LNCrawler

Capítulo 14 — Invasão em Medéia

O Pequeno Guerreiro — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 14 — Invasão em Medéia

O cenário ao redor ficava cada vez mais imerso em caos: pessoas comuns ajudando outras a serem retiradas da confusão enquanto a guarda da cidade tentava conter os ataques. Os mercenários ergueram a guarda diante da presença do Sentinela. Mesmo parado, sua expressão de confiança e postura calma tornavam a situação preocupante para eles.

— Darian. Saia daqui e vá ajudar os civis.

— Mas—

— Não foi uma sugestão. Vá. — A voz do elfo atingiu o jovem de forma firme, acompanhada de um olhar rígido que faria muitos homens se acovardarem.

Darian rangeu os dentes em um gesto de fúria voltado aos mercenários, segurando sua espada com tamanha força que lhe doía o pulso. Sem mais palavras, ele virou na direção contrária à dos inimigos e saiu correndo para auxiliar os guardas e civis contra os outros invasores.

Uma flecha de vento foi dissipada com um movimento da alabarda negra. O olhar de Vaedhion travou na maga, que tinha as mãos erguidas para manipular a mana ao seu redor, com um sorriso desdenhoso estampado no rosto.

— Opa, você não estava tão distraído como pensei!

Sem desperdiçar palavras, o Sentinela encostou sua arma no chão e, com uma rapidez que assustou o grupo, arrastou-a para a frente. As pedras da rua se deformaram, indo na direção deles como uma poderosa onda de terra. O maior bateu com seu porrete para baixo, partindo a onda com a força bruta na qual tanto confiava.

O olhar do bruto arregalou-se quando o elfo se revelou escondido atrás da cortina de detritos. Ele havia avançado junto dela para forjar uma oportunidade de eliminação rápida. O colidir de metal, no entanto, demonstrou a falha em sua tentativa: a lâmina branca de Voron impediu o acerto da alabarda contra a cabeça do bruto.

Fora do campo de visão do Sentinela, a arqueira preparava uma flecha com uma runa gravada em sua ponta. A corda de seu arco estava esticada, a tensão acumulada para um disparo certeiro. O porrete do bruto rapidamente atingiu a costela do elfo, que não esboçou reação; era como acertar uma parede.

Poeira desprendeu-se de sua costela: uma camada de pedra havia absorvido o impacto do golpe em seu lugar. Vaedhion atingiu o queixo do bruto com o cabo da arma, jogando a cabeça dele para trás. O som de algo cortando o vento o fez retomar a atenção para a arqueira, reagindo rápido o bastante para erguer uma parede com sua magia que serviria de bloqueio.

A ponta da flecha brilhou em laranja. A energia liberada antes que a parede fosse completamente formada resultou em uma explosão concentrada. Os estilhaços voaram contra o corpo de Vaedhion, abrindo os primeiros ferimentos que ele adquiriria naquela luta.

— Hm. — A dor, para ele, foi irrelevante. Encarou seus adversários um por um. — Vocês não estão aqui para me derrotar.

Voron ficou de olhos arregalados por um momento, incomodado com a leitura da situação feita pelo elfo.

— Estão comprando tempo. Me enfraquecendo até chegar o que realmente esperam que consiga me matar.

Os mercenários ficaram tensos, sem responder, mas também inseguros demais para agir contra ele naquele instante. Foi como se Vaedhion aumentasse de tamanho com uma mera mudança de expressão; adquiriu um sorriso tão cheio de si que parecia já haver vencido a batalha.

— Mas eu sei algo que vocês não sabem.

— E o que seria isso? — Voron questionou.

— O meu pai está aqui.

O elfo bateu o pé no chão, e o solo tremeu enquanto as pedras cediam ao seu comando. Em uma fração de segundo, estava diante do bruto, que não teve tempo de exclamar nada antes que sua cabeça fosse separada do corpo. Os mercenários, assustados pela diferença gritante de velocidade comparada à de alguns minutos atrás, saltaram para longe, a visão do cadáver atingindo o chão agora gravada em seus olhos.

— Levem isso a sério, se não desejam a morte.

Do outro lado da cidade, os mercenários caíam rapidamente em bandos, no ritmo de um estalar de dedos que vinha acompanhado por um raio azul. Os civis corriam pelos cantos das ruas, defendidos por uma elfa de cabelos púrpura: a maga do Conde, Kayla.

— Não consigo nem concluir uma lista de tarefas em paz mais. E vocês só conseguem me pegar com uma armadilha, bando de otários. — Sentiu uma gota quente escorrer logo abaixo de seu nariz e limpou-a com as costas da mão, deixando uma mancha avermelhada na pele. Por mais que estivesse tendo facilidade para eliminar os invasores, estava esgotando suas reservas de energia rapidamente.

