Capítulo 77: Família Dias.
Capítulo 77: Família Dias.
Nathan chegou em casa. Passou direto pela sala e entrou no quarto, atirando-se na cama. Foi um primeiro dia de aula muito louco. Durou praticamente dez capítulos para retornarmos a este ponto da história, então não o julgo por isso.
Aragaki Zenbugatsu e Setogaya Gaitou seriam seus amigos nos próximos três anos, ele tinha certeza. Ele sempre teve esse dom para conhecer as pessoas excêntricas possíveis. A família dele, mesmo, era bem estranha…
TREQUE!
— PORRA! — Um berro veio de algum canto da casa.
Pelo som que fez, provavelmente era a senhora Manon Louise Gaignoux Dias, uma mulher pequena, magra, de pele pálida e… intensa , nas palavras de Nathan. Era sua mãe. Ela era musicista — ou “música”, como diria seu pai…
— E aí, campeão?
O romântico Nico Yacy Dias.
— Como foi o inferno? — perguntou ele, parado no batente da porta.
Era um homem baixo, de pele parda e cabelos lisos. Seus olhos eram amendoados, de um castanho escuro, e estavam atrás de um par de óculos de armação de aviador. Ele gostava de óculos de aviador, dizia que o lembrava dos anos sessenta — ele nasceu em 89, no entanto.
Ele tinha um sorriso estúpido nos lábios.
— Um inferno — respondeu Nathan, sem tirar o rosto do travesseiro. — Quente pra cacete.
— Lá em Manaus também era — O pai sentou-se em uma cadeira, a que estava diante da escrivaninha.
— É. Tá, não foi tão ruim. Fiz amigos.
— Tá melhor que eu, no meu primeiro dia — O homem pegou um livro, alisando a capa.
— Zenbugatsu e Gaitou.
— Os de faz de conta não valem — falou o pai, rindo.
— Eles são legais. O Gaitou é metido a niilista, apesar de não ter lido nada. O Zenbugatsu… ele não tem corpo, mas existe e fala.
— Aham — o pai grunhiu, nada convencido.
— A escola é legal. Todo mundo tem personalidade, e ninguém passa muito tempo no celular — ele virou o rosto. — Gente divertida.
— Interior é assim mesmo — falou Nico.
— E o senhor? Como vai o livro?
O pai se escorou nas costas da cadeira.
— Mal?
— Sim, bem mal — concordou o homem, tirando os óculos. — Ainda bem que é um livro de crônicas. Eu não aguentaria escrever um romance.
— É muito difícil?
— Difícil? — devolveu o pai, rindo sem humor. — É uma tarefa hercúlea. Quanto mais você escreve, mais acha que o troço tá ruim. Tá chato, maçante. Eu mesmo não leria o que escrevo. Tem dias que eu não estou a fim de escrever, e só faço um poema ou um texto qualquer. Se fosse um romance, teria de seguir um roteiro…
Ele suspirou.
— Pensar na fluidez de um parágrafo narrativo, no arco dos personagens, no pacing, no show don’t tell, no cliffhanger… puta coisa chata, bicho!
— Complicado. Então o senhor tá alternando poemas e crônicas, pai?
— E textos curtos que eu não sei classificar — disse ele, a voz cansada. — Diria que são aforismos unidos numa pretensão de parágrafos em jenga, não textos…
— HAHAHA!
— É sério. Leio meus textos e me pergunto se não deixei um macaco digitando — Ele olhou para a porta, ao ouvir um estrondo em outra sala. — Será que ela quebrou o Gianini?
— Espero que não. Esse foi bem caro.
Eles sorriam.
— Música nova, será?
— Sim — concordou Nico. — Ela estava ouvindo música cigana balcã.
— Atacando world music, agora… — riu o filho.
— É. Ela também ouviu… como era? Música romênia?
— Outro dia era Rita Lee — Nathan recordou-se da cena. — Ela queria até tingir o cabelo.
— Em outro, Mick Jagger — Nico se levantou, pegando a mochila do filho e pondo na cadeira. — Apesar do caos, é bom que a banda esteja em “hiato profissional e criativo”.
Nathan sabia o motivo, obviamente. O pai não suportava ficar longe dela.
Contra todas as possibilidades, a porta daquela sala se fechou com um clique. Um clique seco. Nem tímido, nem chamativo. Apenas um clique. Apenas isso foi o suficiente para eles precisarem fingir, um para o outro, que não estavam tensos.
De repente, a silhueta pequena e cabelo chanel surgiram no quarto.
— Olha, o mozinho já chegou da aula? Amor, você já terminou as cinco mil palavras de hoje?
Ela estava com uma camisa social mal abotoada, uma calça boca de sino e pés descalços. Ela se encostou no batente.
— Credo, o que rolou? Parece que vocês viram um fantasma — disse ela, alheia ao clima.
— Um fantasma muito bonito — disse Nico, se aproximando. Ele a segurou pela cintura, beijando-a na bochecha.
— Vocês tem que se acostumar com a minha beleza, sabiam? — Diferentemente dele, ela o beijou nos lábios. — Não terminei a música, mas ela que se foda.
Ela se aproximou da cama do filho e se sentou, esfregando os cabelos dele.
— E aí, lindinho? Tenho netos no forno?
— Eu ainda tenho quinze, mãe.
— Quinze filhos?
Ela sorriu para ele. Aquele sorriso grande, de lábios fechados, que quase fecham os olhos.
— Tem muito roqueiro por lá?
— Sim. Tem uma galera punker, hard rocker, metaleira, experimental, indie… — ele foi enumerando, deitando de barriga para cima. — A galera tem cultura.
— Ótimo. Eu não aguentava mais o sertanejo, puta merda! — Ela olhou para o marido. — Faz uma letra sobre isso, pra mim.
O marido se sentou ao lado dela.
— Seu ódio ao sertanejo universitário?
— Ao agroNEJO, melhor dizendo — corrigiu ela.
— Verdade — ele fez carinho no rosto dela.
— Enfim — ela beijou a palma do marido. — Filho, depois de jantar, aparece lá no estúdio? E anota pra mim: Dm, aquele com pestana na quinta casa, Am também de pestana e Cm. A batida… uma coisa meio… não sei… aquele ritmo de The House of the Rising Sun, sabe? Mas sem dedilhado. Batida. 6/8.
Ela se levantou.
— Ajuda sua mãezinha — pediu ela.
— Eu vou, mãe — disse ele, balançando a cabeça.
— Amo você — ela começou a andar. — Você também — olhou para o marido. — É isso, vou continuar a compor.
Ela saiu do quarto, com aquele andar despojado, do mesmo jeito que chegou.
— Furacão… — murmurou Nico, o dedo no queixo.
— O quê, pai?
— Hurricane… — Ele se levantou, os olhos se abrindo e a luz chegando. — Hurricane woman. É ISSO!
Ele saiu correndo.
— CANETA, EU PRECISO DA MINHA CANETA!
Nathan fechou os olhos. Uma letra estava nascendo, ele sabia. Talvez o próximo hit Dias-Gaignoux