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Capítulo 74: Não mais Gaitou.

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Capítulo 74: Não mais Gaitou.

Gaitou estava pensando.

“Nós somos algo apenas quando fazemos algo. A vida é movimento. Se estou fazendo alguma coisa, já estou sendo algo: aquele que faz essa coisa.”

E se sentiu um completo idiota. Ele era jovem. Muito, muito jovem. Para quê se importar com isso? Certo, para quê?

Não era o fim da vida dele. Puxa, não era! Carla não era a única garota que existia no mundo. Sim, não era. E, a partir do momento em que pensou nisso, tudo ficou incrivelmente mais leve.

Se ele queria ser livre, era só ser livre. Se queria ser um ser humano, era só agir de acordo com o que ele era. E ele era um adolescente. Então, era só ser um adolescente.

Só isso.

— Hahaha, e você sabia? O professor disse que não pode usar IA no trabalho, mas ele mesmo usa uma pra corrigir ele. Dá pra acreditar?

— Sério?! — espantou-se a menina, prestando atenção no que ele dizia.

— Sério! Eu vi! Ele simplesmente jogou o texto do Fabinho lá no gpt. Acho que o único trabalho que ele teve foi de apagar parte do prompt.

— Caramba, Setogaya! E você se escondeu pra ver? — Ela estava se divertindo.

— Pior que não! Eu fui entregar meu próprio trabalho. O professor esqueceu que eu tava lá, talvez. O fato é que ele fez isso na minha frente. Foi como se eu não estivesse lá!

— Deve tá acostumado.

— Exatamente!

E riram.

Ela estava sentada em cima do braço da carteira. Gaitou estava diante dela, com mochila no ombro. Ela tinha cabelos curtos e um sorriso fácil. Ela sabia o que ele queria, e ele sabia que ela saba.

— Camila?

— Um?

— Eu tava pensando em ir nessa lanchonete nova… quer ir comigo?

— Haha! Claro que sim! Mas você paga, né?

— Claro, eu convidei.

— É? — Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa. E, só de sacanagem, se enrroscou num braço dele. — Vamos lá, então.

Eles andaram assim, lado a lado, para fora daquela escola. Para a rua. Pelas sinuosas ruas de Guaracara, naquela tarde do nono ano, quando o sol ainda não estava tão perto da Terra.

Ele começou a pensar.

Camila de Andrade era uma dessas garotas que fazem o que querem. Ela não se importava tanto assim com muita coisa, se não trouxesse diversão. Ele mesmo nunca tinha chamado atenção dela.

Afinal, por uns bons meses, todos só o viam como Down, porque ele sempre “tava meio down”, segundo a própria Camila. Sempre com os ombros caídos, o passo arrastado, o olhar no chão e a boca muda.

Por isso ela ficou surpresa quando, ao voltar para a sala, ele puxou conversa. Ela estava presa numa atividade de álgebra, e ele rapidamente resolveu o exercício por ela.

Não esperava que, além disso, ele fosse conversar frivolidades com ela — muito menos a chamar para sair. Era bem difícil os meninos terem essa coragem. Só os populares tentavam, e ela declinava.

Ela não queria ser só mais uma na coleção deles. Por isso, suas tardes se resumiram a sair com as amigas e torcer para nenhuma delas arrumar um namorado.

Era comum, até, que alguém conseguisse um par e esquecesse dos amigos. Ela ficava feliz, claro. Era uma conquista e tanto. Mas, bastava uns dois ou três dias, e ela era esquecida. Escanteada.

Não que isso fosse abater Camila de Andrade. Ela tinha uma reputação. A fama de ser alguém sempre alto astral, sempre chamando todos pra um rolê e rindo alto. Tinha que manter isso.

Foi apenas por isso que ela decidiu sair com esse Gaitou Setogaya. Ele ia pagar o lanche, pelo menos. E o perfume dele era bom. “Caramba, esse perfume é bom.”

Isso era importante. Normalmente, os garotos fediam a suvaco, suor ou à desodorantes baratos. Ou a colônias chamativas que irritavam o nariz.