— Senhorita Kayla! — A voz de Darian surgiu por trás; ele carregava sua espada manchada de sangue. Parou ao lado da elfa, o suor deslizando por sua testa apesar do frio intenso.

— Darian, você parece intacto! Ainda bem.

— Seu rosto tá… sujo, bem aqui. — O rapaz apontou para logo acima dos lábios de Kayla, onde restava um pequeno rastro de sangue, que a elfa prontamente limpou.

— Como estão as coisas do seu lado?

— Coloquei os civis que encontrei em um lugar seguro, mas parece que cada esquina que viro tem mais desses mercenários. Aquele tal Voron e outros três estão enfrentando o Sentinela agora mesmo! Eu ia ajudar, mas…

— Mas ele te mandou dar o fora e ajudar os outros.

— Eu sou inútil por acaso?

— Não é nada disso. Lorde Vaedhion só fez o que achou melhor para a situação. Ele é forte, não são alguns mercenários que vão conseguir matá-lo.

Uma nova onda de mercenários surgiu, cercando o cavaleiro e a maga. Os dois ficaram com as costas viradas um para o outro.

— Você ainda aguenta lutar mais, Senhorita Kayla?

— Não me subestima não, abusado. — Ela deu uma leve cotovelada na lateral de Darian. Respirando fundo e estalando os dedos, iniciou-se uma nova dança de relâmpagos e espadas.

Nos telhados próximos à mansão de Vaedhion, a pequena figura de Ti’metios e a esbelta figura de Aurelyn observavam o caos da cidade. Tiveram sua aula de escrita interrompida pelo barulho. Deixaram o seu próprio rastro de batalhas antes de conseguirem chegar ao alto, mais por conta da mulher.

O mais velho coçou o queixo, o olhar deslizando pela cidade com uma expressão incomodada.

— Não faz sentido. — disse o vampiro em tom baixo, uma frase destinada a si mesmo, mas que não escapou da atenção de Aurelyn.

— O quê? Como esse tanto de gente conseguiu invadir a cidade em tão pouco tempo?

— Não isso, eu já fiz coisa pior antes. Até tenho algumas teorias de como fizeram, mas ficam para depois. Não estou entendendo o propósito desse ataque; observe a maioria dos mercenários. — Ti’metios apontou em direção aos guardas que batalhavam. Os invasores estranhamente lutavam de forma defensiva contra eles. Não pareciam ter a intenção de avançar para o centro da cidade, ou até mesmo para o norte, apenas de se manter nas outras áreas. — Não vieram aqui para tomar o local, ou saquear.

— Então o que estão fazendo aqui? É um esforço muito grande para saírem de mãos abanando. — Aurelyn apoiou-se em sua lança, a dúvida pairando em sua mente.

— Vai ver estão seguindo meu exemplo: devem ter um alvo que precisa ter menos atenção voltada, e concluir esse objetivo vale o custo de invadir uma cidade como essa. A outra possibilidade é que são uns palermas, mas duvido dessa.

O vampiro analisava para onde deveria ir, então. Com sua força limitada, ele não podia se jogar na batalha sem se preocupar consigo mesmo, como faria se não fossem seus danos internos. Seus ouvidos, sensíveis como os de um morcego, captaram na distância um som muito peculiar e estranhamente familiar.

— Ouviu isso? — questionou.

— Gritos e espadas batendo? Bastante.

— Não, é outra coisa… parece um…

Escutou mais uma vez. O som de ar sendo deslocado com tamanha força que seria capaz de levantar uma casa presa por uma corda. As batidas de uma imensa asa que ele reconheceria em qualquer momento, esse incluso.

Seus olhos se arregalaram, virando-se para o leste, de onde um pequeno ponto vermelho se aproximava cada vez mais rápido e sua figura se tornava mais fácil de distinguir. Com aparência de um lagarto e um par de asas enormes que não deveriam ser capazes de levantar todo aquele peso: um dragão.

— Sakaar?! Espere, não, é pequeno demais para ser ele. Seria a cria dele? O que um dragão faz tão perto daqui?! — Uma enxurrada de perguntas invadiu os pensamentos de Ti’metios, que se incomodava mais e mais com toda a estranheza do ataque. Sem hesitar, sacou sua adaga e correu na direção de onde vinha a criatura.

— Espera— Ti’metios! Grr… mas que velho chato! — A morena saiu atrás do pequeno vampiro, sem entender seu surto.

Mal sabiam ambos os lados o que perderiam naquele dia.