Capítulo 69: Gaitou e o Passado.
Capítulo 69: Gaitou e o Passado.
O poente tingia a estrada de laranja, esfriando a chapa negra que era o asfalto. Caminhões, carros e motocicletas, num vaivém indefinido, escapavam de se chocar uns nos outros. Eram o único vestígio de civilização.
O motivo? Não importava para onde olhasse, aos olhos de Nathan só restaria mato. Mato, mato e mato. Havia todo tipo de árvore crescendo, seus troncos parcialmente submersos no rio. Havia algumas partes com terra, onde bois e cavalos pastavam.
Um homem e seu filho, com roupas puídas e chapéus de palha, estavam sentados numa canoa, pescando nas águas perto do arco que a ponte, mesclada ao asfalto, se erguia sobre a água.
Nathan sorriu.
Pelo pouco que conversou com Gaitou, percebeu que ele era um rapaz mal resolvido com bastante coisa, assim como ele. Seus problemas pareciam envolver decepções acumuladas, tornando-o tão amargo como estava.
Podia não parecer, mas ele realmente era um cara legal. Apesar das coisas que ele disse, Gaitou foi o primeiro amigo que fez naquela cidade. Claro, a irmã mais velha de Gaitou, Cecília, era cunhada de Nathan, e isso com certeza influenciou em alguma coisa.
Independentemente disso, Gaitou genuinamente queria estar ali, andando e jogando conversa fora com ele, inclusive fazendo perguntas.
— Tu tem namorada?
— Não — o manaura suspirou. — Nunca tive sorte com romance.
— Sério?
— É. É quase como se fosse uma maldição. Acho que minha futura esposa tá rezando pra que eu não tenha ninguém.
Gaitou riu.
— Mas, tipo, você já tentou arranjar alguma? Eu nunca tive coragem — confessou o rapaz.
— Se eu tentei? Cara, eu coleciono uma porrada de foras — Nathan olhou para o crepúsculo. — E é sempre a mesma coisa.
— A mesma coisa?
— É. “É que você é um bom amigo.”
— Cacete. Friendzone é um negócio sinistro — Gaitou estremeceu. — Elas gostam de você enquanto amigo. Isso é legal. É melhor do que ser odiado, né?
— Bem… — Nathan suspirou. — É foda.
Eles caminhavam lado a lado, e o vento, vindo da direita, balançava o cabelo desgrenhado de Nathan. Havia algo de dramático naquilo.
— Sabe por que?
— Por que você nunca vai ser uma opção? — chutou Gaitou.
— Também, mas não é só isso. Além de não ser uma opção, você ouve tudo sobre as opções dela. Ouve quem é o gato da semana, o cara que faz ela querer o que você nunca vai ter com ela. — Havia um quê de frustração em sua voz. — Ela também te diz quem é o merda que tá irritando ela. Qual é o ex chato. E se fosse só isso, tava de boa.
Ele deu um soco no ar, como se quisesse atingir um rosto.
— O problema é que, num dia, ela te diz que nunca vai voltar com ele. Em hipótese alguma. Um dia depois, ela posta nos status uma foto das mãos entrelaçadas, e uma legenda tipo “o amor cura”. E ela nunca mais fala com você.
— Cacete, viado. E aí?
— Um mês depois, ela te liga de madrugada… chorando.
Gaitou fez o possível para segurar a risada, em respeito ao cara.
— E você atende — Não foi uma pergunta.
— Como tu sabe? — disse Nathan, deixando a surpresa escapar.
— Não sei. É a sua cara atender. — Ele deu um empurrãozinho no ombro do amigo,
— Bem, eu atendo, sim. Apesar de não querer, eu me importo com ela. Essas garotas… elas não são ruins. Quer dizer… a maioria não é… não, pera… algumas. Algumas não são.
— Tu ainda gosta dela?
— Não sei.
As sobrancelhas de Gaitou se ergueram.
— Como assim?
— É, tipo… eu gosto dela. Isso é verdade. Não minto, quando digo que gosto. Mas… — Ele inclinou a cabeça, os olhos perdidos. — É como se faltasse alguma coisa.
— Tipo um vazio?
– Isso! Apesar de gostar dela, de atender, consolar, abraçar, passar um tempo… tudo é muito vazio. Um sentimento vago. Como se não estivesse certo.
— Eu sei.
— Um?
Gaitou sorriu. Um sorriso fraco.
— Eu acho que sei como é. Eu vivi algo assim.
Os passos dele perderam velocidade.
— Sabe… você já teve amigos de infância?
— Já. Muitos. Não falo com noventa e nove por cento deles.
— Então. Eu tinha uma amiga… — Por um momento, ele quase viu os olhos dela diante dele. — Ela era desastrada. Era quietinha, bem miúdinha, mesmo. Ela era muito fofa, também. Aquele vestidinho florido, as bochechas rosadas, o rosto pequeno. Era a coisa mais adorável do mundo…
— Ok, eu já entendi, ela é o seu amor de infância — brincou Nathan.
— Sim, ela é. Ela chorava bastante, por ser desastrada. Além de esquecer facilmente dos materiais dela, das tarefas da escola ou de casa, ela sempre demorou muito aprender as coisas. Ela foi a última criança da minha turma a aprender a escrever o nome, por exemplo.
Nathan riu, e Gaitou fingiu indignação.
— Ela vivia chorando escondida, e isso me doía demais. Foi quando decidi ensinar tudo que eu sabia. Tudo, tudinho. E ela aprendeu — Os olhos dele brilharam, por um instante. — Por um milagre, tudo que ensinava, ela aprendia. Em pouco tempo, ela sabia tudo que eu sabia.
— Caraca, isso é legai. Tipo, você foi um Obi-wan pra ela! — Nathan juntou as mãos, como se tivesse um sabre de luz entre elas.
— Incrível como tu consegue acertar… do jeito mais torto possível.
— Hã…?
Gaitou tomou a dianteira e, se virando, começou a andar de costas.
— Foi exatamente isso que aconteceu.
— — —
Entre o bambuzal e a beira do rio, no início da noite…
Coração cinza
Flutua rumo a lua
Pedra no rio
— Vou chamar de Pulso.
Uma garota de cabelos castanhos, vestindo um hakama, sentada na grama, relia seu haikai.
— Queria tanto que ele pudesse ler…
Mas ele não poderia. E a culpa era dela. Sempre dela. Ela, que tirou tudo dele e, como se não bastasse, ainda queria seu coração.
Ela se levantou, o caderninho apertado junto ao peito. Ela finalmente estava de volta a Guaracara. Sua temporada no Japão foi boa. Vencer o torneio de kendo foi legal, conhecer Akihabara também.
Ela achou que, se fosse uma campeã, teria coragem de vencer o muro que ele construiu entre eles. Não foi o que aconteceu.
Seu destino era uma pedra à deriva no rio…