Capítulo 72: Sadboy.
Capítulo 72: Sadboy.
Eis o Título: Meu nome é Gaitou.
Setogaya Gaitou.
Eu quero que você pense que saiba quem eu sou, porque nem eu sei mais. Mesmo que você diga que eu ainda sou eu, pensarei que está mentindo.
Porque não reconheço.
Porque não vejo.
Porque sei que não sou nada. Nada, absolutamente nada. Poderia ser tudo, tudo poderia ser, e como tudo pode ser nada, acabei não sendo ¥0$$@ nenhuma.
Não é só filosofia barata de quem viu um vídeo no YouTube — apesar de ser exatamente isso. Não é só uma tristeza adolescente passageira depois de um fora — mesmo que seja, para todos os efeitos, literalmente isso aconteceu comigo.
Um trem não desce uma ladeira por 2 anos seguidos.
Certo, eu não abri este diário apenas por conta de um “não posso, tenho que estudar amanhã” (mesmo que esse amanhã seja SÁBADO). E, bem, novamente, foi o que rolou. Mas não foi só por isso. Eu não sou tão raso.
Quer dizer, vamos abrir um parêntese aqui. “(.” Espera, eu disse um, né? Vamos abrir e fechar parênteses. “(.” Isso, agora sim. Como eu estava dizendo, não sou tão raso assim.
Mas o que é ser raso, né? Veja, não é um desvio do tópico central deste meu desabafo. Superficialidade. A qualidade que torna algo ou alguém superficial, sem profundidade. Profundidade essa que pode ser entendida, como contrário, “ausência de essência”.
A essência das pessoas, no meu achismo mais ousado, é a junção da cultura, história e personalidade delas. Se você quiser ser chato, tudo se resume em “histórica”, porque é o que vivemos no passado que faz com que sejamos o que somos no presente.
Separei em três conceitos, como se fosse algo importante, e digno de ser conceituado, porque daria um ar “acadêmico” às abobrinhas que estou dizendo. Comecemos pela Cultura de uma pessoa.
Cultura, segundo Mesmo (2026), é tudo aquilo que ela consumiu. Entenda “consumo” como “todo tipo de conteúdo artístico ou informativo que o indivíduo voluntariamente teve interesse de absorver”.
Cultura é o que ela gosta de assistir, ouvir, ler (se lê, né?) ou fazer.
História, também segundo Mesmo (2026), é o passado dela. É isso, basicamente. É o aglomerado de experiências prévias em qualquer área do ser humano, enquanto indivíduo, em suas esferas privadas e públicas.
Por fim, Personalidade é a forma como a pessoa pensa, diz e age. Também abrange sua vestimenta, postura, maneirismos, trejeitos, e particularidades que a tornam única — e mais igual que os outros (MESMO, 2026).
A Essência de uma pessoa, assim, é a junção, é a interligação interdependente desses três conceitos. Interligação, porque estão conectadas entre si — há pontos compartilhados. Interdependentes, porque essas relações não tem hierarquia.
Não há uma característica mais importante que a outra. Uma pessoa não pode ter Personalidade e Cultura, sem ter História, nem Cultura e História sem Personalidade e etc.
Voltando à Profundidade, o contrário de Profundidade é a Superficialidade. É, como dito antes, a “ausência de essência”. E, agora, você deve estar pensando:
— Como diabos alguém pode não ter essência?
Nenhuma pessoa é ausente de essência. Se fosse, não seria uma pessoa. Ponto. Essa é a verdade principal.
Por isso, quando eu disse que “não sou tão raso”, falei “não sou tão”. Ser ou não ser “tão alguma coisa” é se aproximar. No caso dessa frase, eu “tendo” à Superficialidade — mas nunca serei, de fato, superficial.
Por isso fere a premissa, obviamente.
E é exatamente por isso que o meu desabafo não é idiota. Não é sadboísmo. É um sofrimento legítimo. Eu tenho direito de dizer que não estou bem, e de falar sobre isso.
Porque se ninguém pode ser raso, todos são profundos. Ou seja, há um espectro, cujos extremos são Profundidade e Superficialidade. Estou num tom de Profundidade bem próximo do Superficial — um tom, não a “coisa” em si.
