Capítulo 10 — Poder e Paternidade
Capítulo 10 — Poder e Paternidade
Ti’metios se viu em um lago de sangue, a sola de seus pés levemente imersa no líquido vermelho. Ele olhou ao redor, confuso sobre o que estava acontecendo.
— O que é esse lugar?! Onde está o lobisomem?! E as chamas?! — Uma enxurrada de perguntas veio de uma vez, enquanto ele ainda tentava entender o cenário em que se encontrava depois de ter desmaiado.
Sua atenção foi, então, tomada por algo inusitado: um trono vermelho colocado de frente para ele. Mas o inusitado era quem se sentava nele. Usando uma armadura negra ornamental, com os cabelos e olhos vermelhos facilmente reconhecidos por Ti’metios, o rosto de quem desafiou os deuses.
Ele mesmo.
— Eu devo estar ficando insano de vez.
O General se levantou do trono. Uma adaga e uma espada surgiram em suas mãos — as armas que Ti’metios usava. A lâmina prateada delas tornou-se rapidamente vermelha depois de serem empunhadas.
— Por que está aceitando essas condições deploráveis nas quais está? — O General começou a andar em volta de Ti’metios, o olhar fixo nele.
— É temporário, até termos como completar o pedido de Zigfryd. — Ti’metios começou a andar também, os dois em lados opostos se encarando.
— Ah, sim. Encontrar um sentido. — O General fechou os olhos por um instante. — Nós já temos um sentido.
— Ora, então me esclareça a resolução de nossa missão.
— Poder. É o nosso sentido — o General respondeu, firme, e avançou contra Ti’metios com uma potente investida. As duas lâminas começaram a assoviar no ar, mirando o vampiro, que começou a recuar. — Pelo poder, nós pudemos fazer o impossível; ganhamos fama, riqueza e propósito.
Ti’metios via-se sendo lentamente dilacerado pelo General. Cada desvio era insuficiente para enfrentar o par de lâminas que o atacava e, mesmo dando tudo de si, os golpes ainda encaixavam mais rápido do que sua regeneração aguentava. Mesmo assim, ele sabia que aquela luta só não havia acabado porque o General ainda não decidira encerrá-la.
— Sem poder, nós não somos nada! — Ele ergueu a mão direita. O sangue no chão se moveu sozinho, formando estacas que atravessaram o corpo de Ti’metios. O General deixou seu rosto próximo. — Nunca se esqueça disso se quiser continuar vivo. Agora, já é hora de você acordar.
E, com o sibilar da espada, Ti’metios abriu seus olhos e levantou com rapidez. Quando não reconheceu o ambiente — um quarto elegante no interior de uma mansão desconhecida —, vasculhou seu próprio corpo em busca dos ferimentos das estacas, mas restava apenas a sensação de calafrio onde havia sido atingido.
— Minha mente decidiu pregar peças em mim, pelo visto. — Um suspiro saiu de sua boca. Notou seu cabelo solto e que estava usando uma camisa e calças que não eram as dadas pelo barão, mas ainda eram do tamanho errado… dessa vez, pequenas demais. — Eu não aguento mais isso.
A porta do quarto se abriu. Vaedhion parou assim que avistou o vampiro acordado e de pé. Os dois se encontraram, buscando palavras para aquele momento. Ti’metios se aproximou e esticou o braço até alcançar o rosto do elfo. Um sorriso orgulhoso apareceu no rosto do pequeno.
— Por Zigfryd… você está maior do que a última vez que te vi, garoto. Parece até um homem de verdade.
— Pai! — Vaedhion exclamou e prendeu Ti’metios em um abraço apertado que o mesmo retribuiu. O vampiro sentiu algumas lágrimas molharem o ombro de sua camisa.
— Sinto muito por deixar você e Moeda esperando tanto tempo.
Vaedhion enfim soltou o abraço, limpou as lágrimas nas mangas de seu casaco e ficou olhando para Ti’metios.
