Capítulo 3 — Feudo Severin
Capítulo 3 — Feudo Severin
O quarto era pequeno, não muito arejado e nem muito claro. Aquilo era um quarto de servente na residência do Barão. Sentado no centro do pequeno quarto, com as mãos juntas e pernas cruzadas, estava Ti’metios em um profundo estado de meditação.
Seus olhos se abriram de repente, mordeu a ponta do polegar direito e desenhou no chão uma runa no formato de um olho. Colocou sua palma por cima do desenho e focou…uma vez, duas vezes, três vezes. Nada aconteceu.
— …
Ele suspirou. Sentia que a magia nos arredores estava muito mais intensa do que na sua época, o que esperava que fosse ajudar para ele poder fazer algo, mas com seu núcleo em recuperação ele seria incapaz de usar magia sem extensos rituais. Limpou o desenho do chão enquanto o sangue ainda não secou.
A porta do quarto se abriu. Darian jogou sua sombra por cima do vampiro, parecia estar carregando algo. Ti’metios ergueu a cabeça para encarar o cavaleiro.
— Fala, pivete — O vampiro cumprimentou com um tom arrogante.
— Me chame assim de novo e eu corto seu braço — respondeu o cavaleiro. Jogou um conjunto de roupas no vampiro, não rasgadas e deterioradas igual as que o vampiro usa naquele momento.
— Que poço de alegria sem fim. — Ti’metios pegou as roupas. Não esperava nada demais mas ainda foi um pouco surpreendido. Uma camisa de lã, um sobretudo escuro e longo, calças de linho reforçado também escuras, e um cinto de couro. — Isso é um pouco demais para presentear um estranho.
Darian não respondeu nada, deixou um par de botas de couro no chão. Pareciam um pouco grandes para o vampiro, mas ele não reclamaria.
— E botas de couro. — Ele encarou Darian. — Vocês estão tentando me agradar ou algo do tipo? Imaginei que você que tanto suspeita de mim iria questionar.
— Você é um convidado, e ficará conosco por algumas semanas. Meu senhor disse que não pode deixar você andar como um maltrapilho.
— Hm, obrigado. — O vampiro retirou suas roupas desgastadas, não parecendo incomodado com a presença de Darian. O Cavaleiro igualmente não se importava com a cena.
Ti’metios se vestiu, as roupas, para sua surpresa, não ficaram grandes a ponto de atrapalhar. Pelo contrário, era até estranho que serviam nele de fato. Menos as botas, essas ficaram um pouco grandes mesmo.
— E…ele me deixou com um guarda pessoal pelo visto — comentou de olhos vermelhos, encarando o jovem cavaleiro.
— Você é um vampiro — afirmou o de olhos prateados, sua postura não era tensa, mas o olho atento do Campeão de Zigfryd notou que aquele rapaz estava preparado para arrancar sua cabeça assim que sentisse necessário.
— Já falei que não vou comer ninguém. Por Zigfryd…não julgo sua precaução de toda forma. — Ti’metios ajustou o cinto, deixando as roupas mais fixas em seu corpo. Amarrou o extenso cabelo em um rabo de cavalo, não gosta da sensação de tê-lo tão solto. — Hm, serve.
— O Mestre quer conversar com você. — O cavaleiro saiu da porta, abrindo caminho para o vampiro.
— Tá, tá… me leve até ele.
Ti’metios saiu do pequeno quarto, acompanhou Darian pelos corredores da residência. Não era nem de perto uma das mais luxuosas que já viu em sua vida, mas era melhor do que qualquer cada da propriedade obviamente.
Os serventes do Barão encaravam o vampiro. Curiosidade, medo, desprezo, indiferença em alguns raros casos, podia ser encontrado no olhar deles.
O cavaleiro olhou de canto para Ti’metios. Notou que o vampiro não se importava com os olhares, mantendo o olhar exageradamente confiante que Darian já detestava.
Entraram em uma sala de jantar, a mesa de madeira com Valerius sentado na ponta mais distante da janela. Na ponta oposta, um prato, talheres e uma taça para Ti’metios. A mesa tinha comida, mas era um pouco menos do que o de olhos vermelhos esperava, mesmo para um baixo nobre.
