Capítulo 68: Não é em Itapoã, mas é tarde.
Capítulo 68: Não é em Itapoã, mas é tarde.
Setembro realmente era um inferno.
— Parece que minha cabeça tá cozinhando — reclamou Nathan, a testa reluzente.
— Então! Cara, maldito seja tudo! Não sei o que é pior: minha casa ser longe pra cacete, ou esse calor maldito — Gaitou, arrastando os pés, suspirava pesado. — Sério, se eu soubesse que ia ser tão quente, teria pedido um Uber.
— E por que não pede?
— Esqueci de pedir dinheiro dos meus pais. — Os ombros de Gaitou caíram.
— É foda. Eu também esqueci. Nem pensei em vir de bike…
Gaitou ergueu as sobrancelhas.
— Você tem uma bicicleta?
— Sim. Uma Caloi amarela-preta, sabe? Aquelas de marcha.
— Não, sério, você tem uma bicicleta? — insistiu Gaitou.
— Sim, sim, eu tenho.
— Por que diabos estamos a pé, então?
— Por que eu esqueci? — devolveu Nathan.
Gaitou estremeceu.
— COMO DIABOS VOCÊ ESQUECEU?
— Olha, Gaitou, as pessoas esquecem as coisas — falou o Manaura, dando de ombros e enfiando as mãos nos bolsos.
— Ah, sim, claro, claro que esquecem. As pessoas sempre esquecem um veículo de transporte, é normal.
— Você tá fazendo tempestade em copo d’água, cara.
— Seria MARAVILHOSO se eu tivesse um copo d’água pra fazer isso, idiota!!
Gaitou abriu dois botões do gakuran, sentindo o peito ficar livre para se expandir melhor.
— Como você pode estar tão calmo?
— Eu não tô calmo. Eu não tô calmo de jeito nenhum — disse Nathan, rindo sem graça. — Também tô irritado comigo mesmo.
— Bom… mas é impressionante. Você veio andando pra escola, e só percebeu agora?
Nathan piscou algumas vezes, e Gaitou sentiu as sobrancelhas quase voarem da testa. Ele apertou os lábios.
— Não me diga…
— Eu realmente só percebi agora — confessou Yago Dias.
— Isso nem é desatenção. Isso é um poder. Quem é você, o Capitão TDAH?
— Para a sua informação, eu nem sou laudado…!
Mas ele desviou o olhar.
— Ainda, pelo menos.
— Lamentável… — murmurou Gaitou, balançando a cabeça. — É em momentos assim, em que a gente revê todas as nossas ações, que a vida parece uma piada.
— Sim, e uma de muito mal gosto… por diversas vezes — concordou Nathan, ajeitando a mochila nas costas. — Uma simples ação, como esquecer uma bike, te faz escorregar no tobogã espiralado da autocomiseração.
— Eu não gosto dessa palavra.
— Autocomiseração? — Ao receber um aceno positivo, Nathan inclinou a cabeça. — Por que?
— Meus pais são religiosos. Tipo, cristãos… daquele tipo bem… sabe?
— É, acho que sei.
Eles continuaram andando. Aquela rua, para o alívio deles, tinha um teto natural. Benjaminzeiros ladeavam a passagem, como sentinelas impassíveis.
— Aquela coisa de murmurar, né?
— Isso. Tu é cristão?
— Do tipo mais desviado possível, mas sim — riu Nathan, o sorriso largo.
— Ah, sim. Não costumo falar tanto. Desde que falei demais, um tempo atrás, percebi que nem tudo que você pensa é bom ser dito.
— Relaxa, eu não vou puxar uma bíblia aleatória e te passar um sermão da montanha ou algo do tipo.
— Isso é reconfortante — Gaitou olhou para a copa das árvores. — Porque, sabe, as pessoas são muito apaixonadas pelas coisas em que acreditam, e isso é meio chato. Por estarem tão apaixonadas, essas coisas impregnam o senso comum delas.
Ele coçou o nariz.