— Onde você esteve? Todos que voltaram da batalha tinham dito que as chamas douradas te consumiram até virar nada!
— Bom, depois de o Santo da Lança decidir que não tinha outra razão pra viver além de me matar, ele se sacrificou para levar nós dois juntos. Zigfryd ainda estava presente, de alguma forma, e usou o que restava de si para impedir minha morte. Isso, como você pôde notar, não impediu as sequelas, então… ponto para o Santo. Eu estava hibernando todo esse tempo — Ti’metios explicou, alongando-se ao sentir seus músculos doerem um pouco ainda. E odiando as roupas, obviamente.
— Isso… explica algumas coisas. Você perdeu muito tempo nesse período todo.
— É. Eu tô sabendo que Bayern foi dividida, e imagino que muito mais além disso aconteceu. E você virou um nobre, qual é a dessa história? — Ele sentou na cama, esperando, atento, pela explicação.
— Isso? Depois que você “morreu”, as coisas ficaram… complicadas sem você ou Zigfryd para colocar as coisas em ordem. Eu e Duncan ficamos encarregados de cuidar de tudo; ajudar os homens a se ajustarem, reconstruir, estabelecer ordem, apagar as chamas do que restou da guerra.
— Tiveram a agenda cheia.
— Não foi fácil sem você por perto, mas demos um jeito. Eu poderia dissertar sobre os últimos séculos, mas você pararia de prestar atenção no início. Eu fui recompensado com um título depois de tudo. As pessoas passaram a me ver como seu sucessor e, então… eu virei “O Sentinela”, assim como você era “O Pequeno Guerreiro”.
— Hm. Eu não teria aceitado o título de conde. Muito cansativo lidar com a nobreza constantemente.
— …Sabe que você tem um título maior que o meu.
— Porque foi necessário na época. Mas um homem que morreu não tem título algum.
Ti’metios olhou pela grande janela na parede, pensativo. Não pretendia deixar seu legado como um fardo para Vaedhion.
— Duncan… ele… ainda está por aí? — o ruivo perguntou sem desviar o olhar da janela, a resposta já no fundo de sua mente.
— Sinto muito, mas ele já não está entre nós faz algumas décadas.
Era o que ele já esperava.
O vampiro ficou em silêncio por alguns instantes, levantou-se da cama e respirou fundo. Começou a amarrar seu cabelo, mas houve uma interjeição de Vaedhion.
— Espere! Foi um saco desfazer esse seu nó! Enquanto você dormia, eu consegui preparar um… presente de boas-vindas.
— …Quanto tempo eu fiquei dormindo?
— Desde que chegou aqui. Três dias. — Vaedhion apontou para a porta. — Venha, você vai gostar do presente, e tenho algo para te devolver.
— Três dias?! Foguinho forte… — O vampiro saiu junto do seu filho, navegando pelos corredores da mansão com olhos atentos. Janelas grandes e ornamentais, serventes que observavam com respeito e admiração a Vaedhion, mas que o encaravam com curiosidade.
Foi levado até o closet pessoal do conde, onde havia um manequim simples de madeira vestindo uma túnica cinza com linhas prateadas e gola alta, além de uma bela e longa faixa vermelha dobrada ao lado, junto com calças negras. No canto, um par de botas de couro e braçadeiras; em cima de um dos gabinetes, uma fita de tecido para amarrar seu cabelo.
— Eu sei que você gosta de se vestir bem, então pedi para fazerem isso com urgência para que recebesse quando acordasse.
Ti’metios fechou a porta do closet, aproximando-se da roupa com cuidado. Apesar de Vaedhion não poder ver, ele sabia que o vampiro estava contente de ter algo que lhe servisse agora. Ti’metios rapidamente trocou as peças de roupa que usava pelas do manequim e enrolou a faixa, firme, ao redor de sua cintura, deixando um pedaço dela sobrando solto, mas que não atrapalhava. As botas e braçadeiras se encaixaram com precisão, ajustadas ao gosto do vampiro. Então, ele pegou a fita, atando seu rabo de cavalo novamente, e alongou-se depois de se vestir, sentindo-se bem melhor com aquilo.