— Já adianto que agradeço pelas roupas. Mas as botas ficaram grandes. — O vampiro disse enquanto apresentava um de seus pés para o barão.
— Você já teve sorte de termos roupas sobrando, quanto mais de servirem em você. Vamos, sente-se. — pediu o barão, apontando para a cadeira oposta à ele.
Ti’metios se sentou. Darian ficou ao lado do barão. Valerius percebeu que havia uma certa tensão entre os dois pelo contraste das personalidades.
— Barão, não me chamou aqui para perguntar como foi meu dia. O que quer?
— Direto ao ponto? Se é assim que prefere. — Valerius tomou um gole de vinho. — Meus subordinados estão inquietos sobre você desde ontem. Quero saber mais para poder acalmar eles.
Ti’metios se inclinou para trás, equilibrando a cadeira em seus apoios traseiros. Cruzou os braços de forma despretensiosa.
— Vá em frente, pergunte.
O de cabelos castanhos não fez caso da atitude de seu convidado, por mais arrogante que fosse.
— Do que você se alimenta?
— Essa pergunta é séria ou você tá contando piada? Sangue.
— Sangue, claro. Mas sangue somente humano? — Valerius juntou as mãos e observou com atenção o vampiro.
Ti’metios levou um tempo para pensar em sua resposta de forma simples. — Não, eu posso tomar qualquer tipo de sangue contanto que não seja velho demais. Mas assim como vocês tem alimentos que possuem traços distintos, cada tipo de sangue tem algo diferente. Seja no sabor ou por quanto tempo me mantém saciado.
— E quanto tempo até precisar de sangue mais uma vez?
— Me alimentei bem ontem, então ao menos mais duas semanas.
Valerius mexeu a cabeça algumas vezes, de olhos fechados. Abriu eles e seguiu para a próxima pergunta.
— É dito que os vampiros são fracos ao sol, prata e alho. Quanto disso é verdade?
— O alho é só mentira. A prata é mais eficiente restringindo nossa cura, sim, mas não é uma fraqueza mortal. O sol… esse é parcialmente verdade.
— Meu senhor, eu vou querer uma espada de prata. — Pediu Darian, com um olhar neutro.
— Darian. — Valerius tentou conter antes que o jovem falasse mais algo.
— Vai se fuder você também. — O pequeno falou, mas pareceu um pouco entretido com a indireta. — O sol afeta aqueles como eu, quem contrai vampirismo, durante os primeiros meses da mutação. É a fase onde ficamos excessivamente frágeis, o sol queima a pele e músculos em poucos minutos, mas depois a resistência volta e podemos continuar andando durante o dia. No entanto, a grande maioria dos vampiros selvagens não conseguem chegar nessa parte. — Explicou o vampiro.
— Entendo. — Valerius parecia estar com a mente ocupada em lembrar dessas informações, ou ao menos as partes que importavam para ele.
— Mas então, Barão, por que não me diz o que quer de mim de verdade?
— O que quer dizer? — questionou o barão.
Ti’metios riu de leve, subiu na mesa e caminhou lentamente em direção ao nobre, sem pisar na comida. Darian apontou sua lâmina para o pequeno, mas aquilo não o impediu de continuar andando.
— Me aceitou em sua casa, me vestiu, e até me ofereceu alimento mesmo que eu não coma. O que espera ganhar dessa gentileza? Conhecimento antigo? Poder incrível além da compreensão? Ou talvez imortalidade! — O vampiro se abaixou, encarando Valerius com um sorriso sinistro. — Mesma história de sempre.
O de cabelos castanhos não mudou sua expressão, olhando nos olhos do vampiro com sobriedade.
— Nada.
A expressão de Ti’metios se deformou enquanto olhava o barão, tomando um semblante de confusão.
— Nada?
— Não preciso de motivos para ceder minha ajuda. E não quero nada de você, já salvou um dos nossos e os suprimentos vão manter outros vivos. — O nobre afirmou ainda com tranquilidade. O vampiro prestou muita atenção, aquilo foi sincero.