— Acaba que, se você não pensa o mesmo, ela imediatamente te acha errado.
— Isso é uma droga, mesmo. Eu mesmo gosto muito de… bem, anime, né? Eu adoro anime. Se alguém me diz que não suporta animes, a minha primeira reação é de pensar que “essa pessoa não sabe de nada”! — Ele riu, apreciando o frescor da sombra. — Mas isso é só eu falando. A pessoa pode ter outro interesse, talvez até um que eu ache imbecil.
Ele olhou para Gaitou.
— E talvez, eu quem não sei de nada, para ela.
— Tudo é relativo, mas as pessoas tomam como absoluto — murmurou Gaitou.
— É. No entanto, ao mesmo tempo em que é ruim estar preso em certezas rígidas, também é perigoso ficar preso ao relativismo. O próprio relativismo pode virar uma certeza absoluta, de certa forma.
— Acho que não — Gaitou parou de andar. O freio não foi apenas teórico. — Não tem como o relativismo ser absoluto. A própria definição dele não permite isso.
— É mesmo? — brincou Nathan.
— Sim. Uma coisa relativa é uma coisa dependente, seja de alguém, de algo, do tempo ou… enfim. Algo que não é algo por si mesmo não pode ser único e, por consequência, absoluto,
Eles se sentaram num banco.
— Não tô dizendo isso só porque eu acredito nisso, ou por que sou niilista…
— Gaitou, tu é niilista.
— Tá, tá, eu sou.
— Um emo niilista, talvez.
— Aí não!
Eles riram.
— Mas não tem como eu não ser.
— Não tem? — Nathan pareceu curioso.
— Não. Sou um tipo muito específico de idiota. Penso demais.
Ele bebeu um gole de sua garrafinha.
— Sempre achei as pessoas complicadas. Convenções, contratos sociais. Regras não ditas. As pessoas inventam coisas e se prendem nelas. É tão idiota, tão fútil… — Ele ergueu as mãos, as palmas viradas uma para a outra. — Religião, filosofia, política, tudo é balela. Não quer dizer nada. Absolutamente nada. A única verdade nessa vida é que não existe verdade nenhuma. Somos apenas galinhas que, por ter asas, pensamos que podemos voar.
Ele riu.
— Aquele cara, o Camus. Ele tava certo.
— Você leu Camus?
– Vi um vídeo… não importa. O ponto aqui é que, como ele disse, a única questão importante da filosofia… Não, da própria racionalidade humana, é o suicídio.
— “Para quê existir?”
— Isso. Eu nunca estive tão perto da borda quanto estou agora, mas nunca estive tão lúcido.
Ele parecia uma torneira com o registro quebrado.
— Eu vejo as coisas como elas são, e elas não são nada. Absolutamente nada. Não há sentido. Nós quem damos sentido. Nós quem atribuímos sentidos. Nós quem vemos coisa onde não tem.
Nathan piscou algumas vezes. Ele realmente estava numa espiral descendente, mas deixou continuar.
— História? Para quê? Não repetir os erros do passado? Grande coisa. As coisas vão se repetir. Seja capitalismo, comunismo, anarquismo, o que for… São apenas ismos. Ideologia… Uma penca de viéses de confirmação pra legitimar poder.
Ficando preocupado, de repente, ele deu um sorriso sem humor.
— Não que eu seja isentão, mas… Nunca saberemos a verdade, porque não há verdade nenhuma pra saber. O suicídio é real. Se nada é nada, pra quê ser? Ser ou não ser? Shakespeare é um gênio, mesmo…
— E, como o próprio Shakespeare disse… — Nathan pigarreou, interrompendo o fluxo. — Ou melhor, como o rei Hamlet disse, “há mais entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia”.
— “Rei” Hamlet?
— Você leu a peça?
— …Não.
— Como você disse, “lamentável” — imitando o gesto que Gaitou havia feito, Nathan balançou a cabeça.
Uma tarde de abobrinhas, depois de tudo. A epítome da adolescência introvertida.