— Bem mais confortável.
— Qual é a do rabo de cavalo, aliás?
— Não me enche o saco com isso também não. É porque eu gostei, me deixa maneiro. — Ti’metios começou a golpear o ar, testando como a roupa acompanhava seus movimentos.
Vaedhion ficou observando o homem que o criara. Havia uma estranheza em observá-lo sem sua força usual, e conseguia perceber isso mesmo só de vê-lo praticar.
— Como se sente?
— Melhor.
— O que pretende fazer agora que está de volta?
Ti’metios parou, cruzou os braços e pensou um pouco.
— Não é óbvio? Achar e dar conta do pessoal que quer mexer contigo.
Vaedhion ficou quieto sobre o assunto, apenas respirando fundo e puxando algo da parte de trás de seu cinto. Uma adaga com bainha de couro escuro, detalhada para parecer couro de serpente. Ele estendeu a arma para Ti’metios.
— Isso é seu.
— Minha velha adaga! — O vampiro sequer hesitou antes de tomá-la das mãos do elfo. Ele tinha um interesse muito particular em equipamentos de qualidade. Desembainhou-a, deixando a lâmina prateada à mostra. — Não é a mesma coisa sem eu poder canalizar magia por ela. — Ele guardou a arma, fixando a bainha em sua faixa.
— E, por isso, não posso permitir que se envolva nos meus problemas.
Ti’metios ficou encarando Vaedhion com uma expressão de quem não havia entendido a fala.
— Muito engraçado.
— Não foi uma piada.
— Não fale assim comigo, garoto. Eu não vou ficar de lado enquanto buscam te ferir.
— Você não está apto para lutar, pai.
— Posso me virar muito bem contra um bando de mercenários medíocres! — Ti’metios exclamou, dando um passo firme que fez Vaedhion recuar.
— Não nesse estado! — Mas o Sentinela logo retrucou com seu próprio avanço. — Hoje são mercenários, e quando for algo maior?! Pretende enfrentá-los com a possibilidade de desmaiar e precisar ser salvo de novo?!
— Eu sou o Campeão de Zigfryd!
— Você ERA o Campeão! Zigfryd não está vivo, os Santos não estão vivos, e você está fraco! Precisa se recuperar!
Ti’metios rangeu os dentes, os punhos cerrando-se com tanta força que cravou suas unhas nas palmas, liberando um pouco de sangue. Ele empurrou Vaedhion para o lado e saiu da sala.
— Nós não terminamos essa conversa!
— Não, espera, eu não quis dizer isso… Pai! — Vaedhion foi atrás do vampiro, tentando conversar, mas suas palavras não o alcançavam. Chegaram ao quintal da mansão; Ti’metios seguia rumo à saída.
Aurelyn e Darian, que estavam treinando entre si com Kayla observando, pararam o que faziam para ouvir o tumulto.
— Dá pra esperar?!
— Eu vou andar, não me enche o saco. — E, deixando o elfo para trás sem virar o rosto, Ti’metios foi para a cidade.
O trio se encarou, curioso.
— O que deu nele? Achei que ele estaria mais… feliz — Darian comentou, observando Vaedhion, frustrado, dar meia-volta em direção à mansão.
— Eu nunca vi Lorde Vaedhion tão… sem controle da situação.
— Família complicada, essa. — Aurelyn largou sua lança de treino e começou a sair também.
— Tá indo aonde?
— Ficar de olho nele, ele provavelmente vai se perder. Vocês vêm?
Darian largou sua espada, indo até Aurelyn.
— Meu senhor pediu para ficar de olho nele.
Kayla foi a segunda a se aproximar, acompanhando-os para fora. E então, juntos, eles foram atrás do velho vampiro.