Capítulo 67: Sou eu, Bola de Fogo…
Capítulo 67: Sou eu, Bola de Fogo…
— Caaaara, não tem nada pra fazer, hein?
— A gente poderia dar um tour pela escola, né? — sugeriu Gaitou, sem muita convicção.
— Nesse calor? Que tá de matar, por sinal…
Gaitou suspirou. Ele tinha razão.
— Cara, essa porra de El Nino é um caralho, mesmo.
— E o pior não é nem isso — falou o garoto de penteado de cuia. — Pior é não ter como se refrescar. A biblioteca está fechada, pois a bibliotecária e os voluntários estão catalogando livros novos, e a sala de música também, porque estão fazendo reparos e ajustes nos instrumentos.
— A gente poderia ir pra casa, então — falou Nathan, enquanto caminhavam pelo corredor central.
— Mas ainda tem as outras…
Um chiado estridente cortou o silêncio da manhã.
— Aqui é o vice-diretor Rodrigo Juliano falando. Assim que a campa soar o fim das primeiras aulas, todos estarão dispensados. Os professores terão uma reunião pedagógica.
— Parece que estamos com sorte — brincou Gaitou, e um canto de sua boca se moveu para cima.
— Vamo nessa, então.
— Posso ir com vocês? — indagou alguém. Alguém, não, aquele cara que não tinha corpo.
— Zenbugatsu? Tava cabulando aula, é, safado?
— Não, não — riu o ser incorpóreo. — Eu sou da turma de vocês.
Ambos piscaram.
— É sério. Ah, sim, verdade, vocês não sabem, mesmo. A professora considerou o texto como presença na aula.
— Mas eu nem te vi entregar nada — falou Nathan, franzindo o cenho.
— Muito engraçado — disse Zenbugatsu, ressentido.
— Foi mal. Falando nisso, como tu entregou o texto?
— Entregando…?
— Não, manézão, tô perguntando sobre como tu fez. Tipo, cê não tem braços, né? Tu nem tem corpo, na real. Como diabos escreveria um texto? — Nathan gesticulou para o ar, exibindo os braços. — Você é tipo um poltergeist ou algo do tipo?
Gaitou, em silêncio, balançou os ombros. Quase deixou escapar uma risada.
— Ah, já sei, tu pediu pra alguém escrever!
— Isso, gênio. Foi isso que eu fiz.
— Pra quem?
— Pra mim — disse uma quarta voz. — E sim, eu tenho corpo.
Gaitou e Nathan se viraram, dando de cara com um rapaz pequeno. Ele tinha cabelos tingidos de um vermelho vibrante, quase como fogo. Sua pele era clara, entre o pardo e o branco, e tinha uma cara meio cansada.
— Aragaki Kaiko, irmã mais nova desse estrupício — disse ele.
— Caraca, que legal… espera — Nathan ergueu as mãos, como se empurrasse portas duplas. — Irmã mais nova? Não, não, “irmã”?
— Sim, idiota. Irmã.
— Mas você… — ele olhou para as roupas “dela”.
— Ah, isso? — ela puxou o gakuran. — É o uniforme dele.
— Ele não tem culpa, maninha — disse Zenbugatsu, rindo. — A narração te introduziu como “rapaz”.
— Narração?
Ignorando a pergunta dela, eles voltaram a andar. Kaiko os alcançou, e os quatro saíram da escola. O calor do asfalto lambeu os rostos deles, e eles sentiram, por um momento, que era melhor voltar para sala.
A rua era uma ladeira, e Gaitou, subitamente, deixou-se cair um pouco para frente.
— Droga.
— Que foi? — Nathan ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Minha casa fica na estrada. É um sítio.
— Putz… pior que é lá na caixa prega… — murmurou o manauara, coçando a nuca. — Do outro lado da cidade, praticamente.
Antes que o desânimo viesse, Nathan sentiu algo estranho. Foi como se algo tocasse seu ombro. Não, “alguém”. Ele instintivamente virou a cabeça para o lado, não vendo ninguém.
— O que…
— A gente pode ir pra minha casa, então — falou Zenbugatsu, sua voz ainda sem corpo, mas estranhamente próxima.
— Vamo lá, então.
“Ele tocou o meu ombro…? Como?”
Eles foram descendo a ladeira. Como estavam todos suando como porcos, e ninguém se sentia muito a fim de falar e correr o risco de ficar com sede, Nathan pegou o celular, abriu o Larp Player e deixou tocar um álbum.
Nevermind the Bollocks…
— Agora sim… — suspirou ele.
— Curte Sex Pistols? — perguntou Kaiko, se aproximando.
— Uhum. Clash, The Stooges, Damned, Ramones, Gang of Four e outros.
— Maneiro, maneiro — ela riu. — Tá vendo, mano? Isso aqui é bom gosto.
— É só barulho — reclamou Zenbugatsu. — Minha vibe é mais…
— Madonna — sussurrou Kaiko para Gaitou e Nathan.
— Ei!
E riram.
Minutos depois, eles chegaram na casa dos Aragaki. Era uma residência modesta, com diversos vasos cheios de cactos e samambaias enfeitando o caminho do portão até a porta da sala.
Kaiko tirou a chave do bolso e abriu.
— Mãe! Chegamos!
— Mas, já? — devolveu a mulher, gritando do quarto. — Não era o dia todo?
— O diretor dispensou a gente!
— Que vida boa, hein? Vida boa… — disse ela, aparecendo no corredor. Era uma mulher de rosto sem rugas e sorriso fácil, os cabelos presos num rabo de cavalo frouxo. — Amigos?
— Sim, os dois da mesma sala — respondeu a menina.
— Ótimo. Achei que ia ter de comprar amigos pra ti — brincou a senhora.
Nathan engoliu em seco.
— Ei, Zenbu… não me diga que só a gente sabe que você existe… — murmurou ele para o “nada”. — A sua mãe só tá falando com a Kaiko…
— Zenbu, traz o bolo que tá na geladeira — interrompeu a senhora, animada. — Acho que ainda temos suco, traz ele também!
“Ufa, que ótimo!”
Em pouco tempo, a mesinha da sala tinha um bolo de chocolate e uma jarra de suco de laranja. Kaiko, Nathan e Gaitou sentaram no sofá, enquanto a dona de casa ficou na poltrona à direita da mesa. Zenbugatsu, aparentemente, ficou na oposta.
A senhora serviu pedaços generosos para Nathan e Gaitou, e eles se deleitaram.
— Planos para a tarde? — perguntou ela, sorridente.
— A gente não pensou muito — disse Gaitou, enxugando a testa. — O calor não deixou.
— Pois é… esse tal de El Nino tá que tá, hein? — riu a mãezinha. — Bem, já que estão aqui, vocês sabem da condição do meu filho, né?
— Sim, sim, sabemos… — Ele trocou um olhar com Nathan.
— Ele pensa em dar um jeito, e esse “jeito” é parte do motivo para ele ter se matriculado nessa escola.
— E… E qual seria, senhora Aragaki?
Ela se inclinou para frente, como se fosse confidenciar um segredo de estado.
— Espera, espera… é aquele… aquele…
— Aquele clube, sim — disse a senhora.
— Que clube? — perguntou Nathan, inocente.
— Ocultismo.
A temperatura pareceu cair, por um segundo.
— O clube de ocultismo.