Capítulo 75: Não mais Gaitou, parte 2.
Capítulo 75: Não mais Gaitou, parte 2.
Camila e Gaitou estavam sentados em cadeiras de plástico, debaixo da sombrinha plantada em cima de uma mesa, que também era de plástico. Ao redor deles haviam outras mesas e cadeiras, do mesmo tipo as deles, e atrás, bem atrás, havia um trailer, de onde vinha o cheiro de carne de hambúrguer.
Estavam numa lanchonete que funcionava na entrada da rodoviária, onde havia o combo de “leve três por dez” de cachorro-quente. Ambos adoravam cachorro-quente.
— Sabe — ela disse, com a boca cheia, limpando o ketchup dos lábios com o polegar —, eu acho que a vida é incrivelmente chata. Tipo, a gente tá no nono ano, né?
— Estamos — disse Gaitou, dando uma mordida animada em seu lanche.
— Tipo, a gente fica na escola por quase doze anos.
— Isso se você não cursar faculdade — pontuou o garoto.
— Exato! E aí tem o mestrado, graduação, pós-graduação, doutorado, pós-doutorado… dá pra passar a vida inteira estudando! — exclamou ela, dando um gole no refrigerante. — Qual é o ponto disso, sabe?
— Eu entendi. Penso a mesma coisa. Não que eu não goste de estudar, obviamente…
— Você gosta? — ela inclinou um pouco o corpo para frente, olhando diretamente para ele.
— Um pouco.
— É. Você é nerd, é claro que gosta de estudar.
— É, mas, veja, eu gosto de estudar as coisas que gosto, não tudo que tem na escola. Tipo… eu odeio matemática — confessou ele, olhando para o lado.
As sobrancelhas dela se ergueram.
— Que foi?
— Você odeia matemática? — indagou ela, piscando diversas vezes.
— Com todas as forças.
— Mas você me ajudou com minha lição!
— Porque você precisava… — ele coçou a nuca. — E, bem, eu não gostar de matemática não me dá o direito de não estudá-la, infelizmente.
— Caramba, mas você é muito bom! Você fez de cabeça todas aquelas questões! Nossa, e você odeia? Imagina se gostasse, haha! Que loucura! — ela terminou o cachorro-quente, amassando em uma bolinha. — Queria ter esse poder.
— Não é poder, é só… é tipo alquimia.
— Alquimia? Como assim? Haha! Você tá procurando o elixir da vida eterna? — Ela gargalhou. — Os alquimistas estão chegando, estão chegando os alquimistas… — cantou.
— De qualquer forma, esse é um dos melhores albuns do Jorge ben Jor.
— Nossa, sim! Eu adoro ele! O Jorge fica todo esotérico nele! Adoro isso.
Ele olhou para ela com um sorrisinho malandro.
— Que foi?
— Você — disse ele, rindo.
— Eu?
— Você é meio nerd, também.
— Ei, pera aí! Eu só gosto de MPB… tipo, muito, sabe? Quilotoneladas de MPB. Chico Buarque, Elis, Gal… Já ouviu Sandra de Sá, é quase um city pop!
— E você ainda sabe o que é city pop? — gargalhou ele.
—- Me entreguei, né? — os ombros dela caíram, e o sorriso dela ficou meio constrangido.
— Total, Camila.
— O que você costuma ouvir?
— Eu gosto de Joy Division, The Cure, New Order, Alphaville, Jesus and Mary Chain, Slowdive, Sonic Youth, Drop Ninteens, My Bloody Valentine…
— Tá, eu já entendi que você ama olhar os próprios sapatos!
Eles riram.
— Eu também curto, sabe? Shoegaze…
— Cara, você é muito nerd, Camila.
— Cala a boca, Gaigai! — ela jogou o papel nele.
— Gaigai?
— Vou te chamar assim.
Ele pensou um pouco.
— Gaigai?
— Vou te chamar de Cami, então — declarou ele, satisfeito.
— Cami…? — ela inclinou a cabeça. — Meus pais me chamam de Mila. Minhas amigas também. Pensei que você também iria… por que Cami?
— É com se pronuncia o sobrenome do Albert. Albert Camus. Meu filósofo favorito — disse ele, subitamente empolgado.
— Seu filósofo favorito… — ela coçou a bochecha, os lábios tremendo por uns instantes.
— É! Ele fala de absurdo e… que foi?