E, com isso, eu fecho o parêntese. “).”
Feita essa ressalva, voltemos ao tópico central. Eu tomei um fora. Ponto. Este é o ocorrido. Mas ele foi o estopim para uma crise existencial interminável — durou a noite toda, somente. Pareci um zumbi, em sala.
Veja bem, eu sou um garoto emo. Meus cabelos são espetados, porque eu gostaria de ser gótico, mas meus pais me bateriam se me vissem de maquiagem. “Coisa de bicha”, diria meu avô.
Além de emo, sou um descendente de japoneses que não tem cara de japonês. Um dos meus pais é amazonense raiz, afinal de contas. Eu me pareço mais com um deles.
Quando eu digo que meu nome é Gaitou Setogaya, existe uma grande chance de alguém dizer “Engatou”, “Gaiato” e coisas parecidas. Pior ainda, “parece nome de anime”. É uma sacanagem.
Ok, eu realmente gosto de animes. Ok, eu sou otaku. Ok, isso é a coisa mais terrível que alguém pode dizer que é, mas é o que sou. Mas não é legal, sabe? Porque você sente que a pessoa tá ridicularizando.
E eu ser emo não ajuda em nada. Emos são universalmente zoados por tudo e todos. Muito próximos dos punks, porém sentimentais demais para o protesto. Próximos dos góticos, mas nunca os sendo…
Por não sermos tão sombrios. E por sermos muito, muito adolescentes.
Além disso, eu sou o garoto de classe média-baixa que, no começo da vida, teve uma ascensão social de curto período. Aqueles anos áureos em que a economia estava indo bem — ou o mais “bem” que ela pode ir, no Brasil.
Estudei em escola particular, mas nunca me encaixei. Não era tão abastado quanto os meus colegas. E, quando nossa família quebrou, fui para uma escola pública. Lá, eu também era o estrangeiro.
Sempre fui o Estranho no ninho. Pobre demais perto dos ricos, rico demais perto dos pobres. Eu não sou rico. E me irrita, profundamente, um pobre me dizer o contrário.
Não é porque eu não sou tão fodido quanto você, que não sou fodido!
Eu tive minha cota de “tentar algo com uma garota e ser brutalmente humilhado em seguida”. Tenho quase um pós-doutorado nisso. E o que isso tem a ver com a minha aparência, nicho e classe social?
Tudo. A garota usou tudo isso, durante o fora.
— Tu é esquisito pra caralho. Total fora de moda esse teu cabelo. Ridículo. Parece fio de vassoura depois de pegar chuva, sabe? E preto. Só veste preto. Breeeeega demaaaaais. E essa estampa aí? Isso é Naruto, é? Eca. Odeio anime. Coisa de esquisito. Se mata, nojento. Me erra.
Aquela frase de Popular (2026), algo sobre máximo que uma garota pode dizer é “não”, não se aplicou. No caso dela, pelo menos.
— E vê se limpa esse teu sapato. Nem é branca mais a sola dele, puta merda. Tua rua é de barro, né? É quase marrom isso aí. Tua calça também é encardida. Tua camisa fica muito tempo no sol? Tadinho. Eu saio com gente que pode me proporcionar algo. Você… hah! Sai fora. Na moral.
Bom, foi isso que aconteceu. Agora você pode imaginar como cheguei a pensar tudo que escrevi aqui. É foda. O triste é que eu quero muito uma namorada.
Quem não quer, né?
Quero muito uma garota, mas elas são sempre exímias em me lembrar do porquê não deveria querê-las. Claro, estou generalizando, nem todas são assim…
Mas é só o que tô encontrando. Garotas legais namoram. Nenhuma garota legal está sozinha. Os caras não deixaram nada pra gente como eu. Só me sobrou optar pela humilhação mais saudável…
Ah, e as referências. Já ia esquecendo.
Referências.
MESMO, Eu. Vozes da minha cabeça. Editora Nenhuma. Guaracara, Amazonas. 1° edição. 2026.
POPULAR, Ditado. Frases engraçadas com fundo de verdade. Editora Oral. Terra, planeta. 1000° edição. 2026.