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Capítulo 70: Kagamine Carla.

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Capítulo 70: Kagamine Carla.

Oi. Eu sei que foram só dois anos longe de você, mas pra mim pareceu uma eternidade. Sinto que não sou mais a mesma pessoa que você conhecia. Na verdade, eu não tenho sido a sua “Carla” desde algum tempo, até antes de viajar para o Japão.

Tenho pensado bastante na vida, desde que ganhei o torneio de kendo. Olha essa frase! Se você me dissesse que eu diria isso, em algum momento no futuro, eu ia dizer que você estava mentindo. Sério.

Agora, porém, ainda parece surreal. Aquelas horas que passei repetindo katas, cortando o ar com minha shinai, ainda estão vivas na minha memória. Eu ainda sou a garotinha assustada que você treinou…

E, ao mesmo tempo, não sou mais.

Eu não gosto mais de Hello Kitty, não gosto mais de Kate Perry, minha cor favorita é preta, não vermelha. Eu odeio a Sabrina Carpenter, e adoro a Madonna — ok, talvez isso tenha a ver com você, mas vamos ignorar isso.

Você se lembra de mim como a garota chata que vivia te zoando, né? Você nunca mais me olhou com aqueles olhos… olhos de carinho, afeição. Eu via dor em você, e isso só servia pra me irritar. Eu nunca consegui lidar com o que sentia por você.

No começo, minha gratidão era muito grande. Eu diria que você era a pessoa mais importante pra mim, naqueles tempos. Parece que foi uma vida atrás. Você me ensinou tudo que eu sei. Era quase escravidão, mas você me tratava como rainha.

Não sei quando, mas sei que, em dado instante, pensei que eu não era nada sem você. Minha existência estava atrelada à sua, e eu dependia inteiramente de você. Parecia bonito. Achei que isso era amor.

Porém, comecei a temer que…

Que você fosse cansar.

Se os professores não tinham paciência comigo, nem meus pais tinham esperança no meu futuro, por que você seria diferente? Mesmo que eu quisesse, e muito, pensar o contrário, minha mente me traía. Não conseguia afugentar o medo. E esse temor, ele virou uma certeza.

Uma verdade infundada, mas, fundamentalmente, uma verdade. E, por isso, me afastei. Eu lembro da sua reação. Você tentou ir atrás de mim, tentou saber o que acontecia comigo. Até o fato de você tentar me entender…

Até isso me irritava.

Eu não queria ser compreendida. Não, eu queria ser vista. Queria ser alguém, como todo mundo. Não queria que ninguém mais precisasse estender as asas para mim. Queria ser eu sozinha. Eu tenho asas, por que não poderia?

Ser a pessoa com quem você se importa não era mais suficiente. Eu queria inverter os papéis. Queria ser aquela que te faz se sentir pequeno, e gostar disso. Queria ser aquela que te faz se sentir estranho, e dormir pensando no meu rosto.

Treinei, treinei como uma condenada. Balancei minha espada de madeira como se a minha vida dependesse disso. Queria, desesperadamente, superar você. Ser melhor. E eu tentei, tentei tanto, mas tanto, que…

Que, por um momento, esqueci porque diabos comecei com tudo isso.

Pus uma venda em mim. Fiquei cega. Você tem todo o direito de me odiar… mas, infelizmente, você não consegue. Você é bom demais pra odiar alguém, e é por isso que eu… ah, eu vacilei muito contigo. Sempre fico mal, quando me lembro.

Eu te chamei para aquele duelo. Lembra? Aquele em que te venci em três movimentos. O Tsubame Gaeshi. Aprendi no Youtube, nem sabia se ia funcionar. Quando te vi ajoelhado no chão, me senti… feliz.

E assustada. Primeiro, fiquei alegre por finalmente ter conseguido o que queria. Veja, meus treinos renderam alguma coisa, depois de tudo. Trabalhei duro para isso. No entanto, o jeito como você me olhou…

Triste. Você ficou triste. E eu não entendi, no momento. Por que você estava triste? Eu te superei suas expectativas! Fui melhor! Por um segundo, eu estava acima de você! Por que isso te faria me olhar assim?

Do jeito como eu estava, pensei que tinha machucado seu ego. Pensei que você me via como inferior, e que ser vencido matou a graça da coisa. Nossa, eu deturpei tudo. Pensei o que queria, e joguei isso em cima de você.

Falei mal de você pelas costas. Falei que você era um otaku fedido, que assistia anime de garotinhas mágicas e poderzinhos. Falei que você era um garoto e, ainda assim, ouvia Madonna. Falei que você era medroso, e que homens de verdade não perdiam pra mulheres.

Eu quis te machucar. Sim, eu admito. Tudo por causa de um mal entendido que eu mesmo causei. Fui idiota a esse nível. E, como se não pudesse piorar, a sua família começou a passar por momentos difíceis.

O dinheiro apertou, por conta da sua avó, que descobriu aquela doença rara. Parecia que grana nenhuma sustentava o tratamento dela. Você começou a emagrecer tanto, mas tanto, que parecia uma vareta com cabelo.

Ao invés de te ajudar, eu continuei te zoando. Falei mal da sua roupa, dos seus sapatos surrados, da sua mochila rasgada. Até do seu celular eu falei. Disse que você nunca iria ter um Iphone nas mãos. Disse que você era tão sujo quanto um cachorro.

Ao invés de raiva, reação, gritos, revanche ou qualquer coisa assim, o que recebi de você foi… nada. Nada. Você nunca rebateu nada do que eu disse. Você só baixava a cabeça e seguia andando, enfiando os fones no ouvido.

Achei que você tava se fazendo de durão, que tava me ignorando só pra pagar de maduro. Porém, nunca chegou o dia em que você me enfrentou. Você se afastou tanto que parecia haver um mar entre nós dois.

Senti que estava me afogando na minha própria imbecilidade. Nem sabia mais o que queria. Me perdi completamente. E, como um marinheiro em alto mar, sem jangada ou bote, recebi uma boia. Minha tia queria me levar pro Japão.

Eu aceitei. Queria ir pra Terra do Sol Nascente, e nascer junto com ele, pra ver se via as coisas com mais clareza e entendesse o que devia fazer. Chegando lá, imaginei que ia ser bem recebida. Idiota. Me chamaram de Kuso Gaijin o tempo todo. “Estrangeira de Merda”, basicamente.

Sem amigos, decidi entrar no clube de kendo. Só me sobrou a espada. E, novamente, dei tudo de mim. Meus dias se resumiram a balançar aquela maldita shinai. A capitã do clube me inscreveu no torneio regional, e eu lutei.

Venci todos, e me tornei a campeã. Cheguei no topo. E havia mais topos pra alcançar. Nacional, internacional. Poderia disputar com os melhores. Poderia ser tudo, e tudo… tudo isso não passava de um grande nada.

Havia perdido o sentido. Havia perdido você. Por isso, eu voltei…

Mas será que voltaremos?