O perfume que Gaitou estava usando, no entanto, era suave. Tinha algo de cítrico nele. Era bem gostosinho. “Interessante.”

Ele era uma boa forma de matar a solidão do dia.

— Setogaya.

— Um?

— Você vive de fone, né?

— Vivo, eu acho. É óbvio demais?

— Nunca te vi sem eles — admitiu ela, enquanto andavam pela calçada. As sombras das árvores da avenida salpicavam luzinhas no rosto dela. — Com eles, você sempre parecia em outro lugar.

— E eu estava.

— Onde?

— Na música — disse ele, sorrindo. — Sabe, eu gosto muito de prestar atenção nas letras. Depois que você estuda um pouco de inglês, você começa a entender o que os caras cantam, e aí…

Ele olhou para o sol, que estava meio alto, ainda.

— Várias janelas de sentido se abrem para você. Teve um tempo, uns dias atrás, em que eu só queria saber de Suzanne Vega. Já escutou?

— Não, acho que não — ela mentiu. Era a cantora favorita da mãe dela. Da. Mãe. Dela.

— Ela tem esse álbum, o Solitude Standing. Solitude Ereta, de pé. Ou permanente, durável. Uma solidão constante. É quase um álbum conceitual.

— Álbum… conceitual?

— É. Um álbum que tem um conceito, um tema geral que norteia cada faixa dele. — Ele chutou uma pedrinha, e ela foi esmagada pelo pneu de um Peugeot. — No caso desse, Solitude Standing, o tema é a solidão.

Ele deu uma olhada no rosto dela.

— Chato?

— Não, não. — Ela balançou as mãos. — Continua.

— Bom, a solidão é o que tá dentro de cada uma das músicas desse álbum. Tom’s Dinner, por exemplo, fala de uma solidão específica — Ele levou os indicadores aos lábios. — Aquela… aquela que a gente sente no dia a dia, sabe?

— Qual? Tem várias, eu acho.

— Realmente. Deixa eu ver… ah, já sei. Agora mesmo, por exemplo. Nós estamos sendo vistos, certo?

— Estamos — ela olhou os arredores, e todo tipo de pessoa passava por eles. — A cidade não para.

— Pois é. As pessoas vêem a gente, quando passam por nós. Elas vêem, mas não enxergam.

— Como assim?

— É como… sabe, é como a parede do seu quarto — ele coçou a bochecha. — Aquela que você vê quando ergue a cabeça, ainda deitada.

— Ah… sim… — Ela sentiu o rosto esquentar, por algum motivo. Era só uma situação hipotética que ele trouxe. Não é como se ele soubesse dos hábitos dela.

— Você vê essa parede todo dia. Todo santo dia. Ainda assim, acho que você nunca prestou muita atenção nela. Nos sulcos que a tinta deixou, quando secou. Nos pequenos buraquinhos descascados. Sabe? Os detalhes.

— Acho que entendi…

Ela não estava esperando por isso.

— Verdade. Tipo… tipo aquela senhora, sabe? Aquela que mora na casa de frente pra escola. Ela sempre tá lá, na varanda, vendo o movimento da rua. Eu nunca ouvi a voz dela. Nunca conversei com ela… — murmurou Camila, pensativa.

— Pois é. É isso é só Tom’s Dinner. Ainda tem Luka. Sabe?

— Acho que não…?

— My name is Luka, I live in the second floor… I live upstairs from you…

I think you could see me before.

— Eu adoro ela.

— Percebi.

— Ela fala daquela coisa que a gente gosta, e quer muito mostrar. Aquela coisa que a gente gosta muito, e quer que todo mundo goste também. E você fica… sabe? “Olha, eu tava desenhando.”

Ele riu para ela.

— “Não é nada demais, não é algo tão interessante assim.”

— Você pensa essas coisas? — Ela se aproximou mais.

— Um pouco.

— Um pouco demais, né?

— Sim.

E eles riram.