Capítulo 76: Um pouco de Nathan.
Capítulo 76: Um pouco de Nathan.
Ele bebeu um pouco de café. Já era sua terceira xícara, xícara essa que tinha um palmo de altura. Ele provavelmente ia sentir o coração palpitar lá pelas dez, onze horas — nada com que ele não estivesse acostumado.
Suas mãos já sambavam paradas.
“Maldito seja…”
Dormir era algo realmente difícil. Dormiu uma da manhã e acordou às cinco. Quatro horas de sono. Sua cabeça doía, latejando em algum ponto perto da testa. Seus olhos pareciam pesados, e doía atrás deles, também. Era realmente uma droga. Beber café era o único remédio.
Os país diziam que a culpa era do celular. Nathan, porém, sabia que não. A razão, bem conhecida, era esse par de óculos no criado-mudo, que ele encarava há algum tempo. Essas lentes do…
— Por que eu aceitei, hein?
Sim, por que? Se ele não tivesse virado aquela esquina, jogando conversa fora com aquela moça e pego o óculos que ela deixou cair, nada disso teria acontecido. Se bem que ela tinha sumido, assim que ele se levantou do chão, com os óculos em mãos.
A moça tinha cabelos verdes, e não parecia tintura. Não, não havia química naquilo. Por mais absurdo que soasse, eram cabelos naturalmente esverdeados. Seus olhos também eram. E o sobrenome dela era japonês.
Ela não se identificou em nenhum momento da conversa, no entanto. Ele só lembrava de…
— Aqui em Manaus, meu sobrenome é meio diferente. Em Guaracara, porém, é até comum — disse ela, sorrindo. — Você já foi lá?
— Não, nunca. Nunca saí daqui — falou ele, subitamente se sentindo constrangido.
— Sério? Nossa, você não sabe o que tá perdendo! É uma das cidades mais… nipônicas? — Ela pôs o dedo indicador no queixo, pensativa. Para Nathan, um quadro renascentista. — É, nipônicas. Uma das cidades mais nipônicas do Brasil.
— Nunca ouvi falar, pra ser sincero — confessou o rapaz. — Só sei daquela colônia japonesa em Parintins, e o bairro da liberdade, em São Paulo.
— Entendo, entendo. O mundo é grande, bem grande, mas…
De repente, ela pareceu um tanto pensativa. Foi como se tivessem apertado um interruptor na mente dela.
— Que foi? — indagou Nathan, sentindo-se preocupado.
— O destino das pessoas — ela disse, olhando de esguelha para ele.
— Destino? — repetiu o garoto, sem conseguir abafar a nota de riso que saiu.
— É. Ele é estreito, o destino das pessoas.
— Você acha? — Ele olhou para o céu, que estava nublado. — Tem um cara, o Sar…
— Sartre, né? — escondeu ela o sorriso com o punho.
— Conhece?
O olhar dela pareceu estranhamente divertido.
— Um?
— Você conhece — afirmou a garota.
“Estranha”, pensou ele.
— Não, não sou.
— O… O quê?
— Você sabe — ela riu de novo.
— Não… eu acho que não sei — ele se sentiu um tanto assustado, mas deixou pra lá.
Ela ainda tinha o sorriso no rosto, quando olhou para frente.
— Tem alguma coisa que você queira?
— Qual delas? — devolveu ele. “Que pergunta estranha.”
— É normal querer saber a coisa que alguém deseja. Assim, você sabe com quem está lidando.
— …De que forma? — ele ergueu as sobrancelhas.
— Você não sabe?
— Eu poderia esboçar alguma coisa, mas acho mais interessante saber qual a sua definição.
— Como esperado de vo… — Ela balançou a cabeça levemente, como se tivesse negado algo. — De um acadêmico.
Ela coçou a parte de trás da cabeça.
— Então…? — insistiu ele.
— É que as pessoas sempre querem algo — disse ela. — O faminto quer comer, o sedento quer beber, o libidinoso quer prazer e o avarento quer posses. As mulheres querem direitos, propriedades, alimento, carreiras, mas também querem homens. Ou umas as outras — corrigiu-se. — Os homens querem tudo, incluindo mulheres. Ou outros homens.
— Certo…
— Em certos momentos, eles querem mais alguma coisa que outra. Somos seres de fases — disse ela, com uma certeza que parecia ainda mais estranha, para Nathan. — Somos seres instantâneos. Vivemos o agora. Somos o agora. Você não é o mesmo de ontem, nem será o de amanhã. Não porque você quer coisas diferentes, ou porque você é diferente, mas… o quando, sabe? O quando.
— Tempo — resumiu ele.
— Isso. O tempo. Nós somos quem somos por causa do ambiente, do espaço. Mas o tempo também nos influencia. Espaço-tempo. Eu sei o seu ambiente, pois você, fisicamente, está comigo. Porém, temporalmente, eu não “sei”. Não sei em que momento da sua vida você está — Ela enfiou as mãos no bolso do moletom. — Se eu souber seu tempo, saberei quem é você.
Ele suspirou.
— Em que momento… — repetiu ele. — Certo. Neste exato momento, eu confesso que quero uma lata de coca-cola bem gelada. Trincando.
— Vai se ferrar — murmurou ela, com um tom de carinho.
— O quê? A culpa é sua, se a sua formulação pode ser testada assim.
— Realmente. É, realmente — ela não parecia decepcionada. Pelo contrário…
— Mas, se você considerar que o espaço e o tempo não existem no vácuo, poderia dizer que há algo transcendente. Uma terceira dimensão, talvez. Não sei. Enfim, se formos seguir por essa linha — Ele inclinou a cabeça. — Haveria uma coisa que transcende o instante e o ambiente.
— O que seria? — o sorriso dela era brilhante. “Estranha.” Por que ela parecia feliz?
— A essência, talvez. Que foi?
— Nada.
Nada , ela disse. Mas os olhos… os olhos pareciam falar mais. Queriam falar mais, bem mais. Ele sentiu uma intensidade quase fulminante na luz, no reflexo da luz em sua íris. Ele sentiu o ar faltar, por alguma razão.
— Eu…
— Sei — ela ainda sorria. Um sorriso menor, agora mais terno. — Que bom. Que bom que essa ainda é a sua resposta.
— Ainda?
Ele piscou, confuso. Quando deu por si, ela já estava andando. Ele sentiu o corpo ficar mais leve, como se algum peso tivesse saído. Ele olhou para as mão, o que levou seu olhar para baixo…
E notou um par de óculos. Um simples par de óculos. De quem era? Era da garota, certo? Mas ela usava óculos?
Ele se agachou, pegou e…
— Ei, você deixou…
Ela sumiu.
—- — —
Agora, praticamente umas dezenove horas depois, ele estava encarando esses mesmos óculos, tomando sua quarta xícara de café. “Que garota estranha.” Ele nem sabia o nome dela. O único nome que ela citou foi Guaracara. A cidade mais nipônica do Brasil, segundo ela…
— Talvez eu deva ir para lá?
E, antes que ele realmente pensasse nisso…
— Espera, quando exatamente eu comecei a falar com ela?