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Capítulo 66: …Sobre tudo.

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Capítulo 66: …Sobre tudo.

— Ei, a gente precisa pensar em alguma coisa.

— Jura? — resmungou Gaitou.

— Tem alguma ideia?

— Se eu tivesse, eu não estaria encarando o papel, estaria?

— Tem razão…

— Maldita professora…

Era a primeira aula do primeiro dia de aula. A disciplina? Português. A professora, com uma cara de poucos amigos, havia entrado na sala com passos fundos, sentando com força na cadeira. Ela ergueu o rosto para os alunos, e mandou que escrevessem um texto.

— Que texto? — perguntaram.

— Qualquer coisa, desde que tenha quatro parágrafos. Não, melhor, três parágrafos. Início, meio e fim.

— E o tema, professora?

— Argh… — ela esfregou a própria cabeça. — Qualquer coisa. Sim, qualquer coisa. Agora escrevam, por favor.

E era o que eles estavam tentando fazer.

Gaitou encarou Nathan, esperando que o garoto se desesperasse. Afinal, ele mesmo já estava assustado o suficiente com a perspectiva de escrever um texto assim, de repente, sem preparação alguma.

No entanto, como se zombasse dele, Nathan estava rabiscando freneticamente.

“Esse bastardo… ele tá escrevendo, mesmo?”

Estava.

— Terminou? — indagou Gaitou, tentando ao máximo manter um tom neutro em sua voz.

— Sim! Se liga.

Nathan mostrou o texto.

Sobakasu: entre sardas e cicatrizes.

Sobakasu é o tema de abertura do anime Rurouni Kenshin, conhecido aqui no Brasil como Samurai X. A música nunca teve uma versão em português, mas a melodia e a entrega vocal da cantora fazem o ouvinte sentir a melancolia resignada do eu-lírico.

Sobakasu, traduzido literalmente, significa “sardas”. A letra retrata as sardas como cicatrizes, signos que remetem à lembranças de um amor antigo. O eu-lírico, com carinho, percebe que está começando a aceitar as coisas como são, ainda que sinta tristeza. Afinal, se tudo que é bom acaba, ao final só resta o rótulo de “ruim”.

Dessa forma, a letra de Sobakasu dialoga bastante com o tema do anime, pois Kenshin era o lendário, temido e ambivalente Hitokiri Battousai, o “retalhador de homens”, com uma cicatriz em forma de xis no rosto. Kenshin realmente teve um amor, muito tempo atrás…

Gaitou piscou diversas vezes.

— Tá, pera aí. Me dá um segundo.

— Te inspirei? — brincou Nathan.

— Cala a boca, pera aí.

Latarnia-sama se voltou para o próprio caderno e começou a rabiscar. Nathan assistiu, sorridente. A letra do amigo era tão miúda que ele nem tentou ler por cima. Três ou quatro minutos depois, Gaitou destacou a folha e estendeu para Nathan, como quem entrega um decreto real.

O manaura balançou a folha, deixando-a reta.

A melancolia que só Deus sabe.

God Knows é uma música temática do anime Suzumiya Haruhi no Yuutsu, cujo título poderia ser traduzido como “a melancolia de Haruhi Suzumiya”. É uma música que retrata, em certo sentido, os sentimentos da própria Haruhi.

Haruhi é uma garota excêntrica, incompreendida por praticamente todas as pessoas ao seu redor, exceto por Kyon, o protagonista. Ela faz coisas que ninguém entende, e é tão sincera que chega a ser rude. No entanto, seu desejo mais profundo é de vencer o tédio que um adolescente, precocemente consciente da realidade em que vive, passa a guardar em si.

God Knows fala de lealdade aos sentimentos e da dificuldade de se abrir para o outro, numa contraposição direta ao desejo de ser compreendido. É o momento em que Haruhi de fato foi sincera com todos, especialmente com Kyon.

— Tu assistiu Haruhi? — foi a primeira coisa que Nathan conseguiu dizer.

— Sou fissurado.

— Caralho, irmão. Tu é daora, mesmo.

— Bora entregar?

Nathan nem precisou responder. Eles se levantaram, caminharam até a mesa da professora e puseram os papéis em cima do tampo. A mulher lentamente ergueu a cabeça, que apoiava nas mãos, olhou para eles. Parecia meio perdida.

— Alguma dúvida? — perguntou ela.

— Não. Terminamos o texto.

— Mentira.

Eles riram, trocando olhares.

— Vocês usaram chatgpt? Deepseek? Antropic, algo do tipo? Gemini?

— Não, professora. — Gaitou mostrou os bolsos da calça. Estavam vazios. Ele foi até a mesa, tateou o fundo dela e depois pegou a mochila. — Eu nem trouxe o celular.

— E você? — ela se voltou para Nathan.

O garoto tirou o smartphone do bolso, mostrou a tela para ela e apertou o botão de liga/desliga diversas vezes. Nem uma luz apareceu.

— Descarregado — murmurou ela, como se não pudesse acreditar. — Certo. Deixe-me ler esses…

Ela pegou o texto de Gaitou. Ela aproximou o papel do rosto, como se estivesse procurando micróbios num parágrafo. Ela encarou gaitou, ergueu a sobrancelha e balançou a cabeça. “Interessante, interessante de verdade” parecia dizer a expressão dela.

O de Nathan…

Ela piscou diversas vezes, franzindo o cenho. A mulher coçou a bochecha, crispando os lábios. Esses garotos, de onde eles saíram, hein?

— Nathan Yago Dias — murmurou ela, como se o nome fosse estranho.

— Senhora?

— Você relacionou sardas com cicatrizes.

— É, professora! — disse ele, subitamente animado. — Se a senhora pensar na definição de cicatriz, verá que se resume a uma “marca”. Uma “marca” deixada por uma ferida. E sardas? Elas surgem depois da exposição ao sol, certo? Acúmulo de melanina!

Havia um brilho estranho nos olhos dele.

— Cicatrizes, no fim das contas! E as pessoas associam cicatrizes aos momentos que viveram com elas, principalmente de quando as conseguiram. No caso das sardas… — Ele olhou para as garotas atrás deles. — Alguns têm relações difíceis com elas. Algo semelhante acontece com o Kenshin!

Alguém tinha que pará-lo, mas quem? As mãos dele pareciam besouros voando no ar, agitadas, acompanhando o ritmo dele.

— Ele tem toda aquela questão da revolução Meiji, honra samurai, a Tomoe e a espada sakabatou que ele usa! Se você olhar bem, uma espada com lâmina invertida é uma arma apontada para o portador! — Ele fechou os punhos, um em cima do outro, como se estivesse com uma. — Sempre que ele corta sem cortar alguém, está cortando a si mesmo! E a cicatriz na bochecha…

— Certo, certo, eu já entendi — disse a professora. Ela rabiscou alguma coisa no canto da folha. — Toma um dez aí. Está dispensado. Só não corra nos corredores, por favor.

Ela pegou o texto de Gaitou também, com o mesmíssimo movimento.

— Dez pra ti também. Podem ir.