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Capítulo 73: Ponto de Não-Retorno.

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Capítulo 73: Ponto de Não-Retorno.

Foi uma tarde comum.

Mesmo que ele se esquecesse do ano, do mês ou do do dia, ou de tudo, o que aconteceu naquela tarde nunca poderia ser apagado.

— …Sai fora, na moral.

— Mas… mas eu realmente… — tentou ele, apertando o peito com o punho direito.

— Não. Eu recuso. Eu não aceito os sentimentos de um fracasso como você — disse ela.

Seu coração escorreu para o estômago.

— Eu não sou mais aquela garotinha, Setogaya. Sinto te informar, mas eu não preciso ser protegida. Não mais. Muito menos por você — Ela suspirou, e o seu olhar era de desgosto. — Eu teria conseguido, mesmo se não tivesse você por perto.

Ela deu um passo para trás.

— Nunca precisei de ninguém.

E outro.

— Foi apenas uma… fase. Isso. Foi tudo o que isso foi. Uma fase. Você, a minha fraqueza, tudo foi um período. Um capítulo. Uma… uma página — Seus lábios fizeram um movimento, mas Gaitou não percebeu. — Uma página que eu virei.

Ela passou os dedos pela testa, ajeitando a franja.

— Estou indo embora. Espero não ter mais que te ver.

Ela parou por um momento, estudando o rosto dele. Seus olhos diziam coisas em uma língua diferente. Olhos indecifráveis. Em seguida, ergueu a cabeça, exibindo o queixo e se virou. Ela andou como se não tivesse feito nada.

Como se não tivesse jogado “nós” do décimo terceiro andar.

— — —

“O que eu fiz de errado?”

Desde aquele duelo, meses atrás, ela se tornou cada dia mais ríspida e ignorante com ele. Chegou ao ponto de não se falarem mais. E, quando o financeiro da família apertou, pareceu que ela estava decidida a zombar dele.

Mãos geladas envolviam seu coração.

Mãos escuras.

Sombras. E elas estavam mais fortes agora…

Mesmo que fosse meio-dia.

Ele não conseguiu dormir. No dia anterior, ao chegar em casa, ele nem se deu ao trabalho de falar com os pais ou a irmã mais velha. Ele simplesmente entrou no quarto, se escorou na parede e deslizou para o chão. Ficou ali até umas cinco da manhã.

Não soube o motivo. Sua mente nem estava pensando, na verdade. De repente, como um sonâmbulo subitamente desperto, percebeu que estava na orla da cidade, vendo o rio Amazonas correr.

As horas foram passando, assim como as pessoas, carros, motos e bicicletas, e ele não deu a mínima. Ficou ali, sentado no banco de concreto. Mesmo que o sol fosse pouco a pouco cozinhando tudo, ele permaneceu quieto como uma estátua de cerâmica.

“Onde eu errei?”

Seus pensamentos eram como o Amazonas. Eram banzeiros. Mal podiam ser decodificados e interpretados. Eles surgiam de supetão, como jabs de profissionais de boxe. Não era possível traçar a origem, ainda que ele soubesse quem era.

Sentiu que sua mente estava num turbilhão, girando e girando cada vez mais fundo. Uma espiral descendente de perguntas sem respostas.

Engraçado.

Muito tempo depois, ele pensaria nesse momento como sua hora mais escura. A hora mais escura — ao meio dia, quando o sol está mais forte.

Engraçado. Cômico. Tragicômico, de fato.

— — —

— Eu vou te bloquear. Talvez você tenha esquecido de fazer isso. Você deve estar ocupada com essa coisa toda de viajar e tal… Então vou fazer isso por você.

Ela ficou surpresa. Não esperava que ele fosse mandar mensagem, depois de tudo.

— É última coisa que vou fazer por você. Pra ser sincero… eu não espero nem que sejamos bons amigos. E, para todos os efeitos, eu nem sei quem você é.

Ela engoliu seco.

— Faça o que você quiser — continuou ele. —  É o que você tem feito, né? Vá. Tenha tudo e todos que quiser. Você não liga, mas eu posso te dizer pra não ligar. Isso eu posso fazer, né? Não ligue para mim. Nem para ninguém.

Ela sentiu o ar faltar.

— Se importar é coisa de perdedores, e você não é uma. Adeus…

A facada final…

— Kagamine.

E a foto de perfil dele sumiu. Ele a bloqueou.

“Ele… Ele…”

Ele realmente fez isso.

Ela não esperava por isso. Se esperava por algo, estava na linha de uma humilhação voluntária. Se ele realmente fosse mandar mensagem, seria uma súplica. Algo como “eu preciso de você”. Pelo menos…

Pelo menos dessa vez…

Mas, não.

Ele não agiu como… como ele. Como o Gaitou. Como o idiota que ela tanto quis vencer. Aquele garoto nunca teria voluntariamente desistido. Não, nunca. O Gaitou que ela conhecia, o Gaitou que era dela…

Ela sentou na cama.

Ele também.

Sim, ele… ele também não era mais ele. “Eu nem sei quem você é”. Uma estranha. Um estranho. Foi isso que ele jogou nas entrelinhas. Estranhos perfeitos.

Como se procurasse alguma coisa, ela olhou as mensagens antigas. O “vou te bloquear” era a mais recente. As outras eram de dez meses atrás. Dez. Meses. E ela foi deslizando a tela. As mensagens dele, as mensagens dela.

Os poemas que ele escrevia, que ele dizia serem apenas rascunhos, mas ela sabia que não eram — tinha plena consciência de que ele havia passado horas editando cada verso, cada rima.

Muito tempo atrás, ele disse que ela era a coisa mais importante da vida dele.

Há tempos, ele disse que ela era doce, única e macia.

E disse que sua música favorita era…

Show me, show me, show me how you do it…

E o jeito como ele facilmente fazia ela…

Scream! She said.

— E me fazia rir… — murmurou ela.

E querer jogar os braços ao redor do pescoço dele. E fazer promessas. Promessas, promessas e promessas. Agora, ela nunca fugiria com ele. Nem estaria fugindo dele. Ele quem deu as costas, mesmo que fosse ela quem se virou.

Ao invés dos rostos um do outro, agora só havia o agora. O presente. O futuro. O restante do quarto. A varanda. A rua. As pessoas. Os problemas. O que estava diante deles era tudo, e o que era tudo para um…

Se afogou no outro.

E então… vago.

Tão, tão vago.

Tão absolutamente vago foi o sentimento que veio. Ela esperava euforia. Tirar as algemas é a maior vitória de um prisioneiro. Ela saiu dessa caixa em forma de coração. Agora, porém…

Havia uma sala.

Uma sala cheia de espelhos.

E todos refletiam ela.

Todos viam a mesma coisa.

Todos viam ela.

Todos diziam a mesma coisa sem dizer.

A coisa que ela torceu pra não pensar. Que ela, no fundo, sabia que ia. Então, era isso. Esse era o doce sabor da liberdade.