo mundo conversa com todo mundo.

— Você é meu melhor amigo, foda-se — declarou Zenbugatsu.

— Valeu!

— Eu odeio esse cara… — murmurou Gaitou.

— Ei, eu acabei de fazer filosofia!

Cantando “lalalalá”, Setogaya voltou a ignorá-los, e os dois continuaram seguindo ele.