— Você diz essas coisas com uma naturalidade… — murmurou ela, desviando o olhar.
— Digo o quê?
— Nada… — Ela balançou a cabeça. Ela quase odiou que seu coração tivesse perdido um compasso.
Eles ficaram em silêncio, por um momento. Não porque não tivessem mais nada a dizer. Não porque faltasse assunto. Na verdade, ambos sabiam de muita coisa, tinham muitos gostos, e agora sabiam disso. Aconteceu foi que o silêncio…
O silêncio era confortável.
Ela sorriu um sorriso pequeno. Cami. Filósofo favorito. Agora, Camila sabia que ele era perigoso. Gaitou era um problema cardiovascular não diagnosticado. Ela não queria ficar feliz, mas aquilo não era pequeno.
Era bem, bem longe de algo pequeno. E, como se o universo quisesse brindar a situação…
— Mandacaru quando fulora na seca, é o sinal que a chuva chega no sertão…
Xote das Meninas, Luiz Gonzaga, no rádio da lanchonete. O refrão fez as bochechas dela atingirem a temperatura da chapa de hambúrguer.
— É engraçado, né? — disse Gaitou, de repente.
— O quê?
— A rodoviária. Ônibus, táxis, gente vindo e indo para longe. As ruas ao nosso redor. O trailer. Cadeiras e mesas de plástico. Pessoas que vieram comer para passar o tempo, conversar. Tudo é passageiro. Transitório, e, ironicamente, no meio do trânsito. A própria vida é um fluxo de indas e vindas. As conversas, igualmente. A gente constrói relações a partir de encontros, colisões e desencontros…
Ele encarava a rua.
— Estou me divertindo muito. Como diria Fred Mercury, estamos tendo um good time. E, como diria Nietzsche, um momento que faz a vida valer a pena ser vivida. Porque… porque não é só divertido… é um presente. É algo que ganhei. E também é o tempo. O tempo presente.
Ele voltou o olhar para ela.
— Eu, você, as cadeiras, as mesas, os guarda chuvas, as outras pessoas, o trailer, as comidas, os carros, ônibus, todos estamos aqui. No mesmo momento, dividindo o mesmo instante. Além de estar aqui, fisicamente, estou aqui em mente e espírito. Minhas três faces estão unidas numa só. Em algo que, para muitos, poderia ser banal…
Ele balançou a cabeça.
— Viajei.
— Não, não… não — repetiu ela, balançando as mãos. — Não viajou. Eu… eu entendi. Nossa, é… é verdade. Tipo, normalmente, a gente sempre tá com a cabeça em outro lugar. Num seminário…
— Numa prova…
— Numa redação…
— No boletim…
— Numa bronca…
— No que dizer logo em seguida…
— Sim! Nós sempre temos algo para nos tirar do sério. Pra fazer a gente pensar nesse algo, e esquecer que existe uma vida acontecendo perto da gente — ela disse, apoiando os cotovelos no tampo da mesa. — E, quando percebe, já é janeiro, fevereiro, março…
— Como aquele poema…
— Qual?
— Esse aqui.
Ele tirou um papel do bolso, uma caneta e começou a rabiscar.
A vida é uma flor
Uma flor no peito
Um broche que temos
Um broche perfeito
Que, por vê-lo
Vê-lo o tempo inteiro
Vira até costumeiro
O correr dos dias
No calar das noites
Nas carícias das tardes
Olhar para si mesmo
Para o ser no espelho
E ver tudo no rosto
Peito, pescoço
Maxilar, clavícula
E o broche perfeito?
Esquecê-lo,
E ver escorrendo fevereiro
O carnaval de março,
As flores de abril
O ano todo pelo ralo,
Pelos canos do tempo
Do qual tudo é feito,
Olhamos outra vez…
O calendário
Espelhos dos dias
Murmura que é de novo
De novo Janeiro…
— Então, a gente vai vivendo e…
— Você acabou de fazer esse poema? — perguntou ela, os olhos bem abertos.
— Sim. Escrevi o que estamos conversando.
— Cacete. Puta merda. Puta. Merda. Você do cacete, sabia disso? Você é do cacete — ela riu, batendo no ombro dele.
— Obrigado?
— Eu quero esse poema.
— É pra você, então — ele entregou o papel para ela.
— Brigada.
Ela sorriu, as bochechas quase fechando os olhos. Quando ela chegasse em casa, desenharia um coração minúsculo no final.