Capítulo 71: Irmã mais velha.
Capítulo 71: Irmã mais velha.
Ele era um garoto tímido.
Ele era a criança que ficava na ponta do playground, vendo as outras voarem no balanço, descendo pelo escorrega, brincando de esconde-esconde. Ninguém brincava com ele, porque ele era…
Ninguém sabia dizer o que ele tinha. O garoto simplesmente era muito estranho. Sua pele era muito clara, seus cabelos muito negros. Seus olhos eram poços de escuridão, e seus lábios eram estranhamente pequenos.
Ele se sentia um estrangeiro. Sentiu e entendeu isso quando, sentado no banco da praça, prestou atenção na música que tocava no bar da esquina.
Eu me sinto um estrangeiro Passageiro de algum trem Que não passa por aqui, Que não passa de ilusão
Aquelas palavras… ele nunca as esqueceu. Ele ia repeti-las enquanto fossem verdade, o que parecia ser para sempre. Quando chegou em casa, ele pediu à sua irmã mais velha que procurasse pela música.
— Puxa, Humberto Gessinger?
— Quem? — indagou o menino.
— Esse cara aqui — ela digitou no computador e virou a tela. — Esse mestre aqui. O grande Humberto Gessinger.
E pronto, bastou isso. Foi o suficiente. Daquele dia em diante, o menino se fissurou nos Engenheiros do Hawaii. Era muito legal. Devorou todos os álbuns em um único dia. O seu interesse, evidente aos pais e à irmã, não se restringiu à música.
Por conta própria, decidiu começar a ler. Pedindo orientação da irmã, que era a maior leitora que ele conhecia, começou a ler contos de fada. Irmãos Grimm, os Contos da Mamãe Gansa, Charles Perrot.
Depois deles veio O Fantasma da Ópera, que ele teve de reler três vezes para entender a trama — e decidiu, arbitrariamente, que Christine Daaé era uma grande duma idiota. Leu Frankenstein, que o fez se interessar por filosofia.
Drácula foi particularmente divertido, em especial a descrição feita de sua chegada à cidade de Whitby. Achou tão épico que quis decorar frase por frase, palavra por palavra. Não conseguiu. Porém, ao fazer isso, percebeu que tinha muito o que dizer.
O que ele pensava das histórias, dos personagens, do mundo em que viviam, das comparações que fazia daquelas fantasias com a realidade, tudo pululava, pulsava em vontade de escrever.
Infelizmente, a família Setogaya, especialmente seu avô, tinha uma ideia bem clara do que queria como interesse primário dele: kendo. Queriam que ele balançasse um pedaço de madeira, mesmo no interior do estado do Amazonas.
— Para preservar nossa memória — disse o avô, quando questionado.
Ainda que fosse por uma boa causa, que ele nem achava tão boa assim, era bem injusto. Nenhum de seus primos fora obrigado a aprender katas, trabalhos de pés, a fazer dez séries de dez flexões toda manhã.
Porém, ele nunca questionou. Seu avô era um homem grande, e o pai vivia trabalhando. A mãe concordava com o avô, então não lhe sobrou ninguém. Ninguém velho o suficiente, pelo menos. Ainda havia sua irmã.
Ela tinha dezessete anos quando ele tinha 10. Mesmo sendo tão nova, ela era uma garota incomum. Vivia na internet desde os dez. Ela lia, assistia e ouvia muita coisa. Ela tinha opiniões muito fortes. Dizia que as garotas não tinham que lavar louça apenas por serem garotas.
Ele a via brigar com os pais, com a mãe e até com o avô, com quem nenhum dos dois tinha. Na verdade, ninguém do clã Setogaya tinha peito para enfrentá-lo — ela tinha, e o tinha com louvor. E ela era malandra, inclusive.
Seu avô, Haruto Setogaya, decidiu lhe “ensinar” a não “responder aos mais velhos”, pegando uma shinai. Gaitou ficou com medo. Ele treinava com o avô, sabia o quão rápido era. O velho não era de se subestimar. Se piscasse o olho, seus pulsos doíam e sua espada estava no chão.
Sua irmã, porém, avançou com tudo. Não usou nada do que era repassado nos estudos de kendo. Seu trabalho de pés nem podia ser chamado de “trabalho de pés”. Ela o fez correr atrás dela. O fez se cansar. Ela fintava o velho, apenas para frustrá-lo e o punir com uma estocada no estômago.
— Não existem estocadas no kendo!
— A ponta também pode matar, vovô! — rebateu ela, sorrindo.
A visão de sua irmã ali, fazendo o avô, aquela figura inquebrável, aceitar a derrota, fez com que Gaitou a visse com novos olhos. Sua irmã não era só uma nerd dos computadores. Ela era incrível. Ela era uma heroína. Sua heroína.
— Eu quero ser como você — murmurou ele, vendo de longe.
Ele começou a ler mais, porque ela lia bastante. Aprendeu a mexer no computador, porque ela também sabia. Ouviu diversos tipos de música, assistiu todo tipo de conteúdo audiovisual, apenas para descobrir o que estava na mente dela.
E ele gostava disso. Ele genuinamente gostava. Não porque queria copiá-la. De algum jeito, a ideia de copiá-la não fazia sentido. Ele queria aprender com ela. Queria que sua base fosse ela, para que ele pudesse erigir um edifício só dele.
E foi quando ele, no sexto ano do ensino fundamental, deslanchou. Respondia mais rápido que os outros alunos, sabia de tudo, sabia até o que era o horário de verão. Se o professor perguntasse quanto era quarenta e sete menos vinte e nove, ele prontamente diria que era dezoito.
Tudo por conta da irmã dele. Ele queria seguir os passos da irmã e, quando se sentisse seguro, trilhar os seus. Foi nesse mesmo ano que, vendo uma certa menina ter dificuldades em coisas que todo mundo sabia fazer — como pintar sem sair da borda do desenho, por exemplo —, que ele pensou que devia fazer algo.
Ele a conhecia desde muito tempo, afinal de contas.
— Você devia ajudar ela — disse a irmã. — Não é porque ela não pediu, que ela não precisa de ajuda, maninho.
Ele sentiu que fazia sentido, e foi o que fez. No começo, ele não sabia bem o motivo que o forçava a se importar tanto com uma amiga de infância — eles apenas se conheciam desde o prézinho. Estavam no mesmo grupo, mas não eram amigos.
Porém, com o passar dos dias, ele percebeu. Ela tinha algo nos olhos. Havia uma espécie de chama naqueles olhos hesitantes. Se ele ousasse, diria que era a mesma centelha que viu nos da irmã, quando enfrentou o avô.
O desafio. O ardor do desafio.
Havia algo de Cecília Setogaya em Carla Kagamine, e era por isso que ele estava se importando tanto. Claro, isso foi o que ele usou para mentir para si mesmo. Garotos de dez anos não sabem o que é estar apaixonado, no fim das contas.
E ele não era diferente.