O pequeno olhou a mesa onde havia caminhado, e desceu dela. Encarou o barão por mais alguns instantes, as sobrancelhas levemente erguidas. — Agora eu só me sinto babaca de ter andado na mesa.
Darian guardou sua espada quando o vampiro deixou de apresentar ameaça. — Não repita isso.
Ti’metios revirou os olhos com o comentário, diferente de Valerius, Darian ainda tinha um longo caminho até conquistar o respeito do mais velho.
— Saiba que não pretendo ficar parado enquanto espero o inverno passar. — Afirmou o mais velho na sala.
— Isso significa? — perguntou Valerius.
— Significa que eu não quero ficar com a bunda plantada observando a neve cair, nada demais.
Um silêncio estranho inundou a sala, desconfortável pela falta de palavras que continuariam aquela conversa sem parecer forçado.
— Você fez soar bem mais dramático.
— Foi acidental.
E o silêncio permaneceu.
— Eu estava esperando que você sugerisse algo.
— Não, eu…não tenho nada em mente. Mas você é livre para fazer o que quiser enquanto não prejudicar a nós, Darian continuará ao seu lado por segurança. — afirmou o Nobre, que logo continuou. — As pessoas podem estar um tanto alertas com você, peço que seja compreensivo.
— Eu sou velho o suficiente para entender que as pessoas não gostam de vampiros. Vamos, pivete. — Disse o vampiro com um tom convencido enquanto saía, encarando o cavaleiro que parecia prestes a sacar sua espada se não estivesse na presença de seu mestre.
Do lado de fora, guardando os portões agora fechados estavam Luke e Lloyd. Trocando conversas em mais um dia entediante.
— A gente convidou um vampiro, pra dentro dos muros. — Disse Luke, ainda processando o que aconteceu no dia anterior.
— Sim. — Respondeu Lloyd, se apoiando em sua lança.
— E ele virou um convidado do Barão.
— Isso.
— E eu não estou sonhando toda essa situação enquanto estou com febre na minha cama?
— Pela quinta vez, não.
— Que absurdo!
Vindo da residência de Valerius, Ti’metios se aproximava com Darian logo atrás. Os aldeões encaravam ele de suas casas, uma criatura da noite, um vampiro como aqueles que arrasam vilarejos e devoram os vivos…mas ele não parecia muito ameaçador.
— Então o sujeito que eu salvei, Frederick, mora aqui?— perguntou Ti’metios, observando a casa feita com estrutura de madeira e rebocada com argila, parecia mais sofisticada do que as de sua época, o que era esperado. — E ainda assim não chegam perto do castelo… — ele sussurrou para si mesmo.
— Sim. Mas por quê quis vir aqui?
Ti’metios bateu na porta e entrou sem pensar muito, para o incômodo de Darian. Os aldeões cochichavam suas teorias sobre a visita. Fome? Silenciando uma testemunha de algo mais que teria acontecido aquela noite? Quem sabe.
A casa era pequena, como esperado. Servia como loja e lar para Frederick, que agora repousava em sua cama com sua perna direita, ou o que restou dela, enfaixada.
— Mestre Vampiro! — Foi como Frederick cumprimentou Ti’metios, que respondeu com um sorriso leve.
— Ti’metios é meu nome, me chame assim. Como se sente? — O vampiro ficou ao lado da cama, observando as bandagens com atenção. — Vejo que trataram bem a sua ferida.
— Dói bastante, mas o doutor me deu algumas ervas para aliviar. — Frederick colocou a mão em sua perna enfaixada, apertando com firmeza onde deveria estar o restante dela. — Ainda sinto meus dedos, até imagino que mexo eles. Mas eu estou bem!
— Nem quero imaginar como deve ser. — Os olhos do vampiro buscaram algo no local. — Ele disse quanto tempo até a cicatrização? — Encontrando um pequeno rolo de barbante, ele pegou a ponta e começou a medir as duas pernas de Frederick com o barbante, Darian encarava julgando.
— Posso tirar as bandagens em algumas semanas mas… — O aldeão não terminou a frase, confuso com as ações do vampiro. — O que está fazendo?
— Tirando medidas. Bom saber que o corte foi limpo ao menos. — Ele mediu da ponta do pé esquerdo até o ombro de Frederick, e então guardou o barbante onde encontrou. — Apenas vim conferir como você estava. Descanse bem. Vamos, pivete. — E antes de permitir que um dos dois abrisse a boca, o vampiro saiu da casa.
— O que diabos você está fazendo? — O Cavaleiro questionou incomodado com suas ordens de acompanhar Ti’metios. E o fato do mais velho estar andando com tanta rapidez, pra alguém tão pequeno, aparentemente sem rumo, não ajudava a ele gostar mais da tarefa.
— Matando tempo. Onde vocês guardam a madeira?
— No fundo da vila. Pretende usar o armazém para esconder os cadáveres que devorar?
— Deixe de ser idiota. — Ti’metios se aproximou do armazém, fechado para manter o material protegido obviamente. É parte da função de um armazém afinal. — Só preciso de um tronco.
Ele abriu as portas do armazém, puxando com uma mão um tronco, não muito grande, pouco maior que ele em verdade. Mesmo enfraquecido, Ti’metios estava longe de ser considerado fraco por sua natureza vampírica. Sua mão direita se deformou por um instante, tomando uma forma monstruosa com longas e afiadas garras.
— Guarde suas garras, Vampiro. — Antes de Ti’metios começar a fazer o que queria, Darian já tinha a espada próxima de seu pescoço.
Mas o vampiro não pareceu se importar, fechando as portas do armazém e se sentando no chão.
— Não é uma bancada de trabalho, mas vai servir. — As garras começaram a cortar o tronco pedaço por pedaço. Ti’metios olhou de canto para o cavaleiro que permanecia com a espada apontada para ele. — Se não quer que eu use minhas garras, me dê uma faca.
— O que vai fazer com esse tronco?
— Uma muleta.
— …Como é? — Darian abaixou sua lâmina, um tanto confuso.
— Frederick perdeu o pé, vai precisar de um apoio. — Ele voltou sua atenção para continuar esculpindo o tronco aos poucos. — Já faz um tempo que não faço algo assim, mas acho que ainda tenho a manha.
— Você é um carpinteiro?
— Eu fui, mas isso foi…muito tempo atrás, muito mesmo.
Os dois ficaram em silêncio, Darian remexeu algo em suas costas e estendeu uma pequena lâmina para Ti’metios.
— Use, não quero ter que encarar essas suas garras. — Ele diz encarando o vampiro, sem o olhar de julgamento que manteve desde o início.
A mão de Ti’metios tomou uma forma humana novamente. Ele segurou o objeto entre os dedos, agradecendo com um aceno de cabeça. Continuou esculpindo o tronco de pouco em pouco, aquilo ainda levaria alguns dias para ficar pronto.
— Onde aprendeu isso? — Perguntou Darian, com curiosidade sincera.
— Meu pai era um carpinteiro, meu avô também, era apenas lógico que eu seguisse esse caminho. — Ele disse soprando as lascas de madeira soltas no tronco. — Essa não é a primeira muleta que faço, mas normalmente eu teria uma mesa para trabalhar nisso. — Ti’metios levantou o olhar para Darian.
— Você que peça para os aldeões.
— Droga. — E voltou a esculpir.
— Qual foi a primeira?
— Um amigo da família foi atacado por um bando de coiotes, não conseguia encostar o pé no chão por nada. Tive a ideia de fazer uma muleta para que ele andasse melhor, e pedi ajuda para o meu pai. Ela ficou funcional mas…eu era jovem, então não foi o melhor dos meus trabalhos. — Ti’metios limpou a lâmina no chão rapidamente e continuou trabalhando.
Enquanto Darian observava aquele pequeno homem trabalhar, não parecia uma criatura da noite que devasta vilas e devora inocentes como nas lendas, parecia um homem normal, apenas com um passado incomum.
— Se eu ver essa lâmina chegar perto demais…
— Nem termine a frase, eu sei. — Ti’metios falou com uma leve risada.
Darian tirou a mão do cabo de sua espada, permanecendo observando o vampiro trabalhar.
Talvez, apenas talvez, esses dois possam terminar o inverno sem se